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Rostos da Missão
Dezembro de 2010

Dorothy Stang (1931-2005): A Bíblia era a sua arma
Por: ANTÓNIO CARLOS FERREIRA, Missionário comboniano



Americana naturalizada brasileira, a Ir. Dorothy Stang foi assassinada em Anapu, no Estado de Pará, no Norte do Brasil. Dorothy era a voz dos pobres agricultores e defensora da floresta amazónica. A Bíblia era a sua arma de combate e nunca se intimidou perante as inúmeras ameaças de morte.

 

No dia 12 de Fevereiro de 2005, de manhã cedo, a Ir. Dorothy Stang pôs-se a caminho num dia de chuva torrencial. Numa estrada de terra batida toda empapada, a irmã, de Bíblia na mão, dirigia-se a Boa Esperança para se encontrar com os agricultores cujas casas tinham sido queimadas por ordem de fazendeiros e madeireiros. Estes intimidavam e expulsavam camponeses dos seus terrenos a fim de os ocupar para a criação de gado, pastoreio e abate de árvores em larga escala para exportação.

Ao longo da estrada, havia homens armados que mandaram parar a missionária e lhe perguntaram se tinha arma, aos quais ela respondeu mostrando a sua Bíblia: «a minha arma é esta» e da qual leu alguns versos. Segundo uma testemunha, um dos pistoleiros abateu a irmã com um tiro na cabeça que a matou instantaneamente, seguindo-se uma rajada de tiros no abdómen e peito.

 

Tiros simbólicos

 

A conferência dos religiosos do Brasil interpretou a morte da irmã Dorothy deste modo: «A Ir. Dorothy foi assassinada com seis tiros, dos quais três fatais e simbólicos. Uma bala atingiu o seu cérebro, outra o seu coração e outra as suas vísceras. Quiseram eliminar o pensar, o sentir e o gerar desta pequena, simples, humilde e idosa mulher. O seu cérebro, o seu coração e o seu útero eram uma ameaça para o modelo de desenvolvimento económico neste país, especialmente na Amazónia.»

Desde há muito tempo que recebia ameaças de morte, que nunca a intimidaram, e às quais respondia: «Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem a devastar.»

Com 73 anos, caía uma mulher frágil e idosa mas jovem de espírito, vítima da ganância, cobiça e prepotência dos grandes latifundiários. A irmã norte-americana junta-se à lista de tantos outros homens e mulheres que deram a vida em favor dos pobres indígenas e da preservação da floresta e meio ambiente, e que são justamente chamados os «mártires da Amazónia». O Pará é um dos Estados do Brasil com mais conflitos agrários e ambientais, em três décadas mais de 800 pessoas foram assassinadas por esses motivos.

 

Grão de trigo

 

Como um grão de trigo lançado à terra, a morte da Ir. Dorothy teve o efeito contrário ao pretendido pelos que a quiseram silenciar. Ao noticiar o seu desaparecimento brutal, os meios de comunicação trouxeram para a ribalta mais uma vez os problemas dos indígenas, dos pobres camponeses e a destruição da floresta amazónica, o tão cobiçado pulmão do mundo. O presidente Lula da Silva ordenou que a terra em questão, mais de 22 mil metros quadrados, fosse reservada para desenvolvimento sustentável dos pobres agricultores cuja causa a irmã tinha defendido.

Dorothy Stang ingressou, aos 18 anos, na congregação das Irmãs de Nossa Senhora de Namur com o desejo de ir como missionária para a China. Realizará o seu sonho de partir não para a China mas para o Brasil, onde chegou com mais quatro irmãs em 1966. Começaram por dedicar-se à formação de leigos e catequistas. Com o passar do tempo, foram-se apercebendo dos problemas sociais que afectavam as pessoas, das violações dos direitos humanos, das injustiças perpetradas contra os sem terra e os pobres camponeses. Confrontadas com esta situação, as irmãs optaram por educar o povo simples acerca dos seus direitos fundamentais consagrados na lei brasileira.

