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Dezembro de 2006

D. Sebastião Soares de Resende: O bispo que se indignou
Por: MANUEL VILAS-BOAS, Jornalista da TSF



 

Corria o ano de 1944. Recém-chegado a Moçambique, D. Sebastião Soares de Resende denuncia: «Impera na Beira a escravatura.» Este ano, em Junho, completaram-se cem anos sobre o nascimento deste homem de excepção, o bispo português que bateu o recorde de intervenções no Vaticano II e aproveitou o concílio para condenar as ditaduras e o colonialismo.

 

Foi por entre as terras férteis de Milheiros de Poiares, no concelho da Feira, que Sebastião Soares de Resende nasceu a 14 de Junho de 1906. O mais novo de seis filhos, Sebastião recebeu, no leite materno, a fé cristã que mais tarde o impeliria à dignificação de seres humanos tão desprezados como os negros moçambicanos.

Na indecisão de uma saída profissional, quando adolescente, ainda foi levantada a hipótese de o pequeno Sebastião se tornar barbeiro, profissão a que estavam ligadas tarefas de agente de medicinas populares, segundo reza um dos seus biógrafos, David Simões Rodrigues. Por influência do pároco, o abade Serafim José dos Reis, ingressa no seminário do Porto, contra a vontade do pai. Aluno sempre distinto, é ordenado padre aos vinte e dois anos, em 21 de Outubro de 1928.

Dotado de inteligência superior, é enviado para Roma, onde se licencia em Teologia e se doutora em Filosofia, na Pontifícia Universidade Gregoriana. Fará também, em Bérgamo, no Norte de Itália, o curso de Ciências Sociais. Foi nesta saída do país que, ao passar pelo santuário de Lurdes, terá sido atingido por uma «inspiração interior» para tudo fazer «com ânimo cristão, mais eclesiástico», conforme confissão por carta, dirigida ao padre Dias de Pinho, seu amigo e conterrâneo.

Terminada a formação superior na Itália, em 1933, o novo doutor é, inexoravelmente conduzido, por dez anos, para o ensino no Seminário Maior do Porto. Um ano depois é nomeado vice-reitor. Em 1935 é feito, com D. António Ferreira Gomes, cónego da Sé Catedral do Porto.

De acordo com o historiador Pedro Ramos Brandão, o interesse intelectual de Soares de Resende centrava-se, então, em estudos sobre a história teológica portuguesa e o pensamento católico português. Era conhecido como um «tomista ferrenho». A garra de investigador levou-o também a travar-se de razões com alguns nomes da literatura nacional, designadamente Aquilino Ribeiro, no suplemento «Letras e Artes» do diário católico Novidades.

 

Primeiro bispo da Beira

 

Em 1940, a Igreja Católica assina com o Estado português a Concordata e o Acordo Missionário. Daí resulta a criação de novas dioceses no Ultramar. Moçambique ficara reduzido a uma Prelazia (diocese única) desde 1783. Antes, vivera na dependência de Goa, durante três séculos. Entre as novas dioceses está a Beira que, com o seu porto de mar, se há-de transformar num estratégico centro económico e social. Mas só três anos depois da criação da diocese pelo Papa Pio XII é que Roma nomeia primeiro bispo da Beira o cónego Sebastião Soares de Resende, então com 37 anos. Mal supunha este prelado que tipo de África colonial iria encontrar. «Uns baldios da Europa», na expressão de Salazar, em plena Guerra Mundial.

A três anos da inauguração dos voos da TAP, D. Sebastião vê-se obrigado a viajar ainda de barco até à sua nova terra de (pro)missão, onde chega a 30 de Novembro de 1943. Ficou-lhe na memória aquela brisa, pela tarde, no foral do Macúti, depois dos cumprimentos formais ao governador e ao presidente da Câmara da cidade da Beira. Transformava-se o professor reservado e austero no bispo missionário, próximo e aberto à condição humana. Tem agora pela frente 1 milhão e 700 mil pessoas. Os católicos nativos são pouco mais de 32 mil. Os europeus não chegam aos 4 mil.

