Página Inicial







Actualizar perfil

Em Foco
Setembro de 2013

Energia nuclear: África atómica
Por: CARLOS REIS, Jornalista



Mais de 20 países africanos expressam interesse no início de programas nucleares para fazer frente ao crescente consumo de energia eléctrica. Os críticos opõem-se aos altos custos da tecnologia e aos riscos ambientais e de proliferação de armas atómicas nas mãos de governos instáveis.

 

Um crescente número de países africanos está a privilegiar a futura geração de energia nuclear para poder responder à crescente procura energética, à contínua deterioração das infra-estruturas de produção eléctrica existentes no continente e à redução de recursos naturais como o carvão e petróleo. De acordo com a IAEA, Agência de Energia Atómica das Nações Unidas, pelo menos 20 países africanos já manifestaram interesse pelo início de um programa nuclear. «Todos os países do Norte de África expressam interesse», confirma Hans Rogner, director de estudos da IAEA, onde o diplomata egípcio Mohamed El-Baradei desempenhou o cargo de director-geral entre 1997 e 2009.

 

Segurança energética

 

Os Estados africanos concordam que deve ser feita uma inversão nas infra-estruturas para que se possa garantir a segurança energética que lhes permita cumprir as metas de desenvolvimento para o continente. «Estes países têm maior probabilidade de iniciar um programa nuclear porque são os que o consideram há mais tempo. O Egipto, por exemplo, já leva 20 anos», esclarece Hans Rogner à BBC World News.

Cada país tem manifestado interesse público quer através de conversações directas com a agência das Nações Unidas, acordos de cooperação com outros países ou declarações ministeriais, como se verifica com o Uganda, Congo, Tanzânia, Nigéria, Namíbia e Gana. A perspectiva de ter fornecimento de energia que possa acabar com os geradores a diesel nos pátios traseiros das casas é atractiva para muitos países africanos. Apenas 20 por cento das localidades do continente dispõem de energia eléctrica.

A disputa pelos negócios já começou. Empresas e governos como a CNCC (China), Hyundai (Coreia do Sul), Mitsubishi e Toshiba (Japão), Areva (França), GE (Estados Unidos) e Rosatom (Rússia) procuram mostrar a África que a sua tecnologia nuclear é a mais rentável para a geração de electricidade nos países do continente.

«A Rússia oferece assistência para criar uma avançada indústria nuclear na África do Sul. Isso inclui crédito e formação de especialistas», antecipa o presidente russo, Vladimir Putin. Uma central nuclear de última geração pode ascender a cinco mil milhões de euros.

Por sua vez, a França tenta tornar popular a energia nuclear no Norte de África. «Partilhar a energia nuclear é um pacto de confiança que o Ocidente deve estabelecer com o mundo muçulmano», afirmou o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que promoveu compromissos nucleares com a Argélia, Líbia, Marrocos e Tunísia.

 

Impactos e receios

 

A União Africana realça a importância da promoção e aquisição do conhecimento científico e de infra-estruturas necessárias para facilitar a utilização pacífica da energia nuclear, especialmente no domínio da produção de electricidade. A organização supranacional, que reúne 52 Estados, reconhece «a contribuição que a energia nuclear pode dar ao processo de consolidação de paz e ao desenvolvimento sustentável de África», e reafirma «a necessidade de explorar todas as opções disponíveis à África, incluindo as do campo electronuclear para o seu desenvolvimento e a concretização dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio».

Construída entre 1976 e 1985, a Eskom Koeberg Nuclear Power Station, na Cidade do Cabo, é a única central nuclear no continente. Com dois reactores, tem uma capacidade de 1800 MW, o que representa cinco por cento da produção eléctrica na África do Sul.

Em muitos dos países africanos, alguns deles produtores de petróleo, a energia nuclear é defendida como um desenvolvimento lógico para a garantia da segurança energética. Na Nigéria, país mais populoso do continente, a rede energética está em decadência e a capacidade de geração eléctrica é antiquada e insuficiente, o que leva Phillip Lloyd, professor da Universidade Cape Peninsula, na África do Sul, a defender que, perante a necessidade de produzir dezenas de milhares de megawatts, «chegou-se a um ponto em que o mundo procura energia em massa. Um reactor nuclear pode durar 60 anos em operação, é um investimento muito competitivo e não liberta dióxido de carbono para a atmosfera», observa Phillip Lloyd.

No entanto, há quem alerte para o custo oculto e graves consequências da opção pela energia nuclear. Para o director da organização ambientalista sul-africana Sustainable Energy Africa, «ninguém compreende o preço de lidar com o lixo nuclear», avisa Mark Borchers, referindo-se aos custos de gestão eficiente dos resíduos tóxicos para garantir que não degradem o meio ambiente ao longo de milhares de anos.

