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Janeiro de 2018

Combater hoje as alterações climáticas
Por: MIGUEL OLIVEIRA PANÃO, Professor universitário



As consequências do aquecimento global já se fazem sentir e o combate às alterações climáticas é o principal desafio dos tempos actuais. Para superar esse repto é imprescindível que superemos a insensibilidade ecológica e mudemos o estilo de vida.

 

 

COP24: Ponto crítico

 

Realizou-se em Katowice, na Polónia, a 24.a COP1 dedicada às alterações climáticas. Porém, esta convenção revestiu-se de contornos particulares e preocupantes. O aquecimento global poderá induzir furacões mais fortes. Pois, se a água aquece, providencia mais energia para os alimentar. Isto demonstra como no mundo tudo está em relação com tudo. Não chega pensar no todo sem perder de vista a importância de cada parte.

O IPCC (Painel Intergovernamental para a Alterações Climáticas) concluiu que o aquecimento causado pelo estilo de vida humano afectou a quantidade de água evaporada para a atmosfera, aumentando o número de eventos de precipitação extrema em muitas partes do globo. O relatório que produziram para a COP24 prevê que este grau elevado de precipitação se intensifique se o aquecimento global levar a um aumento maior do que 1,5 ºC da temperatura média global.

E o maior desafio não é só o aumento em si, mas a escala de tempo que se prevê acontecer se nada se fizer. Ou seja, o tempo escasseia e se o papel dos governos não for assumido, arriscamo-nos a um desfecho inevitável porque não chega agir pelos mercados.

Aliás, alguns pensam que deveríamos focar-nos na tecnologia para evitar as máquinas políticas que travam as iniciativas em prol do ambiente. O problema é que o tempo de amadurecimento das tecnologias é superior ao que temos disponível para agir. E sem o apoio de políticas, e um esforço maior dos governos das nações na redução dos gases com efeito de estufa, menos tempo temos para impedir um aquecimento global superior a 2 ºC em 2030.

E aqui surge um ponto crítico. Os países deveriam reduzir em 55 %(!) as suas emissões para limitar o aquecimento abaixo dos 1,5 ºC. Para os países mais pequenos, e lugares vulneráveis como nos trópicos e Árctico, este aumento poderá representar uma autêntica sentença de morte. As comunidades nesses lugares seriam inundadas, destruídas e assistiríamos a um êxodo das populações sem precedentes na História da humanidade.

Ou seja, podemos estar à beira de assistir a cenários distópicos que não passavam há uns anos de matéria de entretenimento em filmes de Hollywood.

Um outro relatório feito pela World Wildlife Fund afirma que a humanidade já eliminou mais 60 % dos mamíferos, aves, peixes e répteis do que os registados desde 1970. Logo, os especialistas avisam que o aniquilamento da vida selvagem constitui uma ameaça à civilização. O consumo vasto e crescente de alimentos e recursos pela população global está a destruir a rede da vida que demorou milhares de milhões de anos a fazer, e da qual a humanidade depende se quiser um ar puro, água limpa e tudo o resto.

Todo este cenário aponta para continuarmos à mercê dos elementos, apesar de todos os nossos desenvolvimentos tecnológicos. Mas penso que estar à mercê não é, ainda, o maior desafio.

 

Desafiar as mãos

O maior desafio é pensar que “alguém” fará “algo” para resolver o problema cultural que subjaz à crise ecológica. A posição de quem assume que “todos” somos responsáveis, mas sente-se impotente ou com falta de imaginação para fazer a sua parte está – a meu ver – na raiz do problema.

É mais fácil apontar o dedo aos governos, empresários e aos que negam o aquecimento global do que assumir as nossas responsabilidades e fazermos o que está ao nosso alcance. Ainda que mudemos o nosso estilo de vida tão pouco quanto 1 % por dia, ao fim de um ano, mudámos 365 %, o que é significativo. E se formos muitos a fazê-lo, mais significativo ainda.

Sobre isto, o Papa Francisco dá uma resposta e chama-nos a traduzi-la em vida: «A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias... Tudo isto faz parte de uma criatividade generosa e dignificante, que põe a descoberto o melhor do ser humano. Voltar – com base em motivações profundas – a utilizar algo em vez de o desperdiçar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade» (Laudato Si’, 211).

