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Abril de 1998

Moçambique - Quanto custa um bispo?
Por: ARLINDO PINTO, Missionário comboniano



Tomé Makhweliha, moçambicano, de 53 anos, natural do Gurué (Zambézia), é o novo bispo de Pemba, a província mais a norte de Moçambique, reino dos Macondes. «Além-Mar» esteve na sua sagração episcopal e entrevistou-o na véspera da sua tomada de posse, em Pemba.

 

Antes de entrar no seminário, Tomé era alfaiate. Nunca pensou chegar a bispo desde que nasceu nas belas e famosas terras do Gurué, na província da Zambézia, em Moçambique, há pouco mais de 50 anos.

A notícia bateu-lhe à porta no dia 24 de Novembro passado, quando Tomé exercia as funções de assistente geral para África na Congregação dos Missionários Dehonianos, em Roma. Os Dehonianos estão a celebrar os 50 anos da sua chegada a Moçambique e quase como prémio do Papa João Paulo II, Tomé foi nomeado bispo de Pemba, diocese que há cinco anos esperava um bispo titular.

A assistir Pemba encontrava-se o arcebispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, que ali se deslocou como administrador apostólico 50 vezes. Nestes cinco anos ordenou oito sacerdotes locais.

Nesta linha, Vieira Pinto foi escolhido para ser o bispo presidente da sagração episcopal do sacerdote Tomé Makhweliha, que se realizou na sé-catedral de Santo António do Gurué, no dia 18 de Janeiro, para vir a tomar posse, solenemente, em Pemba, no dia 8 de Fevereiro. A cerimónia da sagração episcopal, ao ar livre, durou mais de cinco horas, entre muitos cânticos e danças tradicionais, abençoados, de vez em quando, por fortes chuvadas. Mas ninguém arredava pé.

A celebração foi muito concorrida, contando com mais de mil fiéis, religiosos, religiosas, sacerdotes, além dos bispos de oito dioceses, do cardeal do Maputo e do núncio apostólico.

Após a cerimónia religiosa, D. Tomé foi entronizado segundo o rito local, à semelhança dos reis tradicionais - o régulo mwene - com a bênção da prosperidade, com o incenso e a farinha utilizados nos sacrifícios aos antepassados e nos ritos de iniciação dos rapazes (massome) e das raparigas (emwali).

Hoje, os crentes de Pemba vêem finalmente realizado um sonho que já durava há cinco anos: ter um bispo. É caso para perguntar se custa assim tanto fazer um bispo. Em Moçambique, sim, porque já só se querem bispos locais.

 

Além-Mar: Como lhe surgiu a vocação sacerdotal e missionária?

Tomé Makhweliha: A minha vocação surgiu inesperadamente. Eu era aluno na missão de Gurué em 1956, quando um missionário, na altura do recreio, sabendo que a minha mãe tinha falecido quando eu era pequeno, me perguntou: porque não vais para o seminário e fazes de Nossa Senhora a tua mãe? Eu nunca tinha pensado numa coisa dessas, mas, passado um mês, a pergunta surgiu-me de novo, e interroguei-me então: porque não ia para o seminário? Fui ter com o padre e disse-lhe: «Olha, eu também quero ir para o seminário.» Os outros candidatos já tinham entrado e eu fui o último, porque entretanto queria ser alfaiate e já tinha começado a trabalhar.

 

Algum dia pensou que poderia vir a ser bispo?

Nisso, para dizer a verdade, nunca pensei. Não estava nos meus horizontes. Para mim era suficiente ser padre e posso dizer que, se alguma vez sonhei, sonhei com uma vida de clausura.

 

Como recebeu a notícia de ter sido nomeado bispo?

Foi mesmo uma surpresa. Eu disse que não me sentia com qualidades nem com saúde para isso. Mas não quiseram saber nada disso, e em três dias eu tive que dar a resposta.

 

Qual é o lema que escolheu para o seu episcopado?

O lema que escolhi partiu do latim Caritas Christi urget nos, que quer dizer é o amor de Cristo que nos impele. E para mim quero que seja também a realidade que vai ser a base do meu trabalho, dos meus sentimentos e das minhas atitudes como padre, como bispo e como pastor, e também como cristão.

 

O amor de Cristo que nos impele-nos para quê?

Foi S. Paulo que disse, na Carta aos Coríntios, que é o amor de Cristo que nos impele, lembrando que foi uma única pessoa, Cristo, que morreu por todos nós, e que por isso nós também temos que dar a vida pelos outros. Eu tirei daí a minha orientação, porque era qualquer coisa que eu vinha vivendo e sentindo como alguma coisa minha, na minha espiritualidade pessoal.

 

Acha que na Igreja moçambicana há racismo? Ouve-se dizer que a CEM não aceita bispos estrangeiros…

Pessoalmente, penso que na Igreja de Moçambique não há racismo. Se fosse verdade, não era cristão, porque ser racista é ser anti-Cristo. Portanto, seria uma contradição.

 

Como se sente ao tomar posse como bispo de Pemba?

Posso dizer que me sinto sereno. É uma realidade que tenho sentido ao longo destes últimos meses, que deveriam ter sido de agitação, mas eu permaneci sereno. Primeiro porque confio em Deus. Trata-se de uma situação que eu não procurei e o próprio Deus há-de conduzir os acontecimentos. Tenho confiança no povo de Pemba, pois tanto D. Januário como o próprio D. Manuel Vieira Pinto me têm falado bem do povo de Pemba.

 

Passou em 1975 pela diocese de Pemba. Ainda guarda alguma recordação de qual era a situação da Igreja nesse tempo?

Foi logo depois da independência e aquelas populações, aquelas comunidades tinham passado muito tempo sem a assistência dos missionários, mas continuaram a praticar a sua religião. E tinham também organizado as comunidades, só que havia uma situação difícil. Era considerada zona libertada e não era fácil a deslocação dos padres, que não conseguiam celebrar a missa.

 

Moçambique tem muitos problemas. Qual deles lhe chama mais a atenção?

Realmente, Moçambique tem muitos problemas graves. Aquele que mais sinto é a dependência do estrangeiro, quase em tudo, especialmente no campo económico e cada vez mais no campo cultural. Isto é para mim um problema muito sério. Outro problema é a perda do sentido moral da vida e dos costumes, que praticamente vai destruir a nossa identidade. Há ainda outro problema que é a falta do sentido do bem comum. A gente parece não se importar com o que se estraga. As coisas andam mal e ninguém liga, no campo político como no campo social; mesmo na Igreja, infelizmente!

Por isso, faço votos para que os cristãos sejam de facto sol, luz e profetas e não se deixem arrastar pelo mundo, mas que sejam eles a arrastá-lo.

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