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Em Primeira Pessoa
Outubro de 2000

Os santos mártires chineses
Por: DANIEL CEREZO, Missionário comboniano



José Zhang Dapeng, nascido em 1754 e martirizado em 1815, é um dos 120 mártires chineses proclamados santos por João Paulo II na Basílica de São Pedro no passado dia 1 deste mês.

 

Zhang é, de certa forma, um protótipo, singelo mas ao mesmo tempo eloquente, dos outros mártires. Na sua breve biografia sobre os 120 mártires chineses, D. José Wang Yu-Jung, bispo em Taiwan e presidente da Comissão Episcopal para a Canonização dos Santos Mártires Chineses, relata alguns episódios da vida de Zhang Dapeng que vale a pena recordar.

«Nascido na província de Guizhou – relata o livro –, desde muito novo se sentiu atraído pelo taoísmo. Aos 20 anos, montou um negócio de seda com um sócio chamado Wang. Foi precisamente através do filho mais velho de Wang que Zhang teve o primeiro contacto com Cristo. Aceitou Jesus Cristo, mas não pôde receber o baptismo, porque tinha uma concubina. Três anos mais tarde, um catequista, Hu Shilu, persuadiu-o a deixar a concubina, sendo então baptizado com o nome de José, apesar da enérgica oposição dos seus irmãos. A partir de então, a sua vida transformou-se numa frenética actividade missionária, anunciando o Evangelho de Jesus e a Boa Nova. Comprou uma casa para dar aulas de religião e catequese. Em 1808, o padre Tang pediu-lhe para ser director de uma escola e simultaneamente catequista. Tudo corria bem. Mas chegaram os tempos das revoltas e sublevações da seita Lódão Branco (Bailianjiau) e inicia-se a perseguição religiosa. A seita Lódão Branco, fundada em 1133, tinha por finalidade a adoração do Buda Amitabha. Foi fundada por Mao Ziyuan, na província de Suzhou. Os seus adeptos eram, em geral, camponeses pobres, na maioria vegetarianos, que se negavam a pagar impostos. Este tipo de sublevações eram, na maior parte dos casos, uma resposta da população camponesa e mais pobre da sociedade à corrupção dos funcionários do Governo, às desigualdades sociais, à escassez de terras de que os camponeses podiam dispor e às medidas autoritárias exercidas sobre a população, sem esquecer a natural aversão para com os estrangeiros. Pouco a pouco, os cristãos foram condenados como suspeitos. José fugiu, mas o seu filho foi preso e morreu na prisão dois anos mais tarde. Apesar de tudo, Zhang não esmoreceu no seu zelo missionário. Mas em 1814 foi traído por um cunhado e posteriormente preso. Na cadeia encontrou-se com outro dos 120 mártires agora canonizados, Pedro Wu Guosheng. Ambos animavam os cristãos a sofrer pela sua fé e a manterem-se fiéis a Deus. Mais ainda: na cadeia, conseguiu instruir na fé alguns companheiros não cristãos. No ano seguinte deram-lhe a possibilidade de ser solto se renunciasse à sua fé, mas ele permaneceu fiel até ao fim. Horas antes do seu martírio, os seus irmãos e familiares suplicaram-lhe de joelhos e com as lágrimas nos olhos que renunciasse à sua fé. Em vão. No dia 2 de Fevereiro de 1815 foi assassinado e enterrado em Xijiaotang. Depois da sua morte, muitos cristãos começaram a venerá-lo. A 2 de Maio de 1909 foi beatificado por Pio X e a 1 deste mês canonizado por João Paulo II.»

 

Fidelidade ao Evangelho

 

A Igreja universal ratifica agora a santidade destes 120 mártires, que em diversas épocas e lugares deram a vida por fidelidade a Cristo: 32 deles foram martirizados entre 1814 e 1862; 86 morreram durante a revolta dos Boxers em 1900 e dois foram mortos em 1930. Entre eles sobressaem seis bispos europeus, 23 sacerdotes, um irmão religioso, sete religiosas, sete seminaristas e 72 leigos, dos quais dois catecúmenos. Os mártires tinham entre sete e 79 anos. Todos eles foram beatificados, uns em 1900 e outros em 1946. Muitos deles eram chineses das províncias de Guizhou, Hebei, Shanxi e Sichuão e 33 eram missionários europeus.