A COP24 em Katowice pode ser a mais crítica depois do acordo de Paris em 2015, mas ainda mais crítica parece ser a insensibilidade das pessoas, de tal modo que o seu estilo de vida não expressa tudo o que poderia expressar como se lê nas palavras do papa. De onde vem, então, a insensibilidade?

 

Insensibilidade ecológica

Existem quatro razões fundamentais para a insensibilidade ecológica a que assistimos actualmente.

Agir em prol das alterações climáticas é uma questão de equilíbrio entre os benefícios a curto e a longo prazo. Numa época da nossa história na qual vinga a gratificação instantânea através de likes, emojis e curtos comentários, estamos cada vez menos sensíveis à gratificação a longo prazo. Essa exige actos realizados agora cujos efeitos se vêem somente após algum tempo.

A questão climática não é linear. Os actos de hoje não possuem uma repercussão directa sobre o clima, mas exigem muitos actos acumulados ao longo do tempo para produzir o efeito que desejamos. Daí que, também por aí, se traduz numa certa perda de sensibilidade ecológica.

Os efeitos das alterações climáticas estão distantes para a maioria das pessoas. Nós temos a tendência para conceptualizar no abstracto o que está psicologicamente distante de nós no tempo, espaço e socialmente. Daí que o exemplo daquilo que se prevê que aconteça, por exemplo, à cerveja possa despertar a consciência das pessoas. Com as secas e ondas de calor previstas pelo aquecimento global acima dos limites, a produção de cevada será reduzida, de acordo com um estudo da Nature Plants2. Ora, isso será reflectido numa diminuição do fornecimento de cerveja e consequente aumento do preço. Assim, esta e outras considerações servem para tirar do abstracto os efeitos das alterações climáticas e torná-los psicologicamente mais próximos.

Por fim, o facto de o futuro ser incerto, em relação ao presente, pode trazer também alguma insensibilidade – «Se não é p’ra já, não é p’ra mim.»

 

O que fazer?

Se tornarmos o futuro mais próximo das nossas mentes, de tal modo que sintamos na vida quotidiana os efeitos da alteração global do clima, poderíamos reduzir a distância psicológica em relação à crise que atravessamos.

Se aprendermos a pôr-nos na pele dos outros que virão depois de nós, poderemos iniciar um novo reconciliar entre o ser humano e a Natureza. Uma reconciliação que passa por um relacionamento mais profundo que pode começar por um simples pass(e)ar mais tempo em meios naturais.

Quando batia bolas de ténis contra uma parede durante as férias, achando que tinha a mesma destreza de quando jovem, ao esticar-me para bater uma bola com a raquete dei-me conta de que o meu peso tinha mais inércia do que a capacidade dos meus músculos travarem o movimento. Vi-me incapaz de controlar o impulso e havia apenas um desfecho. Cair.

Decidi deixar-me cair e nada forçar. Simplesmente deixei-me rebolar pelo chão. Levantei-me com alguns arranhões, mas nada de grave. Os miúdos estavam tão entretidos que nem tinham dado conta da queda do pai. Pode ser que aconteça o mesmo com a humanidade. Que o ritmo das alterações se torne tal que seja impossível travar a queda. Iremos rebolar, e ganhar alguns arranhões, mas aprenderemos com a queda e continuaremos em frente.

Ou não.

Sinceramente, o destino do planeta está mais nas mãos do leitor do que possa pensar. Não espere para começar a mudar o seu estilo de vida. Escolha antes um dia e que seja... hoje.

 

 

Notas

1 Conferência da Partes (COP), da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), uma convenção adoptada em 1992 e que entrou em vigor dois anos depois.

2 Xie, W., Xiong, W., Pan, J., Ali, T., Cui, Q., Guan, D., et al. (2018). Decreases in global beer supply due to extreme drought and heat. Nature Plants, 4(11), 964–973.

 

 

 

Números

 

3

Graus pode vir a aumentar a temperatura global até ao final do século, se continuar a seguir a tendência actual.

 

7

Metros subiria o nível médio das águas caso derretam os glaciares da Gronelândia. (revista Nature, Dezembro de 2018)

 

53,5

Gigatoneladas de gás carbónico foi o nível que as emissões globais de CO2 atingiram em 2018, o mais alto dos últimos quatro anos.

 

 


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