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Património da Humanidade
Dezembro de 2003

Galápagos: Um paraíso mais protegido
Por: MANUEL GIRALDES



É uma das maravilhas do mundo natural e uma autêntica montra das inesgotáveis riquezas da biodiversidade. Felizmente, o arquipélago dos Galápagos, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, está agora mais protegido: um laboratório vai diagnosticar as doenças que afectam as espécies únicas que abriga, muitas das quais em risco de extinção.

 

Quando se fala em Galápagos, o arquipélago de cerca de 13 dezenas de ilhas que faz parte do Equador, muitos pensam logo num santuário de tartarugas gigantes. Outros evocam de imediato os chamados tentilhões de Darwin, os passarinhos que levaram o recém-formado teólogo e naturalista amador inglês a escrever A Origem das Espécies e a revolucionar a «história da criação». Embora tartarugas e tentilhões sejam apenas algumas das espantosas formas de vida que só se encontram neste local.

Há-as tão raras como a única espécie de pinguins que vive em águas tropicais ou a iguana marinha. Ou, surpreendentemente, como os mais que raros mamíferos terrestres: em todo o arquipélago, estes mamíferos autóctones apenas se fazem representar pelo rato do arroz e por duas espécies de morcegos. A razão é simples: a maior parte das ilhas, de origem vulcânica, não passam de ilhotas ou de meros rochedos – apenas 13 têm dimensões consideráveis – e a própria chave de tanta riqueza natural reside nas águas do Pacífico que as banham e no facto de o arquipélago se encontrar no cruzamento de três correntes oceânicas. Veja-se a abundância: 300 espécies de peixes, 650 de moluscos, 200 de estrelas-do-mar e de ouriços, 120 de caranguejos...

Porém, a terra firme não deixa de ter para oferecer, para além de uma flora não menos única – que vai dos fetos arbóreos aos cactos gigantes e às orquídeas –, uma fauna mais miúda, mas não menos abundante e exuberante: pelo menos 1600 espécies de insectos, 300 de escaravelhos, 150 de aracnídeos, 80 de caracóis...

 

A ameaça humana

 

Teoricamente, tudo está protegido: 97 por cento da terra firme foi integrada num parque nacional e as próprias águas circundantes fazem parte de uma reserva marinha. Mas, mesmo neste paraíso ecológico, há «serpentes» à espreita: o crescimento do turismo, que passou dos pioneiros mil ecoturistas de 1970 para os 60 mil/ano da década de 90, tem um impacte significativo num ecossistema tão fechado. Muito embora as visitas obedeçam a regras bastante apertadas: os visitantes dormem e comem em barcos e apenas se deslocam a algumas áreas escolhidas, sempre acompanhados por um guia credenciado.

Num território tão pouco propício à fixação de populações, que só teve o seu primeiro residente a título permanente em princípios do século XIX, o número de habitantes sofreu nos últimos 20 anos uma preocupante explosão: actualmente são 18 mil, distribuídos por apenas cinco ilhas. Entre as actividades mais nocivas conta-se a pesca ilegal. Não para consumo local, mas para exportação: tubarões, lagostas e pepinos-do-mar vão parar, por encomenda prévia e generosamente financiada, a países do Extremo Oriente.

 

«Despensa» do mar

 

As maiores dilapidações têm a ver com a história do arquipélago, descoberto por acaso em 1535, pelo bispo do Panamá, Tomás de Berlanga, que nem sequer ficou particularmente agradado com aqueles pedaços de terra perdidos na vastidão do oceano, a cerca de mil quilómetros da costa. Escreveu mesmo que «não tinham qualquer valor, porque não possuem sequer força para fazer crescer um pouco de erva». A sua disposição não melhorou quando viu morrer dois homens e dez cavalos, por não conseguir encontrar a água potável de que a tripulação do seu navio à deriva desesperadamente precisava.

Berlanga, cujo verdadeiro destino era o recém-conquistado Peru e os seus fabulosos tesouros, não se apercebeu de que, para encontrar água, bastava seguir o rasto das tartarugas gigantes que deram o nome às ilhas (já identificadas como Insulae de los Galopegos num mapa de 1570). O pormenor não escapou aos corsários ingleses dos séculos XVI e XVII que, ao serviço de sua majestade britânica, andavam por aquelas paragens a pilhar os galeões espanhóis, que transportavam os tesouros que os súbditos de suas majestades católicas por sua vez tinham pilhado aos incas dos Andes e do Panamá e aos astecas e maias do actual México.

