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Gente Solidária
Setembro de 2007

Sudão / refugiados: a incógnita do regresso
Por: IRENE PANOZZO, Jornalista



Ao longo de 20 anos, pelo menos dois milhões de deslocados amontoaram-se na periferia de Cartum, capital do Sudão, para fugir às guerras no resto do país. Embora a sua vida seja pobre e precária, a maior parte hesita em regressar às zonas agora em paz. Diz o padre Daniel: «Só partem os mais desesperados, aqueles que não têm nada a perder. Os outros aguardam.»

 

A estrada afasta-se do centro da cidade, em direcção ao deserto. Para trás ficam os novos edifícios de vidro e aço, a par de construções cada vez mais baixas e a desabar. O pouco verde que acompanha o Nilo na sua viagem dentro da cidade desaparece. Permanece só a desolada areia dourada. Alguns quilómetros mais e também a estrada asfaltada desaparece. Carros, carroças e miniautocarros aventuram-se por entre os buracos de um percurso poeirento de terra batida, que se estende por entre as habitações. Cada vez menos tijolos e cada vez mais casas de barro, com tectos de palha ou chapa. Ou então meros «abrigos», com alguns ramos a fazer de pilares e telas de plástico, panos e alguns cartões como paredes.

É esta a Cartum que não se vê, a Cartum dos deslocados internos, os internally displaced people na linguagem humanitária, os que tendo ficado no seu país não têm um estatuto reconhecido internacionalmente e não entram na jurisdição das agências especializadas da ONU. Ao longo de 20 anos, pelo menos dois milhões de deslocados amontoaram-se na periferia da capital para fugir às guerras do resto do país. Cristina é um deles. É jovem, 25 anos apenas, quase todos passados nas periferias da capital. Uma vida inteira vivida a balançar entre o desejo nunca satisfeito de voltar à terra natal e a necessidade de encontrar um frágil equilíbrio num ambiente difícil, de todos os pontos de vista. Mas se alguém lhe pergunta de onde provém, a orgulhosa resposta é uma só: «Sou de Abyei, quase no Sul do Sudão, sou uma Ngok Dinka.»

 

A ajuda das igrejas

 

Cristina cresceu entre as barracas do Oeste de Cartum, a vasta área onde a maior parte dos deslocados se amontoaram no decorrer dos anos. Angola, Wad Ramli, Jabarona: são os nomes das «aldeias» que constituem esta galáxia irregular, de que não há sinais nos mapas. Na melhor das hipóteses, o Governo desinteressa-se destes seus cidadãos. Até porque se trata, quase na totalidade, de pessoas fugidas às guerras que o poder central de Cartum travou nos últimos 20 anos. Sudaneses do Sul primeiro, famílias originárias dos Montes Nuba e do Nilo Azul Meridional depois, habitantes do Darfur nos últimos três/quatro anos: em vagas sucessivas chegaram até aqui, mesmo ao lado do coração do poder a que fugiam, para refazer a vida e na esperança de encontrar uma via de fuga para o estrangeiro.

Porque é isto que todos sempre sonharam. Aqui chegaram aqueles que, embora originários do Sul, estavam mais próximos do Norte do que das aldeias da fronteira meridional do país. Mas a capital não era o destino final. Por causa do Nilo, muitos sonharam poder chegar ao Egipto. E dali, graças aos programas de realojamento do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), à Europa, à América do Norte ou à Austrália. Para pelo menos dois milhões de pessoas, porém, a viagem terminou na capital sudanesa, entre a areia do deserto e instalações sem água corrente e sem electricidade. A ocuparem-se deles encontram-se essencialmente as igrejas. É numa escola aberta em Wad Ramli da arquidiocese católica de Cartum que Cristina agora faz de professora. Os seus colegas, tal como os seus alunos, são todos deslocados. Yamanka, 33 anos, é uma nuba e está em Cartum há dez anos.

O átrio da escola está repleto de crianças, é um dia de aulas. Ao lado das poucas e pobres salas que albergam os quase mil alunos, está uma igreja. Mas, do outro lado da estrada de terra batida cheia de buracos, está uma mesquita nascida recentemente. O P. Daniel, que na arquidiocese de Cartum acompanha a pastoral para os deslocados, faz questão de especificar que entre os alunos da escola há também muitos muçulmanos. «Nos últimos anos chegaram muitos deslocados do Darfur, que são todos muçulmanos. E também entre a gente dos Montes Nuba e do Nilo Azul Meridional são numerosos os fiéis do Islão. Muitas vezes estão pior do que nós. Não é de estranhar, portanto, que a nossa escola esteja aberta também a eles.»

