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Gente Solidária
Maio de 2002

O dom da partilha
Por: JOSÉ REBELO



José Carlos Mendes da Costa é padre há 27 anos. Destes, 16 anos foram passados como administrador da Editorial Além-Mar. Para os amigos, em Lisboa, ficou para sempre o Zé Carlos de uma peculiar e sonora gargalhada e petiscos fáceis e gostosos, feitos de uma qualquer iguaria inventada no momento. Como ficaram as palavras de consolo nos momentos mais difíceis. Há quatro anos foi para Moçambique e está na missão de Mueria, a 45 quilómetros de Nacala. Cumpre no «mato inóspito» os sonhos adiados em Lisboa, com generosidade e dedicação e uma têmpera que nem as sucessivas malárias têm abatido.

 

Madrugador invejável, trabalhador incansável, excelente «dona de casa», amigo afável e fiável, acolhedor carinhoso são marcas inconfundíveis do padre Zé Carlos. Sociável como é, aprecia a companhia dos outros, com quem faz questão de partilhar a sua vida. Não esconde, por isso, que nos últimos meses, a sua maior dificuldade tenha sido a falta de uma comunidade. O seu colega de missão, o padre Massimo Robol, de nacionalidade italiana, tem estado no Egipto a estudar o islão, para ser, no futuro, o responsável da diocese de Nacala das relações com os muçulmanos.

Daí que, ao receber colegas ou quem o visita, exerça de forma exímia os seus dotes culinários e ponha ao serviço dos outros toda a sua boa vontade.

Senhor de uma hospitalidade sem limites, sente um enorme prazer em receber bem os missionários de passagem e em dar de comer, e de modo abundante, aos líderes e demais cristãos que participam nos cursos e reuniões que organiza na paróquia.

A solidão pesa-lhe, mas não menos penosa é a sua vulnerabilidade à malária, que, apesar de tudo, não o faz esmorecer. «Estou com uma média de duas malárias por mês», contou à Além-Mar. Mas não admite o abatimento provocado pela doença tropical: «A malária exige repouso durante os três dias que dura o tratamento. Ora eu nunca fiquei de cama. Nem sequer um dia.»

Aos primeiros sintomas, ataca a epidemia com Halfan, um medicamento bastante forte, que só deve ser ingerido, no mínimo, com seis meses de intervalo. Acontece que o padre Zé Carlos, para se manter de pé, está a tomá-lo em cada 15 dias, incorrendo no risco de uma doença cardíaca. O resultado deste «tratamento» só poderá ser aferido nas próximas férias na Europa, quando for observado por um médico e verificados os seus valores sanguíneos.

Fala da malária como se ainda estivesse surpreendido com ela: «Durante os oito anos em que trabalhei no Quénia, só a apanhei uma vez. Agora é isto», exclamou.

Os primeiros tempos foram mais difíceis, antes de se habituar à malária. Foi só chegar a Moçambique: «Durante o curso de introdução à língua e cultura macuas, no Centro Catequético do Anchilo (Nampula), cada vez que apanhava a doença ficava uma semana de cama a quinino e a soro.» Ri-se, no seu modo bem característico, para contar: «Entre os participantes, missionários e missionárias, fiquei humoristicamente conhecido como “Miss Malária”.»

 

Pior do que malária

 

É verdade que a malária lhe provocou alguns «apertos» e até desmaios. Mas os maiores sustos teve-os por outros motivos. Recentemente, esteve envolvido num acidente de viação: para evitar atingir uma criança, que se lhe atravessou inesperadamente na estrada, capotou três vezes. Saiu praticamente ileso, apenas com um arranhão na mão. Foi um acidente tão aparatoso que as pessoas comentavam: «O Deus dos cristãos é muito grande!»

Há mais tempo, já na Páscoa de 1999, correu perigo de vida durante um assalto à casa das Irmãs Mercedárias da Caridade, suas vizinhas. Eram duas da manhã quando os assaltantes fizeram saltar o gradeamento de ferro de uma janela para entrarem num quarto, onde supostamente estava o dinheiro da comunidade. Em vez de uma irmã, encontram um diácono, que tinha ido ministrar um curso. Surpreendidos, os ladrões dispararam três tiros. As irmãs gritaram por socorro e o padre Zé Carlos acorreu prontamente. Já estava dentro de casa, quando foi disparado um quarto tiro, após o que os gatunos fugiram. Para trás, deixaram o diácono ferido com uma bala que o atingiu a um milímetro da medula.

O padre Zé Carlos passou o resto da noite numa rodaviva: levou o ferido para o Hospital de Nacala e de lá para o de Nampula, onde foi salvo. O diácono, entretanto ordenado sacerdote, já é padre da diocese.

Desde este episódio, o pátio da missão é patrulhado durante a noite por um guarda armado de metralhadora. Foi a maneira sugerida pela polícia para desencorajar os mais atrevidos!