As ilhas depressa se tornaram um cóio de piratas e uma despensa farta e barata: tanto a carne da iguana como da tartaruga gigante era uma iguaria muito apreciada, sendo que esta apresentava a vantagem de sobreviver a meses de aventuras no mar, sem qualquer alimentação. No final do século XVIII, os corsários deram lugar aos baleeiros, que começaram a afluir em grande número àquelas águas. Estima-se que, só no século XIX, a voracidade dos marinheiros tenha custado a vida a 200 mil tartarugas e causado a extinção de várias espécies. Os caçadores de peles também não se fizeram rogados. E, em conjunto, baleeiros e caçadores não só levaram baleias e focas à beira da extinção (começaram a recuperar já em pleno século XX) como estiveram perto de dar igualmente cabo das tartarugas.

 

A praga das cabras

 

Curiosamente, o maior perigo para a sua sobrevivência não vem agora do homem, mas de animais por ele introduzidos. Como as cabras que, largadas nas ilhas para substituir as tartarugas e iguanas como «reserva» de carne fresca, depressa se reproduziram como coelhos e, a nado, colonizaram ilhas e ilhotas, «aspirando» toda a vegetação que lhes serve de alimento (só na ilha de Santiago, chegaram a ser mais de 100 mil). Porcos (um casal destruiu 23 ninhos de tartaruga num só mês), cães e gatos são pragas igualmente de difícil controlo num ecossistema tão sensível. Já para não falar nas ratazanas levadas pelos barcos e que ameaçam de extinção, entre outras espécies, o nativo rato do arroz.

Para além do isolamento e do peso das receitas do turismo no orçamento do Equador, a preservação e regeneração da flora e da fauna das ilhas Galápagos têm encontrado na Fundação Charles Darwin e nas organizações a ela associadas insubstituíveis aliados. A estação de investigação baptizada com o nome do cientista que colocou o arquipélago no mapa de todos os naturalistas assinou recentemente um protocolo internacional, que, em 2004, levará à instalação, em Santa Cruz, de um moderno laboratório de biologia molecular. Destinado a estudar as cinco mil espécies marinhas e terrestres – duas mil das quais endémicas, ou seja, existentes apenas neste local – e a despistar as doenças que afectam as que se encontram em perigo.

Há muito que técnicos da estação ajudam as autoridades equatorianas a combater as pragas levadas pelo homem e, no caso das espécies locais mais ameaçadas, a pôr em prática um plano de reprodução em cativeiro e de repovoamento. Será agora possível prevenir e debelar doenças igualmente importadas, que, num ecossistema tão frágil, podem ser tão ou mais devastadoras que cabras, porcos e outras ameaças. Os tentilhões de Darwin contar-se-ão, muito justamente, entre os primeiros «pacientes».

 

A revolução dos tentilhões

 

A atenção e a incomum protecção de que o arquipélago dos Galápagos desfrutam muito devem ao nome de Charles Darwin e ao carácter revolucionário da sua teoria da evolução. O jovem teólogo e então praticamente desconhecido cientista amador chegou aos Galápagos a 15 de Setembro de 1835, e a princípio não ficou impressionado com o que viu, chegando a comparar aquelas terras vulcânicas a «regiões infernais». Só se entusiasmou quando deparou com as primeiras tartarugas gigantes, mas nem ligou quando lhe fizeram notar que os desenhos das carapaças variavam consoante as ilhas de que provinham. Ao longo das cinco semanas, recolheu exemplares de vários pássaros. Porém, só ao voltar a Inglaterra e ao organizar a sua algo caótica colecção percebeu que os tentilhões, aparentemente tão diversos, pertenciam a uma única família e deviam apenas as suas diferenças à necessidade de se adaptarem aos múltiplos nichos ecológicos existentes nas várias ilhas e ilhotas. Darwin levou duas décadas a ganhar coragem para pôr em causa a tradicional visão bíblica de um universo instantâneo e imutável, criado de uma vez para sempre no princípio dos tempos. Quando se sentiu preparado para defender a sua tese e enfrentar a inevitavelmente tempestuosa polémica, a nossa visão das maravilhas da Criação nunca mais voltou a ser a mesma.

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