 

O preço do regresso

 

Não obstante a paz entre o Norte e o Sul assinada em Janeiro de 2005, que pôs fim a mais de 20 anos de guerra civil, de momento os deslocados não prevêem voltar atrás. Não porque não o desejem. Mas porque para voltar é preciso dinheiro: para a viagem e para pôr de pé uma vida interrompida há dez anos ou mais. E eles não têm dinheiro para tanto. Além disso, mesmo querendo voltar, ninguém sabe o que irá encontrar na aldeia. Aqui, no Oeste de Cartum, apesar da desolação deste local inflamado pelos escaldantes raios do sol sudanês, sem uma árvore e votado ao abandono pelas autoridades, os deslocados levam a sua vida. Pobre, precária, a qualquer momento sujeita a ser “arrasada” pelas escavadoras do Governo, mas de qualquer modo uma vida. Há escolas para os filhos, para os adultos há possibilidade de encontrar um trabalho na cidade, as mulheres como empregadas domésticas, os homens como seguranças ou como serventes de pedreiro nos muitos estaleiros abertos da capital. Sem dúvida, é preciso fazer 30 quilómetros diariamente e a pobreza subsiste, mas «na sua terra» o que há? Ninguém o sabe com precisão.

«Só partem os mais desesperados, aqueles que não têm nada a perder. Os outros aguardam», diz o P. Daniel. Um pouco mais esbatidas, mas com um significado semelhante, são as palavras que na segunda metade de Junho António Guterres, alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e Brunson McKinley, director-geral da Organização Internacional para as Migrações (IOM), pronunciaram a propósito da situação sudanesa. O primeiro recordou aos refugiados acabados de repatriar que «a vida não será fácil, tereis de enfrentar muitas dificuldades. Estais a regressar a casa e tereis necessidade de instrução para os vossos filhos, assistência sanitária para as vossas famílias, terrenos agrícolas para cultivar. Tudo isso só será possível se houver uma forte solidariedade por parte da comunidade internacional». Ainda mais directo foi o segundo, que falava após uma viagem de seis dias ao país africano. «Se, ao olhar para Juba, pensarmos que para lá da cidade o Sul do Sudão é ainda mais pobre, damo-nos conta de que há muito trabalho a fazer.»

Sabe-se que ajudaram a repatriar cerca de 15 mil refugiados, ou seja, quase um quarto dos que estão sob a sua tutela, mas os números que dizem respeito aos deslocados internos são confusos e fragmentários. No que respeita aos refugiados, em Abril concluiu-se o processo de repatriação a partir da República Centro-Africana, em meados de Junho da República Democrática do Congo, mas a grande maioria permanece no Uganda, Quénia e Etiópia. Por outro lado, dos cerca de dois milhões de deslocados que encontraram refúgio à volta de Cartum e das outras cidades do Norte, só 110 mil foram ajudados pelo IOM a regressar ao Sul. Alguns regressaram ajudados pelas autoridades locais do Sul do Sudão, outros ainda por sua própria conta. Fazer uma estimativa, porém, é quase impossível, porque os deslocados internos não estão registados em lado nenhum.

 

Odisseia de meses

 

«Voltar para o Sul pode levar meses», diz o P. Daniel. E a explicação é fácil. Para chegar às zonas mais ocidentais do Sul do Sudão, de onde muitos dos dincas (e não só) que estão em Cartum provêm, os deslocados, que não têm um tostão, têm de percorrer mais de mil quilómetros e tentar conseguir um lugar nos camiões que vão para o sudoeste. Obviamente, é quase impossível fazer todo o extenuante trajecto de uma só vez. Em Cartum, não é muito difícil encontrar transporte para Kosti, cidade sobre o Nilo Branco, a duzentos quilómetros a sul da capital, e El Obeid, no Cordofão. Ou melhor, não é difícil encontrar camiões que façam aquele percurso. A viagem, no meio das mercadorias transportadas, já é outra coisa. Sobretudo se quem tenta regressar a casa é uma família inteira, com todos os seus bens. Já em Kosti El Obeid as coisas se tornam mais complicadas, quer porque as estradas de aí em diante são muito piores, quer porque as distâncias são enormes; mas também porque a partir daí se encontram áreas ainda não há muito afectadas pelo conflito, onde nunca se sabe exactamente o que se poderá encontrar. O percurso de Cartum a Wau ou a Aweil, em Bahr a-Ghazal, pode por isso levar meses.

