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Gente Solidária
Janeiro de 2008

Missionários na Etiópia: os Gumuz na encruzilhada religiosa
Por: JUAN GONZALEZ NUÑEZ, missionário comboniano na Etiópia



Como a tantos outros povos do continente africano, também aos Gumuz chegou o momento de confrontarem as suas tradições culturais com as novidades que lhes chegam de fora. Como enfrentarão este desafio? É a pergunta a que procura responder um dos primeiros missionários combonianos que foi viver entre os Gumuz para lhes oferecer o Evangelho.

 

«A todos estes povos, sem nenhuma excepção, falta-lhes fé num ser supremo, assim como de toda a forma de adoração ou de idolatria. As trevas da sua mente não estão iluminadas nem sequer por um raio de superstição. A sua inteligência está tão parada como os inúmeros lodaçais que povoam o seu miserável mundo.» Esta dura afirmação pode ser lida num relatório que o explorador britânico Samuel Baker enviou em 1866 à Sociedade Etnológica de Londres. Os povos a quem se referia eram as tribos nilóticas à volta do Nilo Branco no Sul do Sudão. Antropólogos posteriores, mais perspicazes, qualificariam estas tribos de «profundamente religiosas». Porquê este erro de visão num homem que tinha os olhos bem abertos para outros aspectos da vida daqueles povos?

Faço-me esta pergunta depois de ter estado convivendo um longo ano com os Gumuz, uma tribo que pertence à mesma esfera geográfica, religiosa e cultural das descritas por Baker. Com efeito, os Gumuz são também nilóticos (pré-nilóticos para ser mais preciso) e habitam as margens do Nilo Azul, em ambos os lados da fronteira entre a Etiópia e o Sudão. Haverá por acaso alguma característica da religião destes povos que a torne invisível aos olhos de um observador distraído? Antes de responder a esta pergunta, é preciso descrever, pelo menos de modo sumário, quem são os Gumuz. Serei mais preciso, dizendo que este artigo centra a sua atenção nos Gumuz do Norte do Rio Azul, na chamada zona de Metekel, que são quem mais puras conservam as suas velhas tradições. Os do Sul do Nilo e os do Sudão apresentam características muito diferentes, devido ao facto de terem convivido durante muito com a cultura cristã ou muçulmana e de a terem assimilado em boa medida.

 

Sempre a pior parte

 

É sinistro o conceito que as tribos do planalto etíope (Amaras, Oromo, Agaw...) têm dos Gumuz: para eles trata-se de gente primitiva que se mata entre si e que assassina quem se aventura pelas suas terras. Guias há de agências de viagem ou camionistas que recusam ir mais além de Chagni, a última cidade da região amara antes de descer para as terras dos que eles chamam depreciativamente «negros».

Pode existir uma longínqua aparência de verdade em alguns destes preconceitos crassos. Em primeiro lugar, existe um factor físico inegável: os Gumuz são muito negros comparando-os com «os vermelhos», palavra com que se designa os etíopes do planalto, de cor muito mais clara e de rasgos faciais mais finos. A relação entre ambos os grupos sempre foi e continua a ser conflituosa, sem excluir episódios de sangue. Mas a pior parte nunca ficou do lado dos «vermelhos» mas sim dos «negros». Até aos tempos mais recentes, a história é de repressão e de marginalização. As terras habitadas pelos Gumuz eram couto de caça para os magnatas do império etíope. Eram terras cálidas, com grande riqueza de animais selvagens. As partidas de caça incluíam habitualmente a captura de escravos. Uma das grandes fontes de autofinanciamento do imperador Menelik II (1889-1914) era precisamente a captura de escravos entre os Gumuz e outras tribos nilóticas ao longo da fronteira com o Sudão.

Acabada a prática aberta da escravidão aí por 1930, continuou, porém, a marginalização e a pressão pela posse da terra. Os «vermelhos» foram-se apoderando progressivamente das melhores terras, sobretudo nas estivações do planalto, empurrando os Gumuz para as zonas mais baixas e cálidas. Neste processo, contavam frequentemente com a colaboração dos próprios Gumuz, dispostos a ceder as suas terras aos «vermelhos» a troco de uma participação nas colheitas, visto a sua agricultura ser muito rudimentar em comparação com a agricultura mais progressista dos seus vizinhos.