Quem conhece o padre Zé Carlos sabe bem do seu sentido de solidariedade. Por isso, o que mais o magoa não é o seu sofrimento, mas o dos outros. Apesar de tantos anos a lidar com a miséria e a pobreza e de ser, sistematicamente, confrontado com as necessidades mais elementares, não consegue deixar de se impressionar muito com a falta de alimentos: «O que mais me tem feito sofrer é ver o povo passar fome. Há mais de três meses – desde Dezembro, quando acabaram as mangas –, só comem farelo. Era o que eu dava aos meus cães... Até senti vergonha e passei a dar-lhes outra coisa.»

O Governo não reconheceu o estado de emergência e nenhuma organização acudiu à situação. Até chegarem as maçarocas, o povo passou muito mal e prevê-se que o próximo ano seja ainda pior. «O armazém desta gente está debaixo da terra: é a mandioca. Mas está “doente” e há três anos que apodrece», explicou.

Os mais beneficiados com a sua enorme generosidade são, naturalmente, os que lhe estão mais próximos: trabalhadores e colaboradores pastorais. Sempre que pode, nunca deixa de ajudar quem lhe bate à porta e o seu espírito de compaixão não deixa desiludido quem o procura.

Até ao ano passado, conseguiu manter uma pocilga com mais de 40 porcos, a pensar sobretudo na «sua» gente.

 

Ritmo alucinante

 

O seu dia começa às 4 e 30 da manhã e até ao pôr do Sol ninguém o vê parar. Por volta das 7 e 30 – depois da higiene pessoal, café, oração da manhã, eucaristia e lides domésticas – já está na estrada para visitar as comunidades, as escolas comunitárias e de alfabetização de adultos e os dispensários.

Pelo caminho pára inúmeras vezes para dar boleia às pessoas. Quase como um concorrente dos «chapas» (táxis daquela zona) que «atafulham» os clientes na carroçaria. A diferença é que o faz de graça e com uma insuperável simpatia e paciência.

Tem à sua responsabilidade 50 comunidades cristãs. O seu «todo-o-terreno» chega a quase todas, excepto na estação das chuvas, quando os rios sobem e o capim atinge mais de dois metros de altura, até cobrir o carro. Por isso, pede sempre aos cristãos que não se esqueçam de capinar as picadas. É a única condição para ir visitá-los.

A maioria das pessoas da região é muçulmana. São os chamados «muçulmanos do arroz», porque só vão às mesquitas nas festas mais importantes da religião que professam, quando é distribuída comida, e não vão às sextas-feiras, dia sagrado para o islão. Por isso, apesar de os cristãos serem menos, participam mais nas suas celebrações, reservadas, em geral, para o sábado e o domingo.

 

Escolas comunitárias

 

Durante a semana, grande parte do tempo do padre Zé Carlos é dedicado à educação. Tem 16 escolas comunitárias, onde leccionam 34 professores e estudam 1200 alunos dos primeiros anos da escola primária. No distrito de Nacala-a-Velha, o padre mantém em funcionamento mais escolas do que o Governo.

Chamam-se escolas comunitárias, porque nasceram por vontade das comunidades. São escolas muito rudimentares de «matope e pau-a-pique», sem portas nem janelas, onde as crianças se sentam em troncos de árvores. Os professores deveriam ser pagos pelas diversas comunidades, mas a escassez de «musuruku» (dinheiro) faz com que tenham de se contentar, na maior parte das vezes, com o trabalho dos alunos, que mobilizam regularmente para tratarem dos seus campos, da sua «machamba», como por lá se diz.

Este ano, pela primeira vez, a Direcção Distrital da Educação providenciou livros para todos os alunos da 1ª e da 2ª classes. Foi um bom princípio, mas não chega.

O padre Zé Carlos apoia os alunos com material didáctico: «Se não lhes dou cadernos, esferográficas, lápis e afiadeira, muitos deles só podem escrever no chão.» Além disso, tem colaborado na formação de professores a quem começou a dar uma ajuda em dinheiro: 150 mil meticais por mês (cerca de 7 euros).

O investimento nas escolas representa a sua maior despesa, porque todos os outros ministérios da paróquia são em regime de voluntariado.

Toda a diocese de Nacala tem apostado nas escolas comunitárias, sem as quais a maior parte das crianças não teria acesso à educação, tanto mais que, devido às grandes distâncias, muitos alunos têm que caminhar uma a duas horas para assistirem às aulas.

A diocese tem um total de 400 escolas comunitárias, frequentadas por 21 mil alunos. Trata-se de um trabalho de inegável mérito, que se espera, num futuro não muito distante, venha a ser assumido pelo Governo.

Com a sua presença e o seu trabalho, o padre Zé Carlos tem feito um enorme bem em Mueria: «Somos um sinal de esperança no meio desta gente. Socorremo-los nas adversidades e emergências e, sobretudo, partilhamos com eles o que temos, a fé e a amizade.»

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