 

Denúncia e compromisso

 

Num Brasil a viver sob ditadura militar, nos anos 70, qualquer envolvimento com as classes mais pobres e a defesa dos direitos humanos era visto com suspeição. Muitos activistas foram perseguidos, torturados e mortos. As irmãs foram apelidadas de «comunistas» e acusadas de tentativa de «derrube do sistema». Dorothy Stang tomou a decisão corajosa de acompanhar os camponeses, em fuga da pobreza e violência dos latifundiários, para o interior da floresta, estabelecendo-se em Anapu, cidade do Estado do Pará, em 1982. Foi aqui que desenvolveu o seu ministério e acção junto das comunidades rurais, com quem lutou por um modelo de desenvolvimento que não destruísse a floresta. Denunciou a conivência da polícia e das autoridades locais com os fazendeiros e madeireiros que derrubavam árvores e «limpavam» o terreno privando as famílias do seu habitat natural e fonte de sustento. O seu ideal era que as famílias cultivassem a terra em projectos de desenvolvimento sustentável, assentes na criação de laços comuns entre os trabalhadores e no respeito do meio ambiente.

Como membro da Comissão Pastoral da Terra, organismo da conferência nacional dos bispos do Brasil, mantinha o diálogo com os líderes dos camponeses, com os religiosos e políticos na busca de uma solução para os conflitos relacionados com a posse e exploração da terra na região amazónica. Treinou técnicos agrícolas, empenhou-se na criação de uma fábrica de fruta e ajudou na construção de escolas e formação de professores. Além disso, arranjava tempo para partilhar os seus conhecimentos básicos de saúde, algo particularmente útil numa zona onde médicos e hospitais eram escassos e os preços dos remédios eram elevados.

 

Forte de espírito

 

Em 2004, a missionária recebeu da Ordem dos Advogados do Brasil, secção do Pará, um prémio pela sua defesa dos direitos humanos e as autoridades do Estado do Pará nomearam-na «mulher do ano».

Esta amante da justiça social e da paz, defensora dos direitos dos indígenas e da Amazónia, viveu pobre, tinha poucos haveres. À intimidação e violência respondeu com a única arma que possuía: a palavra de Deus. Fez estremecer poderosos, os «senhores» que queriam controlar a floresta amazónica para seu enriquecimento. Latifundiários, fazendeiros, madeireiros e governantes sentiram-se ameaçados por uma mulher débil e de idade avançada. A sua força residia no apego às sagradas escrituras e no seu inabalável e destemido compromisso para com os mais pobres e a salvaguarda da natureza e criação de Deus.

O homem que ordenou o seu assassínio foi condenado a 30 anos de prisão e os dois pistoleiros que a abateram foram julgados a 18 e 27 anos de cadeia.

 

 

  

 

Biografia

 

1931 – Nascimento

1948 – Ingressou na vida religiosa

1966 – Partiu para o Brasil

1982 – Foi para Anapu, no Pará

2004 – Recebeu prémio da Ordem dos Advogados do Brasil e foi nomeada «mulher do ano»

2005 – Foi assassinada

 

 

 

 

 

Amazónia, terra de sangue

 

Na década de 1970, o Governo brasileiro concedeu o direito de posse da terra aos camponeses e pobres sem terra no território da Amazónia. Esses pobres viram aí uma oportunidade para se tornarem agricultores e melhorarem o seu nível de vida, por isso, aceitaram o convite das autoridades federais para se deslocarem para a região transamazónica. Mas uma vez lá chegados deparam-se com uma situação bem pior do que aquela que deixaram: madeireiros e fazendeiros estavam a ocupar as terras que lhes tinham sido legalmente cedidas pelo Governo central. Os trabalhadores rurais viram-se desapropriados e ainda mais pobres. As autoridades locais sentiam-se impotentes devido à conivência entre polícia e políticos locais que eram bem pagos para permitir a expropriação ilegal das terras. Os fazendeiros e madeireiros actuavam, pois, com toda a impunidade num regime de corrupção desenfreada. Por outro lado, o Governo tinha grandes projectos para a região: o projecto de Carajás, que compreendia três Estados, abarcava uma área de 10 milhões de metros quadrados para a construção de minas, refinarias e negócios agrícolas. As grandes multinacionais instalaram-se na região e começaram a devastar a floresta. O presidente Lula, que prometera construir casas para 400 mil famílias sem terra, estava debaixo da pressão de grupos económicos para desbravar largas extensões de terreno para implantação de enormes projectos.

Estavam assim criadas todas as condições para que os camponeses fugissem de uma situação insustentável e altamente perigosa para as suas próprias vidas. Na sua deslocação ainda mais para o interior da floresta, a irmã missionária acompanhou-os, vivendo muito próximo deles, assumindo e dando a sua vida pelas suas causas.

 


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