Página Inicial







Actualizar perfil

 

Actualidades
Março de 1999

Escritores da lusofonia
Por: JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, Jornalista e escritor angolano



África surge quase todos os dias nos jornais portugueses pelas piores razões: guerras, doenças, fome. O continente africano atravessa realmente uma profunda crise política, decorrente do falhanço dos ideais nacionalistas, e também de um projecto colonial ruinoso. África, porém, não é um continente acéfalo. No campo da literatura vale a pena demorar os olhos sobre o continente. A nossa proposta, neste número, é partir para a descoberta das literaturas africanas em língua portuguesa.

 

A literatura africana em língua portuguesa – Cinco propostas para o século XXI

 

Mia Couto, o logoteta

 

O mais popular dos escritores africanos de língua portuguesa, Mia Couto, vive em Maputo, onde tenta conciliar a actividade literária com a biologia. Como o brasileiro Guimarães Rosa, cujo modelo de algum modo lhe serviu de exemplo, Mia Couto é um verdadeiro construtor da língua - um logoteta.

 

Como tantos outros ficcionistas, talvez a maioria, o moçambicano Mia Couto entrou na literatura pela porta da poesia: foi em 1983, com a publicação de “Raiz de Orvalho” (Cadernos Tempo, Maputo), colectânea de versos antes dispersos por jornais, revistas e antologias. Três anos depois lançou “Vozes Anoitecidas” (Associação dos Escritores Moçambicanos), recolha de contos que levantou alguma polémica devido à inovadora utilização da língua portuguesa. Este livro e aqueles que se lhe seguiram, “Cada Homem É Uma Raça” (Editorial Caminho, Lisboa, 1989) e “Cronicando” (Editorial Caminho, Lisboa, 1991), confirmaram a afirmação de um estilo muito particular, próximo, de alguma forma, ao do angolano Luandino Vieira, o qual, por sua vez, foi um confesso continuador do brasileiro Guimarães Rosa. Mia Couto, como antes fizeram aqueles dois escritores, brinca com as palavras. Fascinado, sobe os rios em busca das secretas fontes - lá longe, nessas regiões ocultas onde o idioma ganha forma e luz -, e descobre, com a alegria de um menino, as palavras virgens, ainda envoltas em penumbra e em mistério.

O seu primeiro romance, “Terra Sonâmbula” (Editorial Caminho, Lisboa, 1992) projectou-o para além do espaço lusófono ao ser traduzido para as principais línguas europeias. Hoje, com 43 anos e nove livros publicados, Mia Couto é um dos escritores africanos mais conhecidos em todo o mundo. Em quase todos os livros de Mia Couto existem personagens que descem à terra e nela se incorporam naquilo que parece ser ao mesmo tempo a recusa de um mundo violento e intolerável e uma espécie de redenção extrema. Em “A Varanda de Frangipani” (Editorial Caminho, Lisboa, 1996), o seu segundo romance - um livro belo e tristíssimo, que se lê de um fôlego e depois nunca mais nos larga -, esta ideia é levada aos seus limites: “E quando a árvore toda se reconstituiu, natalícia, me cobri com a mesma cinza em que a planta se desintactara. Me habilitava assim a vegetal, arborizado. (...) No último esfumar de meu corpo ainda notei que os outros velhos desciam connosco, rumando pelas profundezas da Frangipaneira”.

No seu livro mais recente, “Contos do Nascer da Terra” (1998), descobre-se um inédito optimismo, reflexo evidente dos novos tempos que se vivem em Moçambique após o fim da guerra civil.

 

 

Pepetela, o guerrilheiro

 

Um antigo guerrilheiro do MPLA, Pepetela, é hoje o mais conhecido escritor angolano, com livros traduzidos para as principais línguas europeias. É uma proposta literária preocupada com as grandes questões angolanas: a identidade nacional, o confronto entre o campo e a cidade, entre a tradição e a modernidade.

 

Prémio Camões em 1997, o angolano Pepetela é o rosto mais popular da literatura angolana, e um dos seus principais embaixadores. Antigo guerrilheiro do MPLA, foi nas matas do Leste de Angola que ele ganhou a alcunha que hoje utiliza como pseudónimo literário: Pepetela significa Pestana em quimbundo, sendo esse o seu nome de família - Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. A experiência da guerrilha levou-o a escrever o seu primeiro romance, “Mayombe” (União dos Escritores Angolanos, 1980), o qual, não obstante ter levantado alguma polémica em Angola, devido ao cepticismo de um dos personagens relativamente ao processo revolucionário, foi distinguido com o Prémio Nacional de Literatura, transformando Pepetela no escritor oficial do regime.

