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Contraponto
Outubro de 2006

A questão nuclear
Por: CARLOS NARCISO, Jornalista



Na guerra no Líbano, o Irão pode gabar-se de ter sido o verdadeiro vencedor. Israel, o peão dos Americanos, não foi capaz de derrotar o Hezbollah, o peão do Irão.

 

O regime iraniano está habituado a sofrer pressões externas vindas do Ocidente e nunca as aceitou nem se submeteu. Desde a revolução de 1979, que derrubou o xá, os Estados Unidos não pararam de hostilizar o regime, na esperança de que os ayatollahs perdessem o controlo da situação. A guerra Irão-Iraque teve a «assinatura» de Washington que, na altura, apoiava o regime laico de Saddam Hussein. Foram oito longos anos de mortandades e destruição. As cicatrizes dessa guerra ainda não desapareceram no Irão, onde morreram cerca de um milhão de pessoas.

Mas o regime iraniano sobreviveu a tudo e endureceu, fortaleceu-se e cimentou apoios internos. Submeteu-se até às regras democráticas, promovendo o multipartidarismo e eleições livres. Os radicais que hoje estão no poder em Teerão não se impuseram pela força, mas venceram eleições reconhecidas como válidas pela comunidade internacional. São governantes legítimos sob qualquer ponto de vista. Por isso, quando decidiram desenvolver tecnologia nuclear para produção de energia, exerceram um direito cuja legitimidade se torna difícil de contrariar.

Os que julgam que o Irão continua a ser um país atrasado e medieval estão enganados. Teerão, a capital, é já uma cidade moderna, com um parque automóvel renovado, dotada de uma rede de metropolitano e com um aeroporto novo. O desenvolvimento industrial tem sido notável e toda a costa do golfo Pérsico está cheia de novas cidades que, há poucos anos, não passavam de pequenas aldeias piscatórias. Um crescimento que tem proporcionado excelentes negócios a empresas estrangeiras, nomeadamente japonesas, indianas, sul-coreanas e italianas, isto apesar dos embargos impostos pelos EUA. A principal arma do Irão, neste braço-de-ferro com o Ocidente, está no subsolo do país, nas imensas jazidas de petróleo e gás natural. O Irão é rico em hidrocarbonetos e isso torna-o poderoso e incómodo para os EUA.

O que se passou recentemente no Líbano é, assim, reflexo desse confronto entre o Irão e o Ocidente. O Líbano foi, apenas, um campo onde os adversários mediram forças. A verdade é que, depois desta guerra entre o Hezbollah e Israel, o Irão pode gabar-se de ter sido o verdadeiro vencedor. Israel, o peão dos Americanos, não foi capaz de derrotar o Hezbollah, o peão do Irão. Apesar de o Hezbollah servir, também, os interesses de outras potências regionais, é certo que Nasrallah, o seu líder, olha para a terra xiita quando procura inspiração para os seus desígnios políticos. Hoje sabe-se que os guerrilheiros do Hezbollah foram treinados pela Guarda Revolucionária, um corpo de elite do exército iraniano.

É por tudo isto que o Ocidente não quer permitir que o Irão desenvolva uma indústria energética nuclear. Isso torná-lo-ia ainda mais forte e imune às pressões externas. É certo que existe um Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares que o Irão, de resto, subscreveu e ratificou, mas o presidente Ahmadinejad já garantiu que o país não procura a construção de qualquer arma de destruição em massa. Como homem religioso que é, Ahmadinejad lembrou, recentemente, que o Irão continua a obedecer à fatwa do falecido ayatollah Khomeiny que decretou ser «não islâmico» a posse de armas nucleares.


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