Página Inicial







Actualizar perfil

 

Em Foco
Maio de 2003

Arte roubada - A alma africana no exílio
Por: ANTÓNIO PACHECO/MANUEL GIRALDES, Jornalistas



Objectos sagrados, artefactos essenciais para a compreensão de toda uma cultura, peças de uma infinita beleza. Grande parte da arte e da cultura do continente africano encontra-se nas colecções ocidentais, e o debate sobre a sua restituição é um dos principais diferendos que subsistem entre as ex-potências coloniais e as ex-colónias. A Igreja, que tem à sua guarda uma parte deste património, considera fundamental que também neste campo se faça justiça. E que a África recupere a sua arte e a sua «alma».

 

Em 2000, arrancou em África a École du Patrimoine Africain (EPA), um projecto para o desenvolvimento de estudos relacionados com o património cultural africano. Sem grande publicidade, tem vindo a desenvolver uma série de «trabalhos piloto» na área da protecção do património cultural, nas antigas colónias francesas e portuguesas.

Em 2002, no Porto, a Universidade Católica Portuguesa e o Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro dos Bens Culturais (ICCROM) realizaram um encontro técnico para reflectir sobre a questão da protecção do património religioso africano, em que foi decidido estabelecer um fundo especial, o Fundo EPA, para apoiar a École du Patrimoine Africain, instalada em Porto Novo, Benim. Uma boa medida, enquanto se aguarda que no espaço de língua portuguesa surja um projecto autónomo.

A Escola do Património Africano, de Porto Novo, tem como prioridade efectuar uma recolha de informação sobre os bens culturais e religiosos dispersos pelos grandes centros europeus, e também o levantamento do praticamente desconhecido espólio da África de expressão portuguesa e francesa. Muitas instituições africanas, fundações internacionais e governos locais têm recorrido à assessoria da EPA em actividades relacionadas com a defesa do património e a sensibilização das populações para a protecção dos seus valores culturais. Essas actividades permitem à Escola cobrir mais de 50 por cento dos seus gastos.

A seriedade da instituição já levou várias figuras europeias, africanas e afro-americanas a associarem-se ao projecto, tentando angariar fundos e outras formas de apoios. Como «patronos» da EPA surgem os nomes dos presidentes de França, Itália e Tunísia, o director-geral da UNESCO, o ex-secretário-geral da ONU Perez de Cuellar, a presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, Maria de Jesus Barroso, ex-presidente da República do Benim, Emile Zanzou ou o compositor e intérprete Quincy Jones.

Ainda este ano, deverá ter lugar em Lisboa uma nova reunião técnica com gente da Universidade Católica e do ICCROM. Desta vez, o objectivo central é tentar que as autoridades portuguesas assegurem a sua participação, por mais que não seja no plano financeiro.

 

Diálogo adiado

 

Mas a questão é bem mais vasta. Na cimeira União Europeia/África, que decorreu no Cairo no ano 2000, um dos pontos da agenda era precisamente a «recuperação». Ou seja, a restituição dos bens culturais africanos dispersos por todo o mundo, em colecções particulares, museus e instituições.

Foi um dos pontos mais controversos e de consenso mais difícil entre os representantes de uma Europa comunitária – com uma tradição de rapina dos bens culturais africanos, em especial nos séculos XIX e XX – e os políticos africanos, que exigem a «recuperação e/ou reparação». Isto no plano dos princípios, porque não têm uma ideia do que isso significa em termos concretos: não há um levantamento do espólio cultural africano canalizado para fora de África, como também não existe um levantamento dos bens e riquezas culturais que permanecem em território africano, muitos em vias de se perderem definitivamente, vítimas do abandono, das guerras e do roubo.

As conclusões da Cimeira do Cairo não saíram do plano dos princípios, e optou-se por remeter para futuras comissões conjuntas o estudo mais aprofundado do problema. Ingleses, franceses, belgas e alemães têm a noção de que se está perante uma problemática sensível, uma vez que algumas das «jóias» das colecções de arte dos museus da Europa são o resultado do roubo de bens do património cultural africano. Como não se quiseram comprometer, adiaram a questão.