Sem dúvida que esta história de marginalização marcou o carácter da gente. Numa primeira impressão, os Gumuz são toscos e reservados, de sorriso não imediato, de saudação breve e seca, de hospitalidade sucinta, pelo menos quando comparados com outros povos da Etiópia, inclusivamente com os mais limítrofes. Além disso, os Gumuz também têm preconceitos em relação aos «vermelhos» e histórias a contar sobre eles. Contam-nas com o estilo irónico e brincalhão com que normalmente o mais fraco se vinga do mais forte.

 

O universo religioso: Deus

 

Os Gumuz não têm uma prática religiosa bem estruturada, com lugares de culto, sacerdotes profissionais ou vestes rituais. Há com certeza lugares preferenciais de culto, não se tratando de nenhum edifício mas do sopé de uma árvore ou de uma montanha, do rio... Não há sacerdotes que acedam a este cargo mediante uma preparação específica. São os anciãos e as pessoas mais respeitadas as que, conforme as circunstâncias, assumem o papel de oferecer um sacrifício ou de dirigir a oração. Não é necessário que mudem de roupa ou que tomem atitudes particularmente hieráticas. O religioso está em continuidade com a vida de cada dia, impregnando-a toda, ainda que de uma forma mais bem discreta. E este pode ser o motivo pelo qual um observador superficial poderia considerar que os Gumuz não têm religião, como supôs o próprio Baker acerca das tribos do Nilo Branco.

«Nós sabemos quem é Deus. Deus é Espírito (Misa). É Espírito Criador (Misa Yamba), é Espírito do sorgo (Mise-Kwacha), é Espírito do rio (Mise-Guicha)...» Assim se exprimia Begumb, um velho gumuz, depois de lhe ter feito a pergunta, um tanto embaraçosa para ele, acerca do que sabia de Deus. A frase pertence a um homem simples, não especialista em temas religiosos. Contudo, contém em embrião o essencial da fé gumuz. Em primeiro lugar, acreditam de forma clara e inquestionável num Deus único, que é espírito e que é o criador de todas as coisas. Chamam-no de Misa Yamba. Mas a claridade inicial termina depressa quando, logo a seguir, nomeiam outros numerosos espíritos como o Espírito do sorgo, o Espírito do milho, o Espírito do rio... Que são estes espíritos em relação ao espírito criador? São manifestações de um único espírito? É o que nos sentiríamos levados a pensar, especialmente a respeito de alguns deles, como o Espírito do sorgo ou do milho. O sorgo e o milho são os dois cereais mais comuns e apreciados entre os Gumuz. Com eles preparam a comida básica, a enga (uma espécie de papas espessas) e a bebida básica, a kea, feita com a fermentação dos mesmos cereais.

Se se perguntasse a um gumuz porque é que às vezes dirige a sua oração ao Espírito do sorgo e não ao Criador, ele não entenderia a pergunta. Para ele não existe diferença em termos concretos. Aquele não seria outro que o próprio Criador quando se preocupa de lhes dar uma boa colheita de sorgo. «O Espírito do sorgo é quem nos criou», afirma Begumb sem titubear.

Não se pode, porém, dizer o mesmo de todos os espíritos que povoam o mundo invisível dos Gumuz. Mise-guicha (o Espírito do rio), por exemplo, já não é uma manifestação mais do Deus criador. Mise-guicha é um espírito perigoso e malévolo que habita nos rios. É por isso que uma pessoa se aproxima sempre do rio com um certo temor. Se alguém precisa de o atravessar, especialmente de noite, terá de prestar homenagem a Mise-guicha, reconhecendo que entra nos seus domínios. Recolherá, pois, um pouco de água com a mão e molhará com ela as costas. Não dirá nenhuma oração, mas esse mesmo gesto equivale a dizer «não me toque, não me faça mal». De contrário, o espírito irá vingar-se. Se depois de atravessar um rio sente dor nas costas, apressar-se-á a ir ter com o feiticeiro, o qual lhe prescreverá sacrificar uma cabra ou uma galinha, parte de cuja carne atirará ao rio e parte comerá.

