
O ano de 1960 ficou marcado na História contemporânea como o «ano de África». Entre 1 de Janeiro e 28 de Novembro desse ano, 17 territórios africanos proclamaram a sua soberania política. É o maior processo de independências da História num só ano. Hoje, a população dos 17 novos Estados ultrapassa os 399 milhões de habitantes, ou seja, 39 por cento da população total do continente.
O que ocorreu na África em 1960 é um acontecimento excepcional na História do século xx, que deu uma nova fisionomia ao continente, à sociedade internacional e às próprias Nações Unidas. Os centros de decisão continuavam a estar em Washington, Londres, Paris e Moscovo, mas abriu-se um novo pólo para reforçar ou captar alianças e influências num mundo em que as colónias começavam a fazer parte do passado.
Dos 17 países que proclamaram a sua independência, 13 eram colónias francesas, uma belga (República Democrática do Congo), uma inglesa (Nigéria), outra anglo-italiana (Somália) e outra anglo-francesa (Camarões). Esta última, que era colónia alemã e se dividiu depois da I Guerra Mundial em dois territórios – um sob administração inglesa e outro sob administração francesa –, proclamou uma soberania unificada, tal como tinha estado sob a administração alemã. Também a Somália unificou os seus territórios da Somália italiana e a Somalilândia inglesa. Actualmente, a Somália está fraccionada “de facto” em três Estados: a Somália propriamente dita, Somalilândia e Puntlândia.
Antes de se produzir o boom, isto é, de 31 de Dezembro de 1959, havia em África apenas dez países soberanos, quatro dos quais na África Subsariana: Libéria (desde 1847), África do Sul (desde 1910, com o nome de União Sul-Africana), Gana (desde 1957) e Guiné (desde 1958). Em 31 de Dezembro de 1960, havia já 27 países soberanos. Entre 1961 e 1970 proclamaram a sua soberania outros 15 países, nove entre 1971 e 1980, um entre 1981 e 1990 (Namíbia) e outro entre 1991 e 2003 (Eritreia).
Não podemos esquecer um facto singular: em 1960 estamos em plena Guerra Fria com dois blocos enfrentados à escala mundial: a União Soviética e um Ocidente liderado pelos Estados Unidos. Os galanteios de alguns chefes africanos com a União Soviética obedeciam mais a estratégias de poder do que a afinidades ideológicas. Na realidade, os países colonizadores que concederam as 17 soberanias em 1960 levaram a cabo uma política de continuidade e de intensificação dos laços políticos e económicos. Efectivamente, não houve em nenhum destes países lutas anticoloniais. Os processos – de autonomia, primeiro, e de independência, depois – foram pacíficos, ainda que em alguns casos, como no Congo Belga, tivessem levado a semente da desagregação: aos 11 dias de proclamação da independência, eclodiu a divisão de Katanga, dirigida por Moïse Tshombé, impulsionada, contudo, pela companhia belga União Mineira do Alto Katanga.
Os países africanos que acederam à independência em 1960 eram formados por muitas etnias distintas, que foram, por vezes, rivais irreconciliáveis. Os seus presidentes esforçaram-se por constituir um Estado-nação que aglutinasse todos os cidadãos. Isto abriu a porta aos sistemas de partido único, forjados em torno de um líder. Pretendia-se evitar o tribalismo, ainda que se caísse nele para garantir a fidelidade ao chefe de Estado, que era em determinadas ocasiões o chefe natural de um povo tradicional dominante. Os partidos de oposição foram engolidos por esta nova realidade política, que, no princípio, se ajustava bastante bem ao poder dos chefes tradicionais.
Não obstante, a implantação do partido único desactivou a actividade política e criou um paulatino distanciamento entre o poder e a sociedade. Isto explica que alguns chefes de Estado tenham sido eleitos com quase cem por cento dos votos – apresentavam-se como candidatos únicos às eleições – e esmagadoramente repudiados quando eram derrubados por um golpe de Estado, e inclusive aplaudido o seu assassínio, quando se produziu. Tem de se levar em conta que somente dois destes 17 pais da pátria deixaram o poder voluntariamente (Ahmadou Ahidjo e Léopold Sédar Senghor), dois morreram enquanto o exerciam (Léon M’Ba e Félix Houphouët-Boigny), quatro foram depostos e assassinados (Sylvanus Olympio, Abubacar Tafawa Balewa, N’Garta Tombalbaye e Ali Shermarke) e outros nove foram destituídos, embora salvando a vida. A lista de presidentes assassinados é muito mais ampla, mas aqui alude-se exclusivamente aos pais da pátria em 1960.
Lutadores pela liberdade
Quase todos os 17 primeiros presidentes tinham uma boa formação académica. Alguns, como Léopold Sédar Senghor, eram prestigiados professores; outros estudaram Medicina ou magistério. Todos eles formaram ou fizeram parte dos primeiros agrupamentos políticos, impulsionaram a independência e converteram-se em autênticos pais da pátria. Os mais sensibilizados ideologicamente passaram de um certo marxismo teórico a um socialismo moderado, como Senghor, ou a um capitalismo sem complexos, como Houphouët-Boigny. Alguns deles, como Senghor, Houphouët-Boigny, Modibo Keita, Hubert Maga e Hamani Diori, possuíam experiência política como deputados da Assembleia Nacional Francesa. A bem da verdade, nenhum dos 17 pais da pátria teve a pujança nem o carisma dos seus predecessores: Kwame Nkrumah, no Gana (independente em 1957), e Sékou Touré, na Guiné (independente em 1958). Até Nkrumah teve uma visão totalizadora da África, como grande paladino do pan-africanismo. Outros dirigentes, como Senghor e Modibo Keita, fomentaram uma federação. O Mali – também conhecido como o Sudão Francês – e o Senegal proclamaram a sua independência no mesmo dia (20 de Junho), formando a Federação do Mali, que se dissolveu exactamente dois meses depois, a 20 de Agosto de 1960.
Herança hipotecada
As 17 soberanias concedidas em 1960 não foram uma garantia de independência para os novos Estados. Nem no âmbito político nem no económico. O general Charles de Gaulle manifestou-o claramente nas suas memórias, publicadas em 1970: «O problema residia em devolver-lhes a soberania. Eu estava totalmente decidido a isso, pensando, desde logo, que ficariam vinculados a nós em espírito e na prática… A única coisa que porventura havia a fazer era transformar as antigas relações de dependência em vínculos preferenciais de cooperação política, económica e cultural… As minhas simples e sinceras intenções eram conduzir os povos de “França do Ultramar” a disporem de si mesmos e, por sua vez, concertar entre eles e nós uma cooperação directa.»
De Gaulle viu-se forçado a conceder as independências às suas colónias africanas, depois de ter recebido um «não» redondo da Guiné ao seu projecto de Comunidade Francesa, que figurava na nova Constituição