Porém, na declaração final do Cairo-2000 ficou bem explícito que um dos oito domínios de que dependeria o diálogo futuro seria «a restituição dos bens culturais roubados ou exportados ilegalmente».

 

«Êxodo» massivo

 

Em Portugal, o assunto não preocupou as autoridades. O primeiro-ministro da época reagiu com displicência. A reacção tem muito a ver com a falta de conhecimento: não há um estudo sobre o espólio cultural africano existente em território nacional. Funcionou a velha teoria de que «o que se ignora não existe».

Apesar de tudo, parte significativa da colecção do Museu Nacional de Etnologia – considerado pelos especialistas um dos melhores a nível mundial – é constituída por peças vindas de África, e a Sociedade de Geografia de Lisboa tem no seu espólio peças preciosas e raras. Há ainda importantíssimas colecções privadas e colecções de empresas ligadas ao comércio colonial. Já para não falar nos antiquários especializados na venda de arte africana, cuja cotação tem vindo a subir em flecha nos últimos tempos.

Nesta matéria, há que distinguir entre as colecções pacientemente reunidas por exploradores e antropólogos ao longo de cinco séculos de história comum, que estão devidamente inventariadas, estudadas e protegidas, e a espécie de «êxodo» massivo que se sucedeu à independência das ex-colónias. Nos anos de 1974/75, os muitos milhares que regressaram a Portugal trouxeram consigo milhares de objectos. Uma parte deles cabe na categoria de artesanato ou nem isso – já há anos que havia uma produção abastardada de «artefactos para branco» –, mas nos contentores e nas malas vieram também peças importantes das culturas com que contactámos.

Por parte de elementos da Igreja ou de institutos missionários, as depredações que acompanharam o caos gerado pela brusca transição de poderes e a perseguição religiosa justificaram a preocupação de pôr a salvo o espólio que estava a seu cargo. E também neste caso se desconhece exactamente o número e a importância das peças que foram «guardadas» no nosso país.

 

Bens sagrados

 

Em Outubro de 2001 reuniram-se em Bruxelas os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia e da União Africana para passar em revista os progressos verificados no período pós-Cairo. Concluiu-se que pouco se tinha avançado no campo da «recuperação/restituição» dos bens culturais «roubados».

Um ano depois, a 29 de Novembro de 2002, uma nova reunião interministerial teve lugar em Ouagadougou para preparar uma nova cimeira, agendada para Lisboa, para Abril de 2003. No encontro, lançaram-se pistas para um «novo debate» sobre a «questão sensível» da restituição dos bens. A Igreja tem estado presente nesse debate. A recuperação dos bens culturais africanos já deixou de ser matéria de exclusivo interesse de uns poucos académicos.

No colóquio das Conferências Episcopais da União Europeia e de África, em Março passado, o tema foi abordado na perspectiva dos bens culturais sagrados e no âmbito mais alargado do diálogo entre culturas e religiões. No documento introdutório do colóquio sublinha-se que as «relações entre África e a Europa não se limitam aos aspectos económicos e políticos». E acrescenta-se: «Para além da redução da dívida, o ponto sensível da ordem do dia da cimeira de Lisboa será, sem dúvida, a questão da restituição dos bens culturais exportados ilegalmente.»

Finalmente, nas conclusões do colóquio, que pretendia ser um contributo para a preparação da Cimeira Lisboa-2003, sugeria-se à União Europeia e à União Africana que incluíssem nos seus debates políticos e económicos a discussão sobre os valores espirituais e culturais que formam a identidade dos povos dos continentes. O que é uma outra forma de chamar a atenção para a restituição dos bens exportados ilegalmente. Entretanto, a Cimeira Lisboa-2003 encontra-se indefinidamente adiada, por motivos políticos e sobretudo por falta de vontade das autoridades portuguesas, e toda a problemática «recuperação/restituição» fica também mais uma vez adiada.

