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Em Foco
Maio de 1997

Nossa Senhora na China
Por: TZE MINGHOU,Correspondente em Macau



Tradicionalmente, em todo o mundo católico, o mês de Maio é dedicado a Nossa Senhora. Em sua devoção fazem-se peregrinações e outros actos públicos de culto. A China não constitui uma excepção, não obstante o empenho das autoridades em acabar com estas «práticas reaccionárias e subversivas».

 

Visitando as igrejas católicas na China, fica-se impressionado com o papel relevante que a Virgem Maria tem na vida dos católicos chineses. Em muitas igrejas, a estátua, a imagem ou a pintura de Nossa Senhora encontra-se em destaque no centro do altar. Pode-se afirmar com segurança que a devoção a Maria é uma tradição e característica dos católicos em toda a China.

O mesmo pode ser dito dos budistas com a sua deusa da misericórdia, Kuan Yin, popularmente também chamada a deusa do mar do Sul. O seu nome era Miao Shan. Acredita-se que era uma discípula piedosa de Buda. Aqueles que procuram alívio nas suas dores e infortúnios voltam-se para ela para pedir especialmente filhos, fortuna e protecção. A estátua encontra-se praticamente em todos os templos budistas e taoístas, muitos dos quais lhe são dedicados em toda a China, especialmente no Sul. Diz-se que há milhares de diferentes encarnações ou manifestações desta divindade, que geralmente aparece vestida de esplendorosos vestidos brancos. Às vezes é comparada com a Virgem Maria.

Quanto aos católicos, é frequente ver na China, especialmente nos meses de Maio e Outubro, peregrinações aos diferentes santuários marianos. Existem três significativos lugares de peregrinação:

O primeiro é o Santuário de Sheshan, que se encontra no cimo da bela montanha de Sheshan, a cerca de 40 quilómetros de Xangai. O Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos. Presentemente, no seu lugar encontra-se uma linda basílica feita em alvenaria com uma estátua de Nossa Senhora no centro, sobre o altar. No caminho que leva à basílica há uma série de capelas com a via-sacra que cada católico percorre como parte da peregrinação.

Os peregrinos deixaram de visitar Sheshan depois de o Japão ocupar a China em 1937. Após a Revolução Cultural (1966-1976), a igreja e muitos outros lugares santos foram danificados pelo Exército Vermelho, à semelhança do que aconteceu a muitos outros lugares sagrados chineses. As peregrinações recomeçaram no final da década de 70, depois das reformas económicas iniciadas por Deng Xiaoping. Desde então, todos os anos, milhares de peregrinos sobem à montanha para rezar a Nossa Senhora. Povo simples, na sua maioria camponeses e pescadores, sobretudo das províncias vizinhas de Jiangsu e Zhejiang. Em cada ano, centenas de barcos de pesca cruzam o rio Yangtzé até aos canais perto da colina. De lá, iniciam a sua peregrinação até ao topo da montanha. Em quase todas as procissões, um quadro de Nossa Senhora guia os crentes, que acorrem vindos de todas as partes do imenso país e sobem à montanha rezando e cantando parando em frente das estações da via-sacra e das outras capelas. O fervor do povo vê-se nas imediações do santuário, mas especialmente na basílica.

Outro lugar importante de peregrinação é a colina de Bansi na região de Yangqu. A Igreja de Nossa Senhora das Dores fica a norte da cidade de Taiyuan. Desde 1934 que se realiza uma peregrinação anual, altura em que a Santa Sé concedeu a indulgência plenária aos peregrinos. Destruída durante a Revolução Cultural, foi, pouco a pouco, restaurada depois das primeiras reformas político-sociais na década de 80. A determinação dos crentes em reconstruir o santuário e a via-sacra que a ele conduz teve o seu epílogo quando o santuário foi consagrado, a 12 de Setembro de 1988. Até uma estrada foi aberta pelos cristãos da área para chegar ao cimo da colina.

O terceiro santuário mariano encontra-se em Donglu, dedicado a Nossa Senhora da Paz, a cerca de 30 quilómetros de Baoding, na província de Hebei. O santuário não fica numa colina, mas na planície de Hebei. As peregrinações eram anuais até que foram proibidas em 1996, alegando-se que eram ilegais e não beneficiavam a estabilidade social. Em Maio do ano passado, a polícia tentou impedir os fiéis de chegarem ao santuário. Patrulhas policiais foram mandadas para as aldeias e cidades vizinhas para bloquear as estradas de acesso a Donglu. Alguns cristãos todavia, conseguiram passar. Aparentemente, a razão que os motivou é a devoção que os católicos têm no falecido bispo Joseph Fan Xueyan, que consideram um santo. Morreu em 1992 depois de ter sido torturado na prisão. Desde então, milhares de pessoas têm visitado o seu túmulo. As perseguições a padres e bispos não têm cessado.

Os católicos sempre gostaram de dedicar a China a Nossa Senhora. Muitas igrejas são-lhe consagradas em todo o país. Cada santuário é mais do que um mero lugar religioso. É também um lugar para receber e acomodar os peregrinos que vêm de longe. Os católicos construíram casas de acolhimento perto dos santuários.

Mas o Governo chinês nunca viu com bons olhos estas peregrinações. De facto, os primeiros a serem perseguidos, depois de os comunistas tomarem o Poder, foram os católicos da Legião de Maria. Foi contra esta associação que o partido exerceu a maior e mais severa perseguição. No Outono de 1951, a comissão de controlo militar do exército de libertação chinês ordenou a extinção deste «grupo reaccionário».

A Legião de Maria foi introduzida na China nos anos 30 com finalidades estritamente espirituais e para difundir o cristianismo, tendo a Virgem Maria como centro da sua espiritualidade e inspiração. Foi a sua influência, especialmente entre os jovens católicos, que causou ressentimento no partido e fez com que muitos fossem presos e levados para os campos de trabalho.

É surpreendente ver que depois de mais de 45 anos, estas perseguições voltaram novamente a algumas dioceses chinesas. Em 12 de Abril de 1994, na província de Zhejiang, o tribunal da cidade condenou cinco católicos. Foram acusados de cometer crimes contra-revolucionários e de terem reorganizado a Legião de Maria, «uma organização religiosa reaccionária». De qualquer modo, os católicos chineses continuarão a ter uma devoção especial à sua mãe e protectora, a Virgem Maria.

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