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Discos e Livros
Março de 2018

DISCOS
Por: ANTÓNIO MARUJO



 

 

Títulos, autores e intérpretes:

Arco Iris, Amina Alaoui; Medea e Concert in Athens, Eleni Karaindrou; Maria’s Song, Sinikka Langeland; Chants, Hymns and Dances, Anja Lechner e Vassilis Tsabropoulos

Edição: ECM (distrijazz@vendas.pt)

 

 

 

Seria forçado dizer que há uma especificidade feminina de fazer música. Mas, a pretexto da Música no Feminino, iniciativa da ECM, e do Dia Internacional da Mulher, que se assinala no dia 8 deste mês, trazem-se aqui algumas vozes e compositoras que nos cantam «horizontes humanos transcendendo as fronteiras, idiomas mediterrânicos líricos abertos sobre o universo e a inteligência de ser, de comunicação mútua», como escreve a cantora marroquina Amina Alaoui apresentando o seu Arco Iris.

Um disco que, como a cantora diz, é uma «geografia poética acariciando o sonho do impossível», que tende a «transcrever uma Península Ibérica levada às capacidades do possível». Apenas dois exemplos deste espantoso Arco Iris de muitas cores: a deliciosa versão do Fado Menor, de António de Sousa Freitas (1921-2004), e uma espantosa criação da própria Amina com o poema de Santa Teresa d’Ávila: «Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, só Deus basta.»

Sim, estas mulheres trazem, por vezes, outras mulheres: Medeia, por exemplo, na obra da grega Eleni Karaindrou baseada na peça de Eurípides. Celebrando o mito da mulher que transporta, ao mesmo tempo, o amor e o desejo de vingança que a leva a querer matar os próprios filhos, a tragédia grega e a obra de Karaindrou revelam também a mulher estrangeira acossada e a esposa e mãe que se revolta contra a rejeição de que se considera vítima. E a música leva-nos pelas viagens, exílios, lamentos, amores, mortes e sonhos, “obsessões” da compositora grega, que atravessam a história de Medeia. Através dos coros, sonoridades misteriosas e mediterrânicas, sublinhados e diálogos instrumentais, e continuidades melódicas, sempre presentes e tão bem resumidos noutra obra incontornável de Karaindrou, o Concert in Athens.

Numa mulher que perdeu o filho – Maria de Nazaré – centra-se o disco da norueguesa Sinikka Langeland. O órgão, o kantele (ou harpa finlandesa), o violoncelo e a voz levam-nos por “um dos elementos mais distintivos da música folclórica norueguesa”, quase banido com a Reforma. Um património aqui recuperado, através de canções tradicionais e peças da autoria de Langeland ou de Bach, todas dedicadas à Virgem, num percurso onde o exotismo atinge o máximo com o belíssimo hino A sua misericórdia estende-se àqueles que o temem, em que Langeland recria um andamento do Concerto em D Menor, de Bach, ou o Ave Maria final, uma recriação da BWV 1004.

Ao Oriente e ao compositor e místico arménio Georgii Ivanovič Giurdžiev (1866-1949) foram a alemã Anja Lechner (violoncelo) e o grego Vassilis Tsabropoulos (piano) buscar orações, lutos, cantos de livros sagrados e hinos bizantinos. Giurdžiev dizia ter estudado mais de 200 sistemas religiosos. Toda a força espiritual e mística da música arménia, mas também do próprio compositor, estão condensadas nestas peças, pela primeira vez arranjadas para piano e violoncelo. Uma música infinita, no despojamento e essencialidade permitidos pelo piano e pelo violoncelo.


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