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Junho de 2005

Guiné-Bissau - A consciência de um país à deriva
Por: JORGE NETO, Jornalista



Parece um país sem referências morais, mas na Guiné-Bissau há uma voz que conduz os Guineenses, denuncia o que está mal e tenta construir um caminho rumo à estabilidade. Os bispos Settimio, José e Pedro são a voz que brada alto os valores da justiça e do bem comum. Retrato de uma Igreja que nunca se calou e que nunca abandonou a luta pela união de um povo.

 

A hierarquia católica da Guiné-Bissau publicou a 18 de Abril um documento que foi considerado «um dos mais duros» de sempre. Referindo-se às presidenciais de 19 de Junho, nele se realça que a votação não constitui, por si só, uma esperança efectiva de paz, estabilidade e desenvolvimento. E alerta-se: «É importante lembrar os erros do passado e rompermos de vez com a cultura de violência, impunidade, corrupção e falsidade.»

«O povo, e em particular os jovens, precisam de candidatos íntegros (‘limpos’), com credibilidade política e moral, que saibam transcender os seus interesses egoístas, ambições pessoais e sede inextinguível de conquistar a todo o custo o poder por meios desleais», acrescenta a exortação. Assinado pelo bispo de Bafatá, D. Pedro Carlos Zilli, e pelo vigário-geral de Bissau, padre Domingos Cá – o bispo da capital, D. José Camnaté, encontrava-se na altura em Roma – o texto sublinha que o país «continua a mostrar ao mundo o pior que existe no ser humano».

Desde os primeiros tempos da independência que a Igreja Católica Guineense é uma voz crítica, mas construtiva, da realidade política e social do país. Em 1992, D. Settimio Ferrazzetta, primeiro bispo da Guiné independente, escrevia que «a sociedade que todos desejamos nascerá só com o esmagamento destes nossos vícios instalados dentro de nós... ou não nascerá! Continuaremos corruptos. A nossa proposta [vai no sentido] de uma renovação da sociedade sem abalos de nenhum tipo. O processo deve ser pacífico, dentro da legalidade. Só existe um caminho: o da legalidade».

 

O mensageiro da paz

 

O prestígio alcançado por D. Settimio, um missionário franciscano italiano, ao longo do tempo que comandou os destinos da Igreja guineense, levou a que fosse chamado a arbitrar o conflito militar de 1998/99 entre «Nino» Vieira e Ansumane Mané. O bispo de Bissau iniciou a sua acção a favor da paz falando, escrevendo, dirigindo ou entregando pessoalmente mensagens às partes em conflito, independentemente dos perigos decorrentes do estado de sítio em que o país se encontrava, numa autêntica doação da própria vida.

A figura do «homi garandi» – expressão guineense que designa pessoas mais velhas e de reconhecido prestígio –, vestido de batina branca, tornou-se um símbolo vivo da paz. Correram mundo, e impressionaram, as imagens televisivas que o captaram atolado na lama numa das suas muitas deslocações entre as partes beligerantes.

Depois da morte de D. Settimio Ferrazzeta, o país passou a ter dois bispos: D. José Câmnate, do clero diocesano, em Bissau, e D. Pedro Zilli, missionário brasileiro do PIME, em Bafatá. Os dois prelados, honrando a herança de D. Settimio, têm mostrado o seu empenho na transformação da realidade através de homilias, conferências, cartas pastorais, exortações e outras formas de intervenção pública.

O documento mais polémico do episcopado guineense viria a ser publicado em Setembro de 2002. Kumba Ialá presidia aos destinos do país e afastava quem se lhe opunha, mandando exonerar ministros, primeiros-ministros e até juízes do Supremo Tribunal. Nessa exortação, D. José e D. Pedro alertavam para o facto de a crise generalizada conter «sérias ameaças à paz» e denunciavam aquilo que consideravam ser os factores «geradores de instabilidade: a fome, os doentes sem tratamento, os homicídios, o desemprego, as greves, o desemprego, a falta de infra-estruturas e a corrupção».

A errática e desastrada actuação de Kumba Ialá culminou no golpe de Estado de Setembro de 2003. Um grupo de militares, liderado pelo general Veríssimo Correia Seabra, depôs o presidente, dando início a um período de transição de dois anos, com o objectivo de preparar eleições legislativas e presidenciais. Na altura, a hierarquia católica guineense foi, uma vez mais, chamada a ajudar a ultrapassar a crise. Foi solicitado a D. José Câmnate que presidisse à Comissão Técnica Ad Hoc para a preparação de um documento de trabalho, o projecto de Carta Política de Transição.

 

Autoridade moral

 

Os bispos católicos da Guiné-Bissau foram acusados por diversas vezes de fazer política. A acusação parte, geralmente, de quem se sente atacado pelos documentos e opiniões emitidas por D. José e D. Pedro. No entender de Apolinário Mendes de Carvalho, diplomata de carreira e mestre pelo Instituto Superior de Gestão de Lisboa, tais acusações «não fazem sentido», uma vez que a Igreja Católica Guineense «está enraizada na sociedade» e como tal «vive os problemas dessa sociedade».

Humberto Monteiro, jornalista e director do semanário Gazeta de Notícias, concorda com o diplomata, salientando, no entanto, que «as intervenções dos bispos são políticas, mas não no sentido partidário. São intervenções que vão ao encontro dos interesses do povo e que reflectem o que o povo pensa – que não deve haver guerra, e que não deve haver quezílias que possam gerar instabilidade».

Mendes de Carvalho sublinha que «as posições que a Igreja tem vindo a tomar decorrem da sua missão: a missão da verdade, da paz, da solidariedade e amor ao próximo; quem critica a Igreja é quem se sente atacado pelas palavras dos bispos; a outra parte da sociedade sempre tem aplaudido». A posição é partilhada por Humberto Monteiro, para quem «as vozes que criticam os bispos são as vozes de pessoas que, para nós, não merecem respeito nenhum. São as pessoas que alimentam a instabilidade porque só se projectam através dessa instabilidade».

Para o jornalista, «a Guiné-Bissau tem sido um país de discursos alarmantes e o papel dos bispos tem sido o de demonstrar que o povo precisa de paz e de estabilidade». Por seu lado, o diplomata frisa que «a Igreja católica tem sido a única instituição verdadeiramente independente neste país. A única instituição com uma autoridade moral firme. Este aspecto justifica porque é que os Guineenses, no seu todo, reclamam a presença da Igreja, como sucedeu durante as convulsões políticas. Quando é necessário o diálogo, quando é necessário reconciliar as partes, é chamada a Igreja, porque ela, durante todo este tempo, conseguiu criar uma autoridade moral firme, pautando a sua actuação pelo ecumenismo e pela verdade».

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