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Em Foco
Outubro de 2009

Feitiçaria: crenças sacrificam crianças
Por: CARLOS REIS, Jornalista



 

Acusações de feitiçaria a crianças estão a surgir com frequência em África. O fenómeno irrompeu na RD Congo e alastrou-se a Angola. Às crianças são atribuídos poderes causadores de desgraças. São crenças que trazem consequências desastrosas.

 

 

Em regiões da RD Congo e Angola, numerosas crianças são agora acusadas de bruxaria e sofrem abusos e abandono. Defensores dos direitos das crianças estimam que milhares de crianças tenham sido acusadas de feitiçaria e vivam nas ruas de Kinshasa, depois de terem sido expulsas das suas casas e abandonadas pelas famílias, uma decisão muitas vezes motivada pelo facto de assim se tornar desnecessário continuar a alimentá-las ou cuidar delas. Em Angola, o fenómeno das crianças feiticeiras verifica-se entre o grupo étnico Bakongo, havendo centenas de casos reportados, principalmente nas províncias no Norte do país, Uíge e Zaire, bem como nos bairros da capital, Luanda.

Comparando o fenómeno, observa-se a mesma configuração de crise social, emergência de igrejas pentecostais e rearticulação de parentesco. A acusação de feitiçaria a crianças é mais uma das novas formas de exclusão e violência sobre a infância, como a pedofilia, abusos sexuais, tráfico de órgãos e crianças-soldados.

Para a antropóloga social brasileira Luena Pereira, da Unicamp, universidade estadual de Campinas, as acusações de feitiçaria a crianças aparecem como resultado da desestruturação familiar ocasionada pela guerra, no caso de Angola, e pela alta instabilidade política e crise económica e social na RD Congo. «As crianças são acusadas pelos seus próprios parentes ou vizinhos de manipularem forças advindas do mundo nocturno, ocasionando infortúnios como doenças, mortes, abortos e fracasso económico dos membros da família.»

Por sua vez, o antropólogo belga Filip De Boeck, da Kuleuven, universidade católica de Lovaina, destaca a «alteração da balança de poder entre gerações a partir da participação de crianças na economia informal e na exploração de diamantes» como factores importantes para a emergência das acusações.

 

Manipulação adulta

 

As crianças situam-se, na maior parte das vezes, na faixa etária entre 8 e os 13 anos, não sendo incomum a acusação a crianças muito pequenas, inclusive bebés. Comportamentos considerados desviantes de crianças e adolescentes, como agressividade, indolência, inquietude e dispersão podem justificar a acusação. Sintomas como fome excessiva, enurese nocturna (chichi na cama), sono agitado ou excessivo e doenças como epilepsia e sonambulismo também são associados a crianças feiticeiras.

A grande maioria das crianças acusadas é órfã de um dos pais ou ambos, ou filhos de pais separados, sendo acolhidas por parentes como tios ou avós, ou vivem com padrastos ou madrastas que muito frequentemente são os responsáveis pelas acusações.

Relatórios de ONG de protecção às crianças sugerem que as acusações de feitiçaria se relacionam com a tensão que sobrecarrega famílias extensas obrigadas a acolher crianças que, pela guerra, deslocamentos, migrações ou pela emergência do HIV-sida, perderam os seus parentes directos.

No passado, não se supunha que crianças pudessem ter o poder de manipular tais forças, faltando-lhes real intenção ou discernimento para voluntariamente fazer mal a outrem. Entretanto, os jovens passaram a ser utilizados por pessoas mais velhas como intermediários para fazer o mal. A presumida inocência ou irresponsabilidade dos menores permite esta manipulação.

Muitas crianças acreditam que são mesmo feiticeiras, uma crendice que é reforçada pela acção das igrejas pentecostais que se têm multiplicado na África Subsariana e que apresentam e denunciam crianças e as submetem a exorcismos. Filip De Boeck ressalva que as igrejas pentecostais na RD Congo «não fazem elas próprias as acusações de feitiçaria, mas apenas sancionam e legitimam as acusações saídas do espaço doméstico».