A perseguição religiosa na China ocorreu em diversos períodos da sua história. A primeira perseguição deu-se na dinastia Yuan (1281-1367). Prosseguiu mais tarde na dinastia Ming (1606-1907), recrudescendo de forma especial em 1900 com a revolta dos Boxers. E continuou durante as cinco décadas de governo sem interrupção. Grande parte destes canonizados deram a vida durante a revolta dos Boxers em 1900, que foi como que uma premonição do que iria acontecer nas cinco décadas de governo comunista na China.

Os missionários foram objecto de um édito imperial de 10 de Julho de 1900, que fomentou e provocou o massacre de milhares de cristãos. Outros morreram durante as perseguições religiosas das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). De fora ficarão as centenas de mártires que durante o regime comunista foram perseguidos e deram a vida por fidelidade ao Evangelho e a Cristo. Para a Igreja da China é um acontecimento importante pela magnitude e pelo contexto em que ocorre. É-o igualmente para a Igreja universal, bastante desconhecedora do que acontece com a Igreja da China. Eis algumas considerações sobre o significado do evento.

 

Igreja com vocação para o martírio

 

O martírio tem assinalado a Igreja da China ao longo dos séculos, desde a chegada da mensagem cristã no século VII com a vinda do monge sírio Alopen e dos nestorianos até Xian, capital da dinastia Tang, no ano de 635. Os estudiosos da Igreja na China, que falam de cinco tentativas de evangelização do país, concordam em afirmar que cada tentativa em estabelecer a presença do Evangelho no Império do Centro acarretou perseguições e martírio. Umas vezes pelas discrepâncias de credos, porque o imperador era considerado o Filho do Céu; outras pelos contrastes de culturas ou por motivos políticos; outras vezes por divisões entre as congregações religiosas presentes no território. O facto é que estamos diante de uma Igreja martirial. Mesmo hoje em dia isso é uma realidade permanente tanto para as comunidades subterrâneas como para as que conseguem actuar mais às claras.

O controlo e a perseguição variam conforme os lugares e as situações, mas os cristãos continuam a ser abertamente perseguidos e, por vezes, encarcerados e torturados. Como João Paulo II dizia na sua mensagem aos católicos da China por ocasião da celebração do ano jubilar: «O Jubileu será uma oportunidade para lembrar os trabalhos apostólicos, os sofrimentos, as dores e o derramamento de sangue que têm feito parte da peregrinação desta Igreja ao longo dos tempos. Também no meio de vós o sangue dos mártires se converteu em semente de uma multidão de autênticos discípulos de Jesus... E parece que este tempo de prova ainda prossegue nalgumas localidades.»

Com esta canonização, a Igreja da China envia uma mensagem profética ao mundo de hoje. Tanto pela singeleza com que afirmaram a sua fé como pela valentia em recusar a apostasia que os libertaria dos tormentos, da tortura e das infindáveis humilhações, o testemunho destes 120 mártires é a palavra viva de Deus, clara e ao mesmo tempo misteriosa. É sem dúvida alguma um encorajamento para as gerações vindouras de cristãos. Para além deste grupo de cristãos, muitos mais haveria a canonizar, mas, por falta de provas e informação, não puderam ser reconhecidos, embora a Igreja autentique como valores de ontem e de hoje a fidelidade a Cristo acima de qualquer ideologia, sistema ou tirania.

Os santos chineses espelham uma capacidade de doação e uma confiança ilimitada em Deus num contexto hostil à mensagem cristã. Se o autêntico tesouro do discípulo de Cristo é a cruz e se não há outra forma de seguimento de Cristo senão através da cruz, podemos dizer que a Igreja universal reconhece de forma pública o testemunho destes mártires como riqueza para toda a Igreja.