 

Missões, cartas e um jornal

 

Os primeiros contactos no terreno impõem à consciência do prelado a opção por condições exequíveis a fim de fazer avançar um projecto evangelizador. Tornava-se, para isso, imprescindível recrutar mais braços. Da metrópole chegavam poucos e mal preparados. Restava a alternativa de menor agrado do governo: missionários estrangeiros. Os padres de Burgos e os padres Brancos são os que respondem em maior número. Serão também eles que, mais tarde, já na agonia do regime, hão-de ser acusados e expulsos por “subversão”.

A criação de novas missões e de estruturas de apoio às populações indígenas foi outra prioridade pastoral de D. Sebastião. Cáustico, o bispo deixou, no seu «diário», recados à navegação: «As autoridades portuguesas querem o preto selvagem para continuar a ser animal de carga. Mas as missões hão-de ir, quer queiram ou não.»

A escrita foi a arma de que se serviu o bispo filósofo. A um ritmo quase anual, D. Sebastião publicou quinze Cartas Pastorais que haveriam de atormentar a polícia política e os poderes estabelecidos, mas também membros do episcopado. Foram particularmente incisivas as pastorais de 1948 e 1949, intituladas «Ordem comunista» e «Ordem anticomunista»; «Hora decisiva de Moçambique» de 1954 e «Moçambique na Encruzilhada» de 1959. Completaram as Cartas Pastorais as suas intervenções na imprensa, sobretudo na Voz Africana e no Diário de Moçambique, este criado por ele próprio, no Natal de 1950.

Escreveu no «diário» pessoal: «Um jornal é mais importante que três ou quatro missões. Tudo está em ele ser bem feito.» Não lhe deu, por isso, tréguas a PIDE, impondo, por três vezes, o encerramento do jornal (a polícia do regime, sobre o bispo, haveria de recolher nos seus arquivos um processo de 400 páginas). Um dos meios utilizados para a evangelização foi ainda a Rádio Pax, da responsabilidade dos missionários franciscanos.

 

Contra a portugalização

 

Um dos investimentos maiores de D. Sebastião dar-se-ia no sector do ensino e da educação. O bispo não suportará por muito tempo o «ensino rudimentar», de dois anos, destinados às populações indígenas, tendo como disciplinas obrigatórias a Língua Portuguesa e a História de Portugal. Salazar defendia que a «portugalização» se faria deste modo. D. Sebastião preconizava, ao contrário, uma «educação igual e geral para todos, quer fossem indígenas ou europeus», refere o historiador Pedro Ramos Brandão. Para tanto teve o prelado de bater-se, não apenas contra o governo central de Lisboa, mas também contra a hierarquia católica. Foi com dificuldade que o bispo da Beira conseguiu manter, na sua diocese, a diferença entre ensino e catequização. A Igreja corria assim o risco de se transformar numa extensão administrativa… O bispo reclamava na carta pastoral «O Padre Missionário» que a instrução aperfeiçoa o homem e a catequese forma o cristão. Foram, entretanto, muitos os evangelizadores, sobretudo estrangeiros, que, recusando «portugalizar», optaram pela aprendizagem das línguas autóctones, com natural aplauso do bispo missionário.

Mas era o «Estatuto do Indígena» que mais afligia D. Sebastião. As relações laborais desenvolvidas pelos brancos defendiam a tese de que os negros estavam inexoravelmente destinados ao trabalho pesado nas colónias. Na Beira, a escravatura morava no algodão. «Nós cá dentro continuamos a vender pretos e a escravizá-los ao algodão, obrigando-os a fazer trabalhos debaixo de pancadaria, e isto é incrível e espantoso.» Notas guardadas pelo bispo no seu «diário». Mais que de uma questão jurídica, tratava-se de uma questão moral.

 

Independência para Moçambique

 

Adriano Moreira é o membro do governo de Salazar que melhor compreende as angústias do bispo da Beira. O antigo ministro das Colónias andará ainda de braço dado com D. Sebastião para a instauração do ensino técnico, politécnico e superior. Em Agosto de 1962 são criados os Estudos Gerais de Moçambique e de Angola, integrados na universidade portuguesa.

