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O Evangelho é Notícia
Março de 2019

Quaresma para partilhar a Palavra e o Pão



I Domingo da Quaresma - Ano C – 10.3.2019

 

Deuteronómio  26,4-10

Salmo  90

Romanos  10,8-13

Lucas  4,1-13

 

Reflexões

«No deserto um homem sabe quanto vale: vale quanto valem os seus deuses» (A. De Saint-Exupéry), isto é, os seus ideais, os seus recursos interiores. «No deserto do mundo», alimentados com o pão da Palavra e fortalecidos pelo Espírito, entrámos a celebrar novamente a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», para poder vencer – com as armas nunca ultrapassadas do jejum, da oração e da esmola – «as contínuas seduções do maligno» (oração colecta). A Quaresma repropõe os temas fundamentais da salvação, e portanto da missão: o primado de Deus e o seu plano de amor pelo homem, a redenção que nos é oferecida de forma gratuita no sacrifício de Cristo, a luta permanente ao pecado, as relações de fraternidade e respeito com os próprios semelhantes e com a criação… São temas próprios do deserto quaresmal.

 

As tentações (Evangelho) não foram para Jesus um artifício ou fingimento, foram verdadeiras provas, como o são para o cristão e para a Igreja. «Se Cristo não tivesse experimentado a tentação como verdadeira tentação, se a tentação não tivesse significado nada para ele, homem e Messias, a sua reacção não poderia ser um exemplo para nós, pois não teria a ver com a nossa» (C. Duquoc). Mas precisamente porque foi provado, serve de exemplo e de ajuda a quem se encontra em provação (cf. Heb 2,18; 4,15).

 

Jesus lutou realmente com satanás acerca da escolha de possíveis métodos e caminhos para realizar a Sua missão de Messias. As três tentações são uma síntese significativa de um longo período de luta contra o mal, sustentada por Jesus nos quarenta dias de deserto (v. 2) e durante toda a sua vida, incluindo a cruz, quando o diabo voltou no «tempo fixado» (v. 13) As tentações representam modelos diferentes de Messias. E para nós também de missão! Para Jesus as tentações eram «três vias de saída para não passar pela cruz» (Fulton Sheen). Eram a subversão da relação com as coisas materiais, com as pessoas e com o próprio Deus. Eram tentações de tornar-se: 1º, um reformador social: converter as pedras em pão para si e para todos teria garantido o sucesso popular; 2º, um messias do poder: um poder baseado no domínio sobre as pessoas e sobre o mundo teria satisfeito o orgulho pessoal e de grupo; 3º, um messias milagreiro: com gestos de espectacularidade e fama.

 

Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o primado de Deus, confia no Pai e no seu plano para a salvação do mundo. Renuncia a instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para proveito próprio (agora não transforma as pedras em pão para si, mas mais tarde multiplicará pães e peixes paras as multidões famintas); recusa dominar sobre as pessoas e prefere servir; mantém sempre uma relação filial com Deus confiando na Sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: só assim, rompe a espiral de violência e retira à morte o seu «veneno»: a morte é vencida pela Vida.

 

Jesus enfrenta e supera as tentações pela força do Espírito Santo, do qual está cheio (v. 1). É o Espírito do Baptismo (Lc 3,22), da Páscoa e do Pentecostes. E é o Espírito da Missão. Por vezes acreditou-se que poder, dinheiro, domínio, presumida superioridade, super-activismo… fossem caminhos apostólicos. O missionário é muitas vezes tentado por tais ilusões; por isso precisa do Espírito de Jesus, o protagonista da missão (RM 21ss). O Espírito faz-nos compreender que o deserto quaresmal é um tempo de graça (kairós): tempo das coisas essenciais, as únicas que valem; um dom a viver no silêncio, longe da poluição da algazarra, da pressa, do dinheiro, da futilidade; um tempo de partilha missionária! (*)

 

A Quaresma é um tempo de salvação, centrado na fé em Cristo morto e ressuscitado (II leitura): é Ele o Senhor de todos os povos, que oferece a salvação a todo aquele que invoca o Seu nome, sem distinção de pertenças (v. 12-13). Este primado de Deus manifesta-se também através da oferta das primícias dos frutos da terra (I leitura). Trata-se de um sinal de gratidão e de propiciação. Mas igualmente de uma forma de partilha com os necessitados: a oferta das primícias, de facto, era destinada também ao estrangeiro, ao órfão, à viúva, «para que se alimentem às portas da cidade e fiquem saciados» (v. 10-12). Há aqui uma preciosa indicação de itinerário espiritual e missionário: quem se aproxima de Deus e vive em sintonia com Ele descobre também o próximo, vizinho e distante. E torna-se solidário e generoso!

 

Palavra do Papa

(*) «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19)... A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

A Quaresma… chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

Papa Francisco – Mensagem para a Quaresma 2019

 

No encalço dos Missionários

- 10/3: B. Elias do Socorro Nieves del Castillo, sacerdote mexicano, agostinho, martirizado em Cortázar (México, †1928), juntamente com outros durante a perseguição.

- 12/3: S. Luís Orione (1872-1940), sacerdote piemontês, fundador da Pequena Obra da Divina Providência e de algumas Congregações religiosas para a assistência aos mais necessitados.

- 15/3: S. Luísa de Marillac (1591-1669), viúva, fundadora, juntamente com S. Vicente de Paulo, das Filhas da Caridade.

- 15/3: B. Artemide Zatti (1880-1951), salesiano, médico missionário na Patagónia (Argentina).

- 15/3: Nascimento de S. Daniel Comboni (1831-1881): nasceu em Limone sul Garda (Brescia) e morreu em Cartum (Sudão), como bispo Vigário apostólico da África Central.

 

Colaboração e agradecimentos

Coordenação: P. Romeo Ballan - Missionários Combonianos (Verona)

Sítio Web: «Palavra para a Missão»

 


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