A oração pública só se faz em raras ocasiões. Não é costume fazê-la diariamente, por exemplo, quando os vizinhos se reúnem numa casa para beber kea ou tomar café. Fica reservada para os momentos «fortes» do ano, quando se terminam os trabalhos mais duros da sementeira ou da colheita, especialmente se esta última foi abundante. Neste caso, a oração é dirigida ao Espírito do sorgo e é feita pelo mais ancião ou respeitado dos presentes. É uma oração concreta e elementar: «Oh Deus, dá-nos este grão (a colheita). Que as crianças cresçam, que não fiquem doentes, que tenhamos bens, dinheiro...»

 

Na encruzilhada religiosa

 

Os Gumuz praticam, na sua grande maioria, a religião tradicional apenas descrita. Conhecem, sem dúvida, a existência das duas grandes religiões, o Cristianismo e o Islão, por terem estado durante muito tempo em contacto com elas. A influência islâmica chega-lhes do vizinho Sudão, através dos comerciantes que se movimentam pela zona. Daí que, à medida que nos aproximamos da fronteira, o número de muçulmanos aumenta. Trata-se mais de uma adesão nominal, pois não receberam qualquer instrução. Muitos aderiram porque, no decurso de uma doença, tinham ido a um curandeiro muçulmano, o qual lhes dissera que, para que o remédio tivesse efeito, deveriam aceitar o Islão.

A adesão ao Cristianismo responde a outras motivações. A Igreja Ortodoxa Etíope foi durante muitos séculos a religião oficial do Império Etíope. Os Amara e os Agaw, com quem os Gumuz vivem em estreito contacto, são cristãos. Isto cria um sentimento contraditório: por uma parte, a rejeição de tudo o que pertence aos «opressores»; por outra, o desejo de se assimilar com eles. Se um gumuz estudou e chegou a uma certa posição social, é frequente que se declare cristão e que leve uma cruz ao pescoço, sem que isso signifique que tenha recebido uma formação cristã ou que tenha sido baptizado.

O que é convicção de todos é que, mais cedo ou mais tarde, as suas velhas crenças religiosas deverão ser abandonadas, para aderir ao Cristianismo ou ao Islão, como parte do pacote de mudanças que a nova sociedade lhes exige. Há uma certa adesão colectiva, por mais vaga que seja, a uma ou a outra das duas religiões. Os que simpatizam com o Cristianismo contribuirão para a difusão das quatro grandes festas cristãs: Natal, Páscoa, Baptismo do Senhor, Santa Cruz. Os que, ao contrário, estão influenciados pelo Islão farão o mesmo com as suas festas: Ramadão, Arafa, Nascimento de Maomé... A celebração consistirá simplesmente em reunir-se para sacrificar alguma rês e comer carne, pois desconhecem o significado das ditas festas.

 

Presença católica

 

A presença católica é muito recente e limitada. Iniciou-se no ano 2000 com a chegada das Missionárias Combonianas à pequena localidade de Mandura. Três anos mais tarde, os Combonianos estabeleceram-se na nascente cidade de Gilgel Beles, a dez quilómetros de distância das Irmãs.

O catolicismo é uma proposta totalmente nova para os Gumuz e é ainda prematuro predizer como responderão a ela. A Igreja católica apresenta-se como um corpo bem estruturado que não se conforma com uma adesão vaga e nominal. A pertença plena só se dá mediante o baptismo, a que se chega depois de um longo catecumenato. A catequese regular é um autêntico desafio para um povo que, em 90 por cento, nunca se sentou nos bancos de uma escola e que está pouco acostumado a programações férreas. É também um repto à mudança de vida que se lhes exige sem se oferecer nada em troca, em termos de proveito imediato. Embora a sociedade gumuz esteja longe de ser uma sociedade de costumes permissivos, são muitos os pontos em que as exigências divergem profundamente do seu estilo de vida. Como exemplos, temos a poligamia ou as vinganças entre famílias, que degeneram com demasiada frequência em derramamento de sangue.

