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Dezembro de 2012

África / Doenças transmissíveis: contágio continental
Por: CARLOS REIS, Jornalista



As doenças transmissíveis representam 63 por cento das mortes no continente africano, com destaque para o VIH/sida, tuberculose e malária. Ainda assim, registam-se progressos na luta contra as doenças contagiosas que permitem a redução da mortalidade em crianças.

 

 

A maioria das epidemias de doenças infecciosas em África está associada ao subdesenvolvimento do continente, uma vez que nas economias fracas e dependentes a causalidade das doenças transmissíveis está ligada à pobreza. A saúde das populações depende tanto da prestação de cuidados de saúde, como da protecção e promoção do bem-estar das pessoas. Só o VIH/sida é responsável por 38,5 por cento das mortes por doenças transmissíveis e por 15,6 por cento do total de óbitos em África.

Nas últimas décadas, os avanços científicos e tecnológicos na saúde têm promovido o controlo das doenças transmissíveis, contudo, os factores fundamentais do êxito assentam no desenvolvimento socioeconómico que permite melhorar o meio ambiente, habitação, nutrição, abastecimento de água, higiene e saneamento básico. As dificuldades mais significativas que actualmente se encontram no tratamento das doenças infecciosas são os testes diagnósticos efectivos, as mutações e as resistências aos medicamentos, a necessidade de novos fármacos e vacinas e a dificuldade de encontrar fundos e pessoal para os tratamentos.

A saúde ocupa um lugar central no conceito do desenvolvimento humano e nos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, promovidos pelas Nações Unidas, que estabelecem a inversão da incidência e prevalência de doenças transmissíveis como o VIH/sida, malária e tuberculose.

Para o director regional da Organização Mundial de Saúde para África, «até à data, sobretudo na África Subsariana, enfrenta-se o peso das doenças transmissíveis associadas a elevada mortalidade materna e infantil. Isto é agravado pela fragilidade do sistema de saúde, a pobreza de uma boa parte das populações e fraco desempenho económico dos países», avalia Luís Sambo.

 

Cortes na saúde pública

 

Em África, as doenças infecciosas causam anualmente mais de 6,3 milhões de mortes, mais de metade das 10,4 milhões ocorridas. O relatório «World Health Statistics 2011», da Organização Mundial de Saúde, aponta que a esperança média de vida no mundo à nascença é de 68 anos, valor que em África desce para 54 anos.

A situação da saúde pública no continente africano poderá deteriorar-se significativamente com a redução da contribuição de muitos governos doadores, afectados pela crise financeira, para o The Global Fund. Esta diminuição já levou ao cancelamento e corte de programas de ajudas deste fundo global para a luta contra a sida, tuberculose e malária.

Para as economias em desenvolvimento de África, as doenças transmissíveis representam uma crise humana e um obstáculo ao crescimento. As doenças infecciosas afectam sobretudo jovens adultos no auge da sua capacidade produtiva decisiva para o futuro dos seus países. Quando, nas famílias, atinge quem as sustenta, estas podem rapidamente deparar-se com situações de ruptura financeira e social pela prolongada incapacidade de trabalho com que os doentes ficam. Não resolver o problema das doenças transmissíveis é mais dispendioso do que o tratamento dos doentes infectados, além de que, com a globalização do mundo, as doenças infecciosas deixam de ser exclusivas dos países em desenvolvimento.

 

VIH/sida

 

No início do século, havia mais de 36 milhões de infectados com VIH/sida em todo o mundo. Cerca de 95 por cento das infecções ocorrem em países em desenvolvimento, em especial na África Subsariana, onde em 2000 estavam 70 por cento de todos os infectados com VIH. Nesta região, a sida mata por ano dois milhões de indivíduos. A Suazilândia e África do Sul têm a maior população de portadores do VIH no mundo, seguida pela Nigéria.

Por cada cem pessoas que morrem em África, quase 16 morrem devido ao VIH/sida. Ainda assim, o continente registou progressos, no domínio da luta contra a doença infecciosa, com o acréscimo da cobertura das intervenções com anti-retrovirais para a redução da transmissão vertical. Aumentou ainda a cobertura de tratamento com anti-retrovirais de 100 mil pessoas em 2003 para 6,2 milhões de pessoas em 2011, contudo a incidência anual da infecção pela doença ainda é muito elevada com 1,7 milhões de novos casos no último ano.

O VIH/sida afecta o crescimento económico dos países, reduzindo a disponibilidade de capital humano. Em algumas áreas altamente infectadas, a epidemia deixa para trás muitos órfãos cuidados por avós idosos. Ao nível familiar, os resultados da doença infecciosa são a perda de renda e o aumento dos gastos com saúde pelo responsável da família.

 

Tuberculose

 

Estima-se que perto de um terço da população mundial esteja infectada com a bactéria causadora da tuberculose. Só uma pequena proporção dos contagiados chega a desenvolver a doença, porém, todos os anos 8,8 milhões de indivíduos desenvolvem tuberculose activa e 1,8 milhões morrem da doença.

Cerca de 80 por cento dos casos de tuberculose ocorrem em apenas 22 países, grande parte dos quais na África Subsariana, com a maior incidência na Nigéria, África do Sul e Etiópia. Nestas regiões, há países em que a tuberculose mais do que duplicou na ultima década, em virtude do efeito potenciador da epidemia de VIH, que enfraquece o sistema imunitário.

Segundo as projecções da Stop TB Partnership, estes cortes resultam numa amputação dos fundos disponíveis para o tratamento contra a tuberculose de cerca de 1,7 mil milhões de dólares durante os próximos cinco anos. «Estima-se que menos 3,4 milhões de doentes irão receber o tratamento que lhes pode salvar a vida», antecipa Jorge Sampaio, enviado especial das Nações Unidas para a luta contra a tuberculose.

 

Malária

 

A malária (paludismo) mata mais de um milhão de indivíduos por ano. A prevalência cifra-se em cerca de 300 milhões de pessoas. A região mais afectada é a África Subsariana, com 90 por cento da incidência e 97 por cento das mortes (morre uma pessoa a cada 15 segundos). As crianças menores de cinco anos e as grávidas são os grupos mais afectados em termos de gravidade da doença. Esta está fortemente associada a condições de subnutrição e a outras doenças debilitantes, comuns em países africanos. Na região a sul do Sara, a doença mata uma criança em cada 20 antes dos cinco anos de idade (todos os dias morrem 2500 crianças com menos de cinco anos).

Desde 2002, o número de mortes provocadas pela malária diminuiu cerca de um terço (33 por cento) em África. O Burkina-Faso, Mali e Moçambique surgem no topo dos países do continente com maior número de mortes da doença transmitida por mosquito.

Na última década, tem havido um compromisso político crescente no combate à malária. Os Estados, organizações como a ALMA e programas como o E8 têm contribuído para um aumento do financiamento, bem como um melhor acesso à prevenção e tratamentos eficazes para reduzir o peso da malária.

«A eliminação de medicamentos de fraca qualidade ou de contrafacção irá ajudar a evitar que o parasita desenvolva resistência aos medicamentos recomendados», revela Luís Sambo. «A luta contra a epidemia da malária tem boas oportunidades e perspectivas nos próximos anos em África», antecipa o director regional da Organização Mundial de Saúde para África.

Entretanto, a OMS alerta para uma possível «catástrofe sanitária» que pode ser provocada por um tipo de malária resistente a medicamentos, detectada no Sudeste Asiático. «Se ela extravasar os seus limites e chegar a África, a doença pode transformar-se numa catástrofe sanitária pública», alerta Robert Newman, o director do Global Malaria Programme.

 

 

 

 

Portugal: Crise favorece casos

 

Com a crise económica e social que se vive em Portugal, a luta contra a sida e a tuberculose, as duas doenças infecciosas que causam mais preocupação em termos de saúde pública, não pode abrandar, uma vez que a tuberculose ocorre em grupos populacionais fragilizados e tem actualmente uma incidência de 22 pessoas por cada 100 mil habitantes. «Há sempre a possibilidade de que, se houver grandes constrangimentos económicos, isso se venha a traduzir numa grande repercussão social e que a redução/diminuição das condições sociais favoreçam o aumento do número de casos de tuberculose», avança o infecciologista Fernando Maltez à Alert.

De acordo com o relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, foram registados 2559 casos de tuberculose em 2010, um número que faz com que Portugal seja o único país da Europa Ocidental que não entra na lista de baixa incidência.

Em relação ao VIH, Fernando Maltez teme «que possa haver alguns constrangimentos que determinem uma diminuição no acesso à medicação, aos cuidados de saúde, o que pode ter repercussões na doença». O infecciologista adianta que se estima que existam 40 mil pessoas infectadas com o VIH em Portugal. Já quanto à malária, o risco actual de ocorrer transmissão em Portugal é muito baixo.

 

 

 

 

 

Solidariedade cristã

 

A persistência das doenças infecciosas, apesar da prevenção fundamentada no progresso da ciência, da tecnologia médica e das políticas sociais, continua a fazer numerosas vítimas e «põe em evidência os limites inevitáveis da condição humana», assinala Bento XVI, por ocasião da XXI Conferência Internacional do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde. «Na comunidade cristã numerosas foram as pessoas consagradas que sacrificaram a sua vida ao serviço das vítimas de doenças contagiosas», lembra o papa.

Muitos enfermos infecciosos são obrigados a viver segregados e por vezes assinalados por um estigma que os humilha, «situações lastimáveis manifestam-se com maior gravidade na desigualdade das condições sociais e económicas entre o Norte e o Sul do mundo», denuncia Bento XVI, para avançar que «é importante responder-lhes com intervenções concretas, que favoreçam a proximidade ao doente». Entre os preconceitos que limitam uma ajuda eficaz estão as atitudes de indiferença, exclusão e rejeição da sociedade. O papa preconiza «a distribuição equitativa dos recursos para a pesquisa e a terapia, assim como a promoção de condições de vida que impeçam o aparecimento e a difusão das enfermidades infecciosas».

A solidariedade cristã traça linhas de acção, definidas pelo presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, que contemplam caminhos na pesquisa, ambiente, industrialização e higiene. Javier Barragán aponta para a mudança da motivação das pesquisas médicas, desenvolvidas segundo leis de mercado em que o impulso do lucro faz surgir medicamentos ‘órfãos’ que deixam de ser produzidos, «não porque não sejam necessários, mas porque servem pobres dos países em desenvolvimento, que não podem pagar preços com margens aceitáveis de lucro», denuncia o cardeal.

 


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