O bispo da Beira tinha a convicção de que, num futuro próximo, aquela colónia do Índico caminharia inevitavelmente para a autodeterminação e mesmo para a independência: «Moçambique tem os seus direitos e uma vez que seja possível, deve tornar-se independente, com negros e brancos a governar.» O contacto com destacadas figuras no estrangeiro, como John Kennedy e o mediático arcebispo Fulton Sheen, de Nova Iorque, a quem solicitou apoio financeiro para as missões da diocese, deram-lhe a certeza da marcha da História. O prelado lutava, sem tréguas, contra todas as formas de exploração dos seres humanos.

Antes que a morte o arrebate – ela virá aos 60 anos, em 25 de Janeiro de 1967, na sequência de um doloroso cancro no esófago – o bispo da Beira participa ainda, em Roma, no Concílio Ecuménico Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. Considerado um conservador em matéria doutrinal, D. Sebastião Soares de Resende bate, entretanto, o recorde de intervenções, na aula conciliar, entre os membros das duas conferências episcopais, metrópole e ultramar. De grande impacto internacional foram as reflexões de carácter social do bispo português, pedindo a condenação das ditaduras e do colonialismo.

 

As últimas vontades

 

Conhecedor do teor da doença que o atormentava e que o obrigou a percorrer alguns países, já na fase terminal, deixou, em memória, um testamento através do qual pede perdão a todas os colaboradores e habitantes da diocese, cristãos e não cristãos. São eloquentes as palavras sobre o seu funeral: «Gostaria que, em algum trajecto, os cristãos africanos pegassem ao meu caixão. Desejaria também que fosse sepultado na principal via interna do cemitério que fosse mais calcada pelos visitantes, em simples campa rasa e com uma pequena pedra por cima, em que se inscreva somente: “Sebastião, primeiro bispo da Beira.” Aí ficarei e aí esperarei a ressurreição da carne, para o juízo final.»

O cancro levou-o com sessenta anos de vida e um quarto de século como bispo missionário. Apesar da sessão comemorativa do centenário do seu nascimento, realizada, em Junho passado, na sua terra natal, o país deve a este prelado uma homenagem nacional pela dignificação que fez da África lusófona, vítima, ainda hoje, de tantos atropelos aos Direitos Humanos.

 

 

 

«Está tudo por fazer»

 

Ainda não tinha chegado à diocese da Beira e já o bispo deixava, por escrito, as suas impressões, só recentemente tornadas públicas. Transparente, a personalidade do prelado foi sempre testada perante um quotidiano telúrico. Eis alguns extractos do seu “Diário Íntimo”.

 

– 27 de Abril de 1944: Em Portugal, porque não o dizer, não há mentalidade missionária, nem entre os próprios membros da Igreja.

 

– 7 de Julho de 1944: Na África há visitas de protocolo, à borla, muitos cumprimentos, muitas mesuras, muitas vénias que eu chamo curvaturas dorsais e… na sua ausência, a má-língua, a murmuração, a calúnia... É a África!

 

– 27 de Agosto de 1944: Precisa-se de aplicar aqui a doutrina das encíclicas sociais dos papas Leão XIII, Pio XI e Pio XII. A escravatura já passou à História e é preciso que cesse o abuso de se construir grandes fortunas com sangue de pretos.

 

– 10 de Setembro de 1944: Cada vez mais me convenço de que os indígenas estão, nos arredores da Beira, completamente abandonados. Está tudo por fazer.

 

– 14 de Outubro de 1944: Notei que há muitas serrações à beira do caminho-de-ferro.

Os pretos vestem um saco e vi que alguns trabalhavam numa propriedade no sábado de tarde. Impera na Beira a escravatura! Não há maneira de se convencerem que os pretos são pessoas humanas.

 

– 17 de Novembro de 1944: Fui ao gabinete do governador tratar de assuntos relativos a uma missão. Diz sua excelência que para si o depoimento de pretos não vale nada! Que bela fazenda jurídica! Deste modo podem perpetrar-se os maiores crimes contra os pretos, se eles se queixarem, não vale nada o seu depoimento... Desgraçados pretos regidos por homens destes!