Segundo a investigação de Luena Pereira, publicada na revista «Religião & Sociedade» do ISER, instituto de estudos da religião, o feitiço é transmitido através da oferta de comida por um adulto à criança durante o dia. À noite, este adulto voltaria em sonhos a fim de cobrar a dádiva. A criança vê-se assim envolvida num circuito de reciprocidade maldita, tendo de pagar o que recebeu do feiticeiro oferecendo a vida de um parente seu. Assim, a criança torna-se também feiticeira e, sob o comando de um adulto, adquire poderes apenas acessíveis no mundo nocturno.

 

Milhares em Kinshasa

 

Na capital da RD Congo, o décimo país do mundo com menor índice de desenvolvimento humano, segundo dados da UNDP, programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, concentram-se entre 10 mil e 40 mil «shegue», crianças vagabundas e feiticeiras.

Para acolhê-las e tentar reinseri-las nos núcleos familiares originais, os padres da Congregação os Servos da Caridade construíram vários centros de hospitalidade e recuperação.

O padre Santiago Antón coordena o trabalho de quatro institutos em Kinshasa, onde cerca de 250 crianças recebem alojamento, alimentação, vestuário, aulas e acompanhamento médico. Em declarações à revista «30Giorni», Santiago Antón revela que «depois de algum tempo, consegue-se levar de volta para casa mais ou menos metade das crianças que encontramos», para referir que «na tradição rural congolesa, a criança é respeitada e, em condições normais, nunca seria abandonada à própria sorte. Na realidade, é uma maneira de se verem livres de mais uma boca a alimentar», aponta. O sacerdote denuncia ainda a prática da oração colectiva por seitas religiosas que oferecem efeitos anestésicos, em troca de dinheiro e poder. «É uma oração desligada da realidade com o objectivo de fazer esquecer a realidade. Quando se apresenta um problema, as pessoas não o enfrentam, procuram apagá-lo do horizonte inventando uma origem negativa, a criança feiticeira, e tentando eliminá-la. Quem administra esse sistema ganha dinheiro e poder praticando o exorcismo», denuncia.

Em 2003, centenas de jovens foram expulsos de casa em Mbuji-Mayi, uma cidade mineira, acusados de rogar uma praga que fez cair o preço dos diamantes. Actualmente, a maior parte dessas crianças vive em Matete, um dos bairros mais populosos de Kinshasa. De noite dormem nas bancas dos mercados, parques públicos e estação ferroviária. Para eles, a vida nas ruas é liberdade, depois das experiências traumáticas que tiveram com as suas famílias. A vida é dura, caracterizada por insegurança, relações sexuais forçadas, abusos, prostituição, drogas, maus tratos e injúrias. Um exército de rua que não fazia parte da realidade cultural do ex-Zaire, e que se desenvolveu com o início da desintegração do regime de Mobutu Sese Seko.

 

Rede de protecção

 

As autoridades do Norte de Angola identificaram quatro centenas de crianças de rua que foram abandonadas ou sofreram abusos depois de serem acusadas de bruxaria. Um relatório do INAC, Instituto Angolano da Criança, descreve o número de crianças acusadas de feitiçaria no país como «imenso». A noção de crianças feiticeiras não é novidade na região, uma vez que se trata de uma crença comum na etnia bantu, dominante em Angola.

Os funcionários do Governo atribuem o aumento no número de crianças perseguidas às três décadas de guerra e aos problemas na RD Congo. Os conflitos na região deixaram muitos órfãos, e fizeram que muitas famílias enfrentem dificuldades para se sustentar. «A situação das crianças feiticeiras surgiu quando os pais se tornaram incapazes de cuidar das suas famílias», justifica ao diário norte-americano «The New York Times» a responsável pelo INAC. «Por isso, eles começaram a procurar qualquer justificação para expulsar as crianças da família», esclarece Ana Silva.

Desde 2000, o Governo angolano vem desenvolvendo uma campanha para negar as lendas das crianças feiticeiras, mas a eficácia tem sido mínima. «Não conseguimos mudar a crença de que as bruxas existem», lamenta Ana Silva, para adiantar que «até mesmo os trabalhadores de organizações assistenciais acreditam que as bruxas existem». Por isso, o INAC tenta ensinar às pessoas que ocupam cargos oficiais que a violência contra as crianças é indefensável.

