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O Evangelho é Notícia
Fevereiro de 2019

As Bem-aventuranças: retrato de Jesus e do Missionário



VI Domingo do Tempo Comum Ano C - 17.2.2019

 

Jeremias 17,5-8

Salmo 1

1Coríntios 15,12.16-20

Lucas 6,17.20-26

 

Reflexões

«O discurso da Montanha foi directo ao meu coração. Foi graças a este discurso que aprendi a amar Jesus», afirmava Gandhi, pai da Índia moderna e promotor da estratégia da não-violência activa. A admiração provém em particular das Bem-aventuranças, que são o coração do programa de Jesus. É uma mensagem a compreender no contexto bíblico mais amplo sobre o sentido da existência. Acertar ou errar, vencer ou perder, conseguir ou fracassar, acomodar-se ou ir contra a corrente, terminar com um "bendito" ou com um "maldito"... A lista de alternativas contrapostas poderia continuar. Jesus acrescenta a sua alternativa no discurso programático das Bem-aventuranças (Evangelho): «Bem-aventurados sereis... ai de vós...» (v. 20.24). O estilo literário usado por Jesus é semelhante ao de Jeremias (I leitura). Ensinar com imagens contrastantes, paralelas e repetitivas, é prática corrente entre os mestres da época, para facilitar a aprendizagem por parte de povos de cultura oral. É um método didáctico que os missionários conhecem bem e verificam ainda hoje junto de numerosos grupos humanos.

 

Mais do que o estilo literário, é importante colher a mensagem. O que está em jogo nas duas alternativas expressas por Jeremias e por Jesus é a vida, a salvação, a própria salvação eterna. Ser como um cardo na estepe (isto é, viver num deserto sem frutos e sem vida), ou ser como uma árvore plantada à beira da água (cheia de vigor e de frutos) são o resultado de duas opções de vida. São escolhas que o profeta classifica com um juízo contundente: maldito... ou bendito... Para Jeremias, a razão moral de tal sentença está na opção de confiar no homem (V. 5), ou de confiar no Senhor (v. 7). "Confiar" é o verbo da fé: isto é, fixar o ponto de solidez da casa, colocar o fundamento do edifício sobre a rocha. O salmo responsorial retoma o mesmo tema com abundância de imagens tomadas da vida agrícola e dos hábitos sociais.

 

Jesus propõe um programa idêntico (Evangelho): organizar a vida, tendo Deus como ponto de referência, para que o resultado definitivo seja um «bem-aventurados sereis...», e não um «ai de vós...». Optar por Jesus significa agir em favor dos necessitados, descobrir a bem-aventurança mesmo no meio das realidades consideradas habitualmente negativas, perdedoras, segundo as opiniões da maioria: felizes de vós os pobres, felizes de vós os que agora tendes fome, de vós que agora chorais, de vós que sois insultados e rejeitados... Alegrai-vos! (v. 20-23). O paralelismo de Lucas continua com imagens opostas, intercaladas pelo «ai de vós» (v. 24-26). O «ai de vós», porém, não é uma ameaça ou um castigo, é a lamentação de Jesus, a amargura pela situação dos que seguem projectos mundanos de opulência, satisfações egoístas, prepotências, predomínio, honras... Jesus amargura-se face a isso: ai de mim por vós!

 

Só quem confia plenamente em Deus consegue viver a gratuitidade, partilhar sem acumular, alegrar-se com poucas coisas, encontrar «perfeita alegria» mesmo nos insultos, rejeições e perseguições. A alegria espiritual das bem-aventuranças não tem nada a ver com satisfações masoquistas. Todavia não elimina o comum sofrimento inerente às situações difíceis, mas sabe descobrir aí uma mensagem superior, uma sabedoria nova, um caminho de salvação, uma misteriosa fecundidade pascal, um «sinal da humanidade renovada» (oração colecta). Mesmo se não é de fácil e imediata compreensão.