Só o tempo dirá se se abrirão ao Evangelho de forma rápida e maciça. As pessoas de uma certa idade, homens e mulheres, tendem a pensar que uma novidade destas já não é para eles, mas, em todo o caso, para os jovens que têm o futuro por diante. É fácil que uma povoação acuda em massa quando começam os encontros de catequese, para logo a seguir ir diminuindo paulatinamente até se reduzir a um pequeno reduto. Até ao momento quem tem perseverado até ao baptismo são os jovens, especialmente estudantes.

Nada de estranho em tudo isso. Ao fazer o anúncio cristão, ainda que na forma mais simples possível, uma pessoa percebe a grande distância entre este anúncio e as expectativas e interesses do universo gumuz, incluído o religioso. Mas estas mesmas dificuldades foram também encontradas por outros povos — digamos que todos os povos — ao longo da história da evangelização, já que a mensagem cristã é uma novidade para todos. Porém, mais cedo ou mais tarde, a chama da fé ter-se-á acendido entre eles. E isto porque a mensagem cristã tem um poder em si mesma que vai mais além do mensageiro e das expectativas conscientes dos seus destinatários. Com essa convicção têm evangelizado todos os missionários ao longo dos séculos e, com essa convicção, pusemos mãos à obra aqueles que viemos anunciar a Jesus no meio dos Gumuz, certos de que, na hora certa, produzirá o seu fruto.

 

 

 

 

Religiosidade gumuz

 

Os funerais são um dos momentos mais solenes de toda a vida social gumuz, especialmente quando aquele que morreu é um ancião conhecido e respeitado. Não há uma crença clara no Além. Perguntados explicitamente, chega-se à conclusão de que, para eles, tudo termina com a morte. Porém, o defunto continua a viver de alguma maneira e é zeloso de que sejam cumpridos os ritos que lhe correspondem. De contrário, virá incomodar os vivos. No momento do enterro, derrama-se junto à tumba um pouco de kea e depositam-se sobre a campa grãos de cereal e outros objectos. Logo a seguir, as pessoas concentram-se em casa do defunto durante um par de dias. Canta-se e dança-se até altas horas da noite, come-se e bebe-se. Os mesmos ritos repetir-se-ão, ainda mais solenemente, um ou dois meses mais tarde e no aniversário ou teskar. O sentido das danças e das celebrações parece ser o de consolar a família e o de socializar. O aspecto religioso ou a lembrança do defunto ficam relegados para um plano secundário.

Há muitos tabus que afectam a vida de cada dia. Alguns estão relacionados com o sangue. O tabu que chama mais a atenção (tanto que é um dos motivos aduzidos pelas populações vizinhas para tachar os Gumuz de «incivilizados») é aquele de as mulheres não poderem dar à luz dentro de casa. Fazem-no sozinhas e ao ar livre, vigiadas de longe por alguém. Elas próprias cortam o cordão umbilical e limpam o bebé. A razão disto é que o sangue mancharia a casa e traria males à família. Se bem que esta prática esteja a ser abandonada, ainda falta muito para desaparecer completamente.

Os curandeiros, os gafia, são uma figura indispensável entre os Gumuz, mas, como quase tudo entre eles, é uma figura discreta, sem rasgos excessivamente proeminentes ou extravagantes. O curandeiro é um homem ou uma mulher de aspecto e estilo de vida totalmente normais. Isso não quer dizer que não sejam respeitados e apreciados. A eles acodem para qualquer tipo de doença, posto que o médico ou o hospital é um luxo a que a maioria não poderia aceder mesmo que quisesse. Em cada povoado costuma haver um ou mais gafia. Mas as pessoas podem ir a outra povoação, se acharem que lá existe algum mais poderoso. Se a doença é simples, o curandeiro aplicará um remédio normal, geralmente à base de ervas. Se a doença resistir, deitará mão aos remédios «religiosos». Aconselhará o tipo de sacrifício a fazer, se o de uma cabra ou o de um frango. Também cabe a ele estabelecer se uma determinada doença/morte foi causada pelo mal de inveja ou por um culpado a encontrar.

 


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