No início da década, na cidade angolana de Mbanza Congo, junto à fronteira com a RD Congo, depois de uma criança ter sido acusada de bruxaria e morta a facadas, funcionários da província e da Save the Children recolheram 432 crianças de rua e promoveram a reunião de 380 delas com os seus familiares.

Em consequência, igrejas fundamentalistas foram fechadas devido a denúncias de abusos contra crianças. Oito pastores congoleses foram deportados de Angola e várias aldeias formaram comissões para fiscalizar o respeito pelos direitos das crianças. As igrejas «proféticas» e «africanas» são acusadas de tratamento indigno, submetendo os menores a reclusão, jejuns e medicamentação.

 

Acolhimento de bruxas

 

Em 2003, uma parceria do INAC com a Save the Children e Christian Children Fund implantou uma rede de protecção da criança, na qual participaram agentes comunitários responsáveis por prevenir, detectar e resolver localmente casos de crianças acusadas de feitiçaria ou submetidas à violência, através de aconselhamentos às famílias e comunidades locais.

Já no Uíge, a perseguição às crianças está em ascensão. Na região, trata-se de «uma ocorrência muito comum nas aldeias. Sabemos que algumas crianças foram mortas», revela o bispo Emilio Sumbelelo, da Igreja Católica de São José.

A Igreja gere o único abrigo da aldeia para as crianças que são vítimas de perseguições como supostas bruxas. Num reduzido espaço, três dezenas de rapazes foram acolhidos. «Chegam muitas crianças em busca de protecção, mas infelizmente não dispomos de mais espaço», diz Emilio Sumbelelo. «Até agora, ainda não descobrimos maneira de combater este problema», lamenta o bispo.

Próximo da capital Luanda, cerca de 40 crianças angolanas, acusadas de serem feiticeiras, foram retiradas pela Polícia Nacional de duas igrejas ilegais em Sambizanga, onde se encontravam para serem curadas do mal. Os líderes religiosos das igrejas foram detidos na operação de resgate dos menores. Segundo o administrador municipal de Sambizanga, Tavares Ferreira, as crianças, com idades entre um e 15 anos, encontravam-se presas em duas casas que serviam de igrejas. «As crianças sofreram maus-tratos e foram castigadas», disse Tavares Ferreira. «O mais chocante é que foram os próprios pais que levaram os filhos para estas igrejas. Há crianças que estão nesses locais há mais de um ano e temos a informação de que aos fins-de-semana chegam a aparecer nessas igrejas cerca de 500 crianças», frisa.

Tanto o Governo angolano como as organizações da sociedade civil e as Igrejas, com destaque para Católica, têm apostado no combate a estas práticas por meio de campanhas de sensibilização, criação de centros de acolhimento e ainda na perseguição aos autores desses crimes.

 

 

 

 

Alvos do Diabo

 

Desde sempre, os albinos da África Subsariana enfrentam a discriminação, por serem diferentes, e a superstição, por se acreditar que o consumo de poções com partes do corpo de despigmentados traz sorte. Muitos albinos sofrem dificuldades de adaptação social e emocional. A situação tornou-se mais perigosa nos últimos anos na Tanzânia, onde os «filhos da Lua» estão a pedir protecção especial depois de uma série de assassínios ligados a práticas de feitiçaria. Pelo menos 25 pessoas foram mortas só no último ano. Feiticeiros estarão a oferecer órgãos humanos para venda, depois de convencer os seus clientes que poções feitas com pedaços de corpos com ausência de pigmentação podem fazê-los enriquecer. Calcula-se que existam cerca de 170 mil albinos na Tanzânia, o que já levou o presidente, Jakaya Kikwete, a ordenar a realização de um censo para lhes oferecer protecção. No Maputo, albinos moçambicanos criaram recentemente a ADODs, a primeira associação representativa e de apoio na doença aos portadores do albinismo, mas sobretudo para contrariar a discriminação de quem os considera «filhos do Diabo».

 


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