 

As Bem-aventuranças são um auto-retrato de Jesus: pobre, sofredor, perseguido... Escolheu o caminho da paixão, morte e ressurreição para dar a vida ao mundo (II leitura). O programa que Jesus confia aos apóstolos - e aos missionários de todos os tempos - não pode ser diferente: o missionário é o homem/mulher das Bem-aventuranças, como os definiu João Paulo II: (*) Em especial nas Bem-aventuranças da perseguição e da pobreza, vividas na partilha de vida. A confirmá-lo estão as dezenas de missionários que todos os anos caem vítimas da violência: em 2009 foram 37! Ao seu testemunho deve-se associar o de tantos outros (voluntários, jornalistas, forças da ordem...) caídos em serviço. Na origem de tais mortes encontram-se muitas vezes bandidos e assaltantes; outras vezes são evidentes as motivações religiosas e sociais. Optar por Cristo significa actuar sempre a favor dos fracos e dos necessitados, com os quais Ele se identifica: famintos, andrajosos, doentes, presos, estrangeiros... Temos a certeza disso com as duas sentenças finais: «vinde, benditos de meu Pai», ou «afastai-vos de mim, malditos» (Mt 25,34.41). Existe coerência entre o Evangelho das Bem-aventuranças e o teste do juízo final. O caminho das Bem-aventuranças conduz à Bem-aventurança definitiva. À felicidade verdadeira e duradoira!

 

Palavra do Papa

(*) «O missionário é o homem das Bem-aventuranças. Jesus dá instruções aos Doze, antes de os enviar a evangelizar, indicando-lhes os caminhos da missão: pobreza, humildade, desejo de justiça e paz, aceitação do sofrimento e perseguição, caridade que são precisamente as Bem-aventuranças, concretizadas na vida apostólica (Mt 5, 1-12). Vivendo as Bem-aventuranças, o missionário experimenta e demonstra concretamente que o Reino de Deus já chegou, e ele já o acolheu».

João Paulo II

Encíclica Redemptoris Missio (1990), n. 91

 

No encalço dos Missionários

- 17/2: Os sete santos fundadores da Ordem dos Servos de Maria (Florença, séc. XIII), medicantes e missionários.

- 17/2: S. Pedro Yu Chong-nyul, pai de família, morto em Pyeongyang (†1866), porque surpreendido em casa de um catequista de noite a ler o Evangelho. É um dos 103 Santos Mártires coreanos (mem. 20/9).

- 18/2: S. Francisco Régis Clet (1748-1820), sacerdote francês da Congregação da Missão, missionário durante 30 anos na China e mártir.

- 18/2: S. Alberico Crescitelli (1863-1900), sacerdote do PIME, missionário na China, mártir na revolta dos boxers (21/7). Hoje é a sua memória litúrgica no aniversário da beatificação.

- 20/2: Dia Mundial da Justiça Social, instituído pela ONU (2007) para promover a justiça social a nível mundial, com o objetivo de assegurar um mundo mais justo e igualitário para todos.

- 22/2: Festa da Cadeira de S. Pedro, e do Papa, enquanto vigário de Cristo e de Pedro, chamado a presidir na caridade, para o serviço da unidade na Igreja e da missão no mundo inteiro.

- 22/2: B. Diego Carvalho (1578-1624), sacerdote jesuíta português, missionário e mártir em Sendai (Japão), juntamente com muitos outros companheiros.

- 23/2: S. Policarpo (†155), discípulo do apóstolo S. João, bispo de Esmirna, último dos Padres Apostólicos.

- 23/2: B. Josefina Vannini (1859-1911), religiosa italiana, que, juntamente com o sacerdote camiliano B. Luís Tezza, fundou a congregação das Filhas de S. Camilo, para o serviço aos doentes.

 

Colaboração e agradecimentos

Coordenação: P. Romeo Ballan - Missionários Combonianos (Verona)

Sítio Web: «Palavra para a Missão»

 


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