Um romance, em particular, se destaca de entre os dez livros publicados por Pepetela: “Yaka”. Muito mais do que um livro de denúncia da violência colonial ou de elogio da resistência nacionalista, “Yaka” tenta o relato de um país em construção, explorando o demorado processo de aproximação de um homem - o personagem principal Alexandre Semedo, angolano de origem portuguesa -, ao seu próprio povo. Em “Yaka”, Pepetela conseguiu, melhor do que em qualquer obra anterior, ou posterior, conjugar a reflexão filosófica sobre as grandes questões angolanas (identidade, confronto entre o campo e a cidade, a tradição e a modernidade) com a universalidade e a dinâmica de um vasto romance.

 “A Geração da Utopia” (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992), embora bastante mais frágil do ponto de vista literário, alcançou considerável sucesso em Angola e Portugal. Ao traçar o retrato da geração que fez a luta contra o colonialismo português, numa perspectiva crítica, o romance pode ser considerado uma actualização de “Mayombe” - dito de outra forma, é aquilo que poderia ser o “Mayombe” se em 1980 a democracia já se tivesse afirmado em Angola.

Em a “Parábola do Cágado Velho”, publicado em Portugal em 1996, o desencanto é ainda mais evidente e irremediável. Conto moral, à maneira das histórias tradicionais africanas, a sua mensagem é clara: quando uma guerra se prolonga por demasiado tempo, os homens acabam por se esquecer dos motivos por que pegaram em armas, e deixa de ser possível distinguir as forças em conflito.

 

 

Manuel dos Santos Lima, o dissidente

 

Manuel dos Santos Lima, professor universitário angolano radicado em Lisboa, acredita que a literatura pode ser útil no combate pela paz e pela democracia.

 

Como Artur Pestana, Pepetela, um outro guerrilheiro abandonou as matas de Angola para se dedicar, com proveito geral, à arte de contar histórias. Estamos a falar de Manuel dos Santos Lima, actualmente com 65 anos, que foi o fundador e o primeiro comandante do Exército Popular para a Libertação de Angola, EPLA, o braço armado do MPLA. Logo em 1963, porém, Manuel Lima abandonou o movimento, em razão de profundas divergências ideológicas com Agostinho Neto, e exilou-se no Canadá, em Montreal, em cuja Universidade leccionou, durante duas décadas, literatura portuguesa. Nascido no Bié, no Sul de Angola, mas educado em Portugal, para onde veio viver ainda muito jovem, Manuel Lima foi um dos raros autores de língua portuguesa a participar, juntamente com Mário Pinto de Andrade, no I Encontro de Escritores Negros.

Em 1984, Manuel Lima publicou “Os Anões e os Mendigos”, uma metáfora amarga e desesperada sobre o desastre das independências africanas. O livro foi recebido com grande curiosidade, devolvendo o seu autor à ribalta da vida política e cultural de Angola. Cinco anos mais tarde, já a residir em Lisboa, onde continua a viver, Manuel Lima relançou “As Lágrimas e o Vento”, romance publicado pela primeira vez em 1973 e que, como “Mayombe”, de Pepetela, e “Patriotas”, de José Sousa Jamba, remete para a dramática experiência da guerrilha.

Manuel Lima guarda algumas fotos dos tempos da luta armada. Numa delas aparece ao lado de Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara, nomes históricos do nacionalismo angolano. Noutra, está de uniforme militar e estuda um mapa.

É um homem jovem, de ombros largos e tronco sólido; um corpo de lutador de boxe. Usa uma pêra, à Lumumba, e uns óculos de aros grossos, que lhe realçam o ar grave e determinado.

É difícil reconhecer nesse jovem o respeitável professor universitário em que se transformou: engordou, perdeu cabelo e o rosto rapado e redondo dá-lhe um ar mais jovial. Embora desiludido com o processo político que conduziu Angola ao abismo, Manuel Lima não perdeu no entanto o antigo fogo que o levou às matas de Cabinda, e continua empenhado em lutar pelo seu país, agora pela paz e pela democracia. O velho guerreiro está a terminar um novo romance, “O Buraco”, sobre a aventura nacionalista e o colapso do seu projecto ideológico.

 

 

Ruy Duarte de Carvalho, um poeta nómada

 

Uma das mais fascinantes figuras das letras africanas, o angolano Ruy Duarte de Carvalho vive em Luanda com o coração no deserto.

 

Ruy Duarte de Carvalho vive em Luanda, no último andar de um prédio muito degradado, com uma larga varanda a toda a volta. O apartamento acumula livros e memórias. Sente-se que aquele é o último refúgio de um viajante. Alguns objectos insinuam, vagarosos, a presença do deserto, dessas vastas extensões do Sul onde Ruy Duarte cresceu, e onde regressa sempre que lhe é possível.

Ali, naquele apartamento, tem vindo a ser escrita uma obra poderosa, extremamente original, que desafia todos os lugares-comuns sobre a chamada literatura africana em língua portuguesa.