Mesmo os que querem regressar às suas cidades ou aldeias através do grande rio não têm melhor sorte. A primeira etapa é sempre Kosti. Porém, à chegada ao porto do Nilo, começa tudo de novo. Entre Kosti e Juba, a capital do Sul, a viagem faz-se em velhíssimos batelões a vapor, enormes jangadas de zinco saídas do passado. Sem parapeitos, sem serviço a bordo, correm o risco de se tornarem caixões flutuantes, sobretudo para as crianças, que muitas vezes têm de ser amarradas como os animais, para impedir que caiam à água. O percurso dura até três semanas, sob o sol implacável, sem água, com poucos víveres e com todos os seus haveres, dos colchões às cabras. E muitas vezes é preciso esperar outro tanto tempo no porto de Kosti, debaixo de um alpendre onde chegam a empilhar-se dezenas e dezenas de famílias. Uma vez aportados em Malakal, em Bor ou em Juba, muitos sãos os que têm de percorrer ainda centenas de quilómetros, muitas vezes a pé, para chegar às aldeias abandonadas há 20 anos. E onde não restou nada ou quase nada, uma vez que, por enquanto, a paz só muito raramente trouxe a reconstrução. «Houve quem, após uma viagem que é quase bíblica, tenha voltado para trás, para Cartum», conta o P. Daniel. «É também por isso que, mesmo os que só têm umas migalhas, um tecto, um trabalho, por muito instável que seja e os filhos na escola, não estão ainda totalmente convencidos de que voltar para o Sul seja a opção a tomar.»

 

 

 

Os senhores do Darfur

 

A Auatif não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios.

«Dizias que me ias mostrar a tua aldeia!?»

«É aqui mesmo. Foi! Até há dois anos.» Os meus pés estão a pisar escombros; vêem-se canas no chão, sinal de algo que foi a sebe de um pátio. Aqui e além alguns restos de tijolos «verdes» (assim chamados porque cozidos ao sol). O aldeamento já não existe, mas o nome ficou: Talata Ardeb.

«A minha casa era mesmo ali em frente. Consistia num kurnuk, uma guttia (isto é: duas cabanas distintas no seu formato e aplicação) e um pátio; a minha foi uma das poucas das 37 famílias que puderam escapar antes do grande massacre, onde foi morta quase metade da população.» Quanto ao El Nur, agora habita, com a mulher e os três filhos, em Majok, uma aldeia perto do aeroporto de Nyala que os janjauid não destruíram, talvez para fazer boa impressão a quem chega a Nyala por via aérea.»

«E aquelas mulheres (bem mais de uma dezena) que andam a rebuscar lenha?»

«Não as conheço, mas não podem ter vindo senão no campo de refugiados de Kalma, a três quilómetros daqui.» Não muito longe de nós, um rebanho de umas três centenas de ovelhas e cabras vagueia livremente à procura de pasto que o sol abrasador de 43 graus fez desaparecer, aumentando o deserto que, entretanto, espera a próxima bênção das chuvas. Estendo os olhos na direcção das colinas de Dajo e avisto duas grandes manadas de camelos que imaginei tivessem fugido dos seus donos para agora, com toda a liberdade, tomarem conta dos mangueirais aí à volta. Aquelas mangas não terão tempo de se criar e amadurecer.

O El Nur, com uma frase que lhe custou muito pronunciar, assentiu: «Tudo o que vemos à nossa volta pertence agora a um só e mesmo dono (colectivo): os janjauid. Terra, manadas e rebanhos, plantações.»

«E as mulheres não têm medo?»

«O medo está sempre presente. Mas a distribuição de alimentos pelas organizações humanitárias não dá para tudo. Elas sabem que os janjauid podem aparecer a qualquer momento. Mas arriscam porque a prioridade é sobreviver. Tu e eu também estamos em situação de risco.» Procurei dissimular e não dar importância ao arrepio que me veio por todo o corpo. Mas do meu amigo El Nur ouvi palavras que me aliviaram: «Até agora não houve notícias de ataques a estrangeiros. E quanto a mim, já não tenho nada a perder; a minha verdadeira riqueza (mulher e filhos) vive agora em Majok.» Ele parou a olhar para mim, enquanto eu lhe expressava os meus votos sinceros: «Deus te conserve sempre “rico” e te faça realizar os teus desejos.» E ele concluiu à maneira de bom muçulmano: «Ámen.»

Quanto a este e outros grupos de mulheres que fomos encontrando a apanhar lenha, só desejo que possam regressar com os feixes ao campo de Kalma. Todas! Porque, frequentemente, algumas delas não têm regressado. Os janjauid são os donos de tudo. E delas também! Quisera não ouvir mais histórias como aquela do grupo de mulheres que saíram, um dia, a apanhar lenha não muito longe do campo de refugiados de Kalma, onde viviam. Uma delas, a Auatif, não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios.

Os donos e senhores do Darfur? Não existiriam, se não lhes fosse dada a luz verde dos senhores do Governo de Cartum!

 

Feliz da Costa Martins, Missionário comboniano em Nyala

 


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