A verdade é que se o diálogo não funcionar a breve prazo, vão surgir movimentos radicais em África exigindo uma restituição imediata dos bens considerados roubados.

É o caso do movimento Africa Reparations Movement (ARM), que pretende «utilizar todos os meios legais disponíveis para assegurar o retorno a África de todos os bens artísticos onde quer que eles se encontrem».

O que nem seria bom para África. Basta ver que, nas zonas de conflito e onde a fome impera, continua o saque indiscriminado do património do continente. Para constatá-lo, há só que reparar nas «novas» preciosidades que estão constantemente a aparecer nos leilões milionários e nos requintados antiquários das grandes capitais do mundo ocidental.

 

 

Saque exemplar

 

A história dos bronzes do Benim – uma arte desenvolvida no século XIII e que ao longo dos tempos foi adquirindo um requinte que a coloca entre as grandes realizações artísticas da humanidade – é verdadeiramente exemplar: por volta de 1897, uma arbitrária «expedição punitiva» inglesa culmina no incêndio da cidade do Benim e no saque de todos os tesouros de um reino que os europeus, a começar pelos portugueses, tinham desde sempre respeitado e elogiado. Levadas para a Grã-Bretanha como despojos de guerra, as peças mais significativas foram parar ao Museu Britânico – que ainda hoje lhes concede a honra de dominarem a sua escadaria principal –, enquanto muitas outras foram vendidas ou levadas para a Alemanha e os EUA.

Durante a II Guerra, muitas peças que estavam em Liverpool e Berlim foram destruídas. Mesmo assim, a colecção londrina está tão bem abastecida que chegou para organizar, no início dos anos 70, no Museu do Homem, uma grande exposição exclusivamente dedicada à arte do antigo reino, hoje parte da Nigéria, país de língua inglesa e membro da Commonwealth. Em 1977, Lagos solicitou a Londres o empréstimo de uma máscara, que escolhera como símbolo do II Festival Mundial Negro-Africano de Arte e Cultura. O pedido foi recusado, e desde então a maior parte da arte do Benim jaz longe dos olhos do público, na discreta penumbra das reservas.

As relações entre os dois países esfriaram. E, em 1980, o Governo nigeriano gastou uma fortuna para comprar quatro peças de bronze num leilão londrino. Comentário de um descendente do rei exilado pelos britânicos no século XIX: «Levaram-nos todas as nossas obras de arte e agora temos de comprá-las de volta, por preços que raiam a extorsão, aos descendentes daqueles que as roubaram. Se os britânicos estavam tão empenhados em mostrar-nos um outro modo de vida, bem podiam ter escolhido um melhor exemplo do que apropriarem-se dos nossos tesouros e lançarem fogo ao resto.»

M.G.

 

 

 

Legado esquecido

 

No século XX, as obras de arte africana, que até então eram praticamente encaradas como curiosidades, troféus ou testemunhos antropológicos de culturas exóticas, foram descobertas pelos artistas europeus e, com o estilo e a força que as caracterizam, tomaram-nos de assalto, permitindo-lhes ver de outra maneira, com um olhar mais essencial e mais despojado. Modigliani, Brancusi, Giacometti, Amadeo de Souza Cardoso são nomes que nos vêm imediatamente à memória. Mas o caso mais típico é sem dúvida o de Picasso, que, posto perante o choque de uma tal revelação, usa directamente na sua arte o «vocabulário» visual desde sempre dominado pelos africanos. E como ele se encarrega praticamente sozinho da revolução fundadora de toda a nossa arte moderna, pode dizer-se que, há mais de um século, a arte ocidental se tornou uma «devedora» e uma parente muito próxima da arte africana. Infelizmente, as riquíssimas oportunidades de diálogo que esse «parentesco» coloca ao dispor dos artistas da África e da Europa só muito raramente têm sido aproveitadas.

M.G.

 

 

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados webdesign Terra das Ideias