Filho de um aventureiro português, caçador de elefantes, Ruy Duarte de Carvalho interessou-se desde muito cedo pela vida e o destino das populações nómadas do Sul de Angola. Enquanto regente agrícola, administrador de fazendas e criador de gado caraculo, ainda durante os últimos anos da época colonial, aprofundou o seu conhecimento da região.

Logo a seguir fez-se cineasta, na tentativa, por certo, de preservar a luz e a memória de um tempo excessivamente rápido.

 “Chão de Oferta”, o seu livro de estreia, publicado em Luanda em 1972, trouxe a surpresa de uma voz luminosa, telúrica e solene, muito distante de qualquer corrente ou proposta literária até então praticada em Angola. A existir filiação, talvez esta se encontre em alguma poesia épica das nações do Sul, pela qual Ruy Duarte sempre se interessou, e que recriou mais tarde em “Ondula Savana Branca” (1982). “Como Se o Mundo não Tivesse Leste” é o único título de ficção de Ruy Duarte.

Publicado em 1977, recolhe duas narrativas de ambiência rural, com forte componente autobiográfica. “Memória de Tanta Guerra” (1992), antologia poética que reúne textos dispersos por seis livros, publicados entre 1972 e 1988, constitui certamente um bom princípio para quem queira descobrir a obra do poeta. Infelizmente estão ausentes desta antologia os poemas de “Lavra Paralela”, único livro no qual Ruy Duarte se concentra sobre os climas e os sentimentos de Luanda.

Antropólogo, doutorado pela Universidade de Paris II com uma tese sobre os pescadores da ilha de Luanda, “Ana a Manda — Os Filhos da Rede”, Ruy Duarte regressou ao deserto em 1992, e nos anos seguintes, tendo resultado destas peregrinações um extraordinário relato de viagens, com suporte científico, que deverá ser brevemente editado em Portugal: “O Outro Lado da Idade”.

 

Germano Almeida, o riso das ilhas

 

O escritor cabo-verdiano Germano Almeida trouxe o riso para dentro dos livros. A divertida ironia encontra nele, hoje, o seu melhor representante.

 

Germano Almeida chegou à literatura de forma um tanto inesperada, em 1991, através de uma pequena novela com um título imenso: “O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo”.

Este seu primeiro livro mereceu o Prémio Marquês de Vale Flor, levando um jornal português a noticiar o facto dizendo que o prémio tinha sido atribuído ao romance “O Testamento”, do senhor Napumoceno da Silva Araújo. Os jornalistas que foram à procura daquele novo romancista acabaram por descobrir um advogado com quase dois metros de altura, nascido na ilha da Boa Vista mas radicado na pacata cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente. O livro surpreendeu toda a gente pela novidade de um discurso irónico, cáustico e, no entanto, alegre — se fosse música seria certamente uma coladera.

Logo no ano seguinte, em 1992, Germano Almeida publicou “O Meu Poeta”, confirmando a vocação para a sátira social, num romance que levantou uma divertida polémica em Cabo Verde, e que de alguma forma anunciou o processo de democratização do arquipélago.

De entre os nove livros que o escritor cabo-verdiano publicou até ao momento, merece destaque a “A Ilha Fantástica” (Editorial Caminho, Lisboa 1994). A ilha fantástica não é outra coisa senão esse secreto lugar a que sempre regressamos quando nos sentimos sem rumo: a infância. É sabido que os nossos primeiros anos de vida são os mais longos, tão longos que não se esgotam nunca. Este livro de Germano Almeida conta a história de todo um universo - a pequena ilha da Boa Vista -, através do olhar de uma criança.

A obra de Germano Almeida constitui no seu conjunto um belíssimo elogio da mestiçagem, um elogio à capacidade criadora de um pequeno povo, capaz de transformar um pedaço de terra agreste, quase inabitável, numa pátria de gente feliz.

O escritor cabo-verdiano não se limita a dar testemunho da vitalidade desta cultura, vai mais longe, exercendo a sua crioulidade na própria arte de contar: as histórias sucedem-se umas às outras, umas puxando a memória de outras, numa técnica que resgata todo o encantamento da literatura oral.

Outra marca de oralidade, que dá à narrativa de Germano Almeida um sabor muito próprio, é a incorporação de termos e expressões do crioulo: “fazer um mandado”, voluntarezas, biquirias, parbiça, trivimento, roscon, morrinhentezas, etc. Muitas destas palavras têm origem incerta, podendo resultar da transformação de termos portugueses, ingleses, franceses ou de idiomas africanos. Outras, porém, são claramente arcaísmos da língua matriz. Palavras que surgem de súbito, iluminando o texto. Descobrimo-las com calor e espanto. Onde estavam, que não sabíamos delas?

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados webdesign Terra das Ideias