 

 – 4 de Outubro de 1950: Não apareci nas festas de São João de Deus porque nós, os bispos dos pretos não temos categoria, aqui em Lisboa!!!

 

– 5 de Março de 1952: De facto, há muita burocracia no mundo e também na Igreja!

 

– 19 de Outubro de 1956: Há a decadência em política indígena. Por um lado, é a caça ao preto para o contrato, por outro lado, é a insistência para que trabalhe a terra. A escravatura existe em Moçambique, não há dúvida e é em forma bem rígida.

 

– 1 de Dezembro de 1957: É o dia da revolução! Da Independência... há necessidade, hoje, de outro dia 1 de Dezembro para libertar Moçambique da canalha do Ministério do Ultramar a começar pelo ministro que se chama Ventura e que é uma autêntica desventura. Quem lhe fará como ao Miguel de Vasconcelos!

 

– 13 de Janeiro de 1958: Soube, ainda mais, que o Jorge Jardim está a tomar a peito o Notícias da Beira. Está a mostrar, este senhor Jardim, que é um homem sem carácter e que já parece um perseguidor da Igreja. Vamos ver o que dá. O que querem é combater o Diário de Moçambique, por não lhes fazer a vontade.

 

– 29 de Janeiro de 1958: O Salazar está cercado de uma verdadeira canalha e já não diz que não.

 

– 5 de Março de 1958: Estou a preparar outra palestra. Deus me ajude, pois nesta quero dar umas pancadas fortes...

 

– 26 de Janeiro de 1960: Combate-se o selvagismo dos pretos com um selvagismo pior que é o dos brancos! Ou repatriá-los ou castrá-los, mas o melhor de tudo seria metê-los na cadeia, porque estão lá outros por crimes muito menores.

 

– 6 de Fevereiro de 1963: Por causa da censura passei a tarde aborrecido e não dormi nada de noite. Esta Comissão de Censura é o que há de mais cretino, de mais abusivo e de mais estúpido. Houve um desastre de aviação em que morreram seis homens, e não deixam dar a notícia.

 

– 15 de Novembro de 1963: Pior que o calor é a preocupação com o futuro de África. A Federação caiu. Os seus territórios estão a caminho da independência. Nós aqui estamos no impasse. O Dr. Salazar disse: «aguentar é a palavra»! Mas aguentar e depois? O problema fica sempre em aguentar, e isso não é solução, pelo menos definitiva. Moçambique tem os seus direitos e uma vez que isso seja possível deve tornar-se independente. Com negros e brancos a governar.

 

– 15 de Fevereiro de 1965: Este dia é um dos mais tristes para a Igreja m Moçambique. O Governo corta um número do comunicado da Conferência Episcopal e o arcebispo D. Custódio aceita e publica mesmo assim o comunicado censurado. Sem ouvir os outros bispos! Isto é uma atitude de prepotência por parte do Governo e de fraqueza por parte do arcebispo! Vou protestar e alguns bispos acompanham-me.

 

– 27 de Maio de 1965: A PIDE seguiu-me do aeroporto, desde a chegada, permanecendo aqui à porta, segue-me para toda a parte. Nunca pensei que as coisas tivessem chegado a isto!

 

– 7 de Julho de 1965: A Igreja em Moçambique tem diante de si problemas gravíssimos, que ela nem sequer tenta equacionar. Mas há que levantar esses problemas e afrontá-los, de outro modo havemos de ser todos chacinados e com razão, porque eu faria o mesmo,

 

– 19 de Setembro de 1965: Estou a preparar uma intervenção para o Concílio. No esquema 13 ficava bem uma intervenção a atacar a PIDE, enquanto injuriosa à pessoa humana.

 

– 28 de Setembro de 1965: Fui o nono a falar, na aula conciliar. Tratei da dignidade da pessoa humana, do amor para com os inimigos e da igualdade entre homens, Na primeira parte ataquei e pedi que se condenassem os regimes de policiamento que se fazem especificamente na União Soviética. Mas queria atingir a PIDE! Os Portugueses perceberam.

 

 


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