 

Sinais de contradição

 

Os novos santos tornar-se-ão, sem dúvida alguma, fonte de inspiração, desafio e apelo às consciências adormecidas dos cristãos dos nossos dias. Serão, para as gerações vindouras, pontos de referência que fazem com que a fé não se desvirtue, afrouxe ou rebaixe com anestesias atractivas ou sistemas e ideologias cuja finalidade é perpetuar o poder do mal. Por isso mesmo, são figuras e sinais de contradição sem que eles mesmos tenham feito nada para isso. Uma pessoa não escolhe o martírio como norma de vida, mas a fidelidade à pessoa de Cristo faz com que as situações de martírio sejam visíveis e concretas e que, portanto, em certos lugares e sob determinados sistemas e circunstâncias o martírio se torne uma possibilidade real. Os novos santos serão um reflexo fiel da capacidade de sobrevivência da Igreja da China.

O martírio, com o seu aparente fracasso, não atrai a nossa sociedade, onde por todos os meios se procura o êxito. Mas eles demonstram que o perdão e o amor são mais fortes que o ódio e a morte, afiançando que o Senhor é o vencedor do mal. Descobrimos algumas características que lhes são comuns apesar das diferenças de contextos e épocas. Em geral, sobretudo aos mártires chineses, pedia-se-lhes para renunciarem à sua fé para continuarem a viver. A sua resposta foi negativa, recusando o culto dos ídolos.

Muitos destes martírios foram a consequência de vinganças e traições devido à sua fé em Cristo. Todos eles sofreram tortura, humilhações públicas, decapitação e outros aviltamentos, preferindo a morte antes que renunciar à sua fé. Bastantes de entre eles pagaram por uma dedicação generosa à Igreja como catequistas, líderes de comunidades cristãs ou em estreita colaboração com os sacerdotes locais e os missionários.

O testemunho dos mártires tornar-se-á, certamente, fonte de inspiração e esperança para os católicos na China e vai ajudá-los a conservarem-se fiéis a Cristo, apesar das dificuldades e perseguições que enfrentam.

 

 

Reacções diferentes

 

As reacções à canonização foram, obviamente, díspares num país ateu com uma clara oposição do Governo ao cristianismo. Os católicos chineses receberam com enorme satisfação e alegria o facto de a Igreja universal reconhecer a sua santidade. Em Taiwan, Hong Kong e Macau a canonização foi recebida com esperança e alegria. Em Hong Kong já existem algumas capelas e centros religiosos dedicados à memória de mártires como os beatos Peter Wu Guosheng e Jospeh Zhang Dapeng. Grandes manifestações religiosas se aprazaram também para o dia da cerimónia da canonização para aqueles que não tiveram a possibilidade de se deslocar a Roma.

Na China continental as reacções da Igreja foram diferentes conforme os lugares. O quinzenário católico de Shijiazhuang (província de Hebei) Xinde («Fé»), com uma tiragem de 40 mil exemplares, trazia ainda há pouco a lista completa dos 120 mártires chineses. Ao lado do nome de cada mártir vinha o local e ano de nascimento e a data do martírio. A agência de notícias UCAN informava que a notícia da canonização trouxera alegrias e preocupações à Igreja Católica chinesa. Segundo a UCAN, o bispo Paul Jiang Taoran, de Shijiazhuang – não reconhecido pelo Vaticano – exprimia a sua alegria pela canonização, embora dela não tivesse prévio conhecimento.

O Governo chinês, por seu lado, não gostou da iniciativa da Santa Sé. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Pequim acusou a Santa Sé de distorcer a história e caluniar o povo chinês com a canonização de pessoas que cometeram «crimes enormes». De facto, muitos dos mártires foram vítimas da revolta dos Boxers (1900), que Pequim considera um movimento patriótico contra o imperialismo. Também a Associação Católica Patriótica, dominada pelo Governo e que não reconhece a autoridade do Papa, se professou indignada com a canonização e culpou o Vaticano de encorajar os crentes a oporem-se às autoridades governativas.

A estas críticas respondeu o porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro Vals, dizendo que «acusar de crimes enormes esta plêiade de testemunhas é fruto de uma leitura unilateral da história e uma mistificação». Navarro especificou que a cerimónia «não tem qualquer motivação política, não é contra ninguém, menos ainda contra o grande povo chinês» nem «pretende formular um juízo sobre os complexos períodos históricos». A sua única finalidade, sublinhou, é «fazer brilhar na Igreja e aos olhos das pessoas de boa vontade a luz da fé destes mártires».

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