Outro receio aponta para o risco da tecnologia nuclear nas mãos de governos africanos instáveis que podem resultar em armas nucleares, apesar das inspecções da IAEA.

A Greenpeace Africa intensifica a sua pressão sobre o Governo sul-africano para que este reveja com urgência o seu interesse pela energia nuclear e adopte energias renováveis.

A organização ambiental anuncia as suas preocupações com os riscos sociais e económicos, sublinhando preocupação perante a insistência da África do Sul em depender de uma tecnologia nuclear «perigosa que vai confinar o país num futuro energético caro e ultrapassado», denuncia Ferrial Adam, activista de clima e energia da Greenpeace Africa.

A organização exige que o Governo de Pretória lance uma moratória sobre todas as novas centrais nucleares até que as implicações de segurança sejam todas avaliadas.

 

Proliferação de armas

 

Em 1974, o físico Louw Alberts, pai do programa nuclear da África do Sul, revelou que o seu país tinha conhecimento sobre energia atómica suficiente para fabricar uma bomba nuclear.

O governo segregacionista desmentiu querer produzir uma bomba atómica. No entanto, em 1977, os Estados Unidos e a União Soviética anunciaram que a África do Sul tinha realizado testes nucleares no deserto do Calaári. O então ministro da Informação sul-africano, Connie Mulder, acabou por reconhecer que o país utilizaria armamento nuclear caso fosse atacado.

Nos últimos dias do regime de Apartheid, a África do Sul tomou a decisão de pôr fim ao seu programa de armas nucleares. «A primeira etapa implicou o desmantelamento de dispositivos nucleares», revela Greg Mills, presidente da The Brenthurst Foundation. A decisão foi tomada pelo presidente F. W. de Klerk, em 1991, pouco depois da libertação de Nelson Mandela e do fim da proibição do partido ANC. No mesmo ano, a África do Sul assinou o Tratado de não Proliferação Nuclear (NPT), o que permite inspecções frequentes às suas instalações. «O segundo passo foi o desmantelamento do programa de mísseis balísticos», acrescenta o presidente da fundação sul-africana de estratégia económica. «A África do Sul é o único país do mundo que desmantelou de forma voluntária a sua capacidade armamentista nuclear», aponta Greg Mills.

O desmantelamento do programa nuclear deu à África do Sul benefícios éticos que perduram até hoje. Ganhou voz pela não proliferação e autoridade para criar a sua própria indústria eléctrica nuclear sem atrair as suspeitas da comunidade internacional. 

A fonte nuclear pode ajudar a responder ao extraordinário atraso dos países africanos em matéria energética, pois o continente tem uma produção semelhante à da Espanha, mas com 20 vezes mais pessoas», revela Greg Mills. «Porém, as preocupações pelo uso da energia atómica na África vão ao próprio coração da razão pela qual há um atraso: a governança», acrescenta.

O continente africano converteu-se na maior região do mundo sem armas atómicas, o que tem um valor acrescido por ser uma das regiões que produzem mais urânio. Em 2009, a IAEA e a União Africana anunciaram a entrada em vigor do Pelindaba Treaty, tratado de zona livre de armas nucleares. «O tratado africano dá confiança e segurança e ajuda os nossos esforços para alcançar um mundo sem armas atómicas», disse o então director-geral da IAEA, Moahmmad El-Baradei. A agência das Nações Unidas aplaude o apoio que o tratado dá ao «uso do conhecimento e da tecnologia nuclear com fins pacíficos e confia que contribuirá para o desenvolvimento social e económico do continente africano». O acordo permite ainda proteger os países africanos de possíveis ataques atómicos contra os seus territórios e manter o continente livre de lixo radioactivo.

O sueco Hans Blix, ex-director da IEAE, sustenta que o interesse demonstrado pelos países da região em programas nucleares deve fazer reflectir sobre o problema do enriquecimento de urânio. Pelos riscos que implica o seu eventual desvio para fins militares, Hans Blix sugere «a escolha de um país onde se possa operar o processo de transformação do urânio para todos os países do continente».

 

 

 

 

Maiores produtores de urânio

 

O minério de urânio é utilizado como combustível em centrais nucleares para geração de energia eléctrica. Entre os 10 maiores produtores mundiais estão três países africanos.

 

Nigéria

Reservas comprovadas: 420 milhões de toneladas

Proporção das reservas mundiais: 8 %

Produção anual: 4,3 mil toneladas

Variação nos últimos 10 anos: +50 %

 

África do Sul

Reservas comprovadas: 280 milhões de toneladas

Proporção das reservas mundiais: 5 %

Produção anual: 582 toneladas

Variação nos últimos 10 anos: +33 %

 

Namíbia

Reservas comprovadas: 260 milhões de toneladas

Proporção das reservas mundiais: 5 %

Produção anual: 3,2 mil toneladas

Variação nos últimos 10 anos: +45 %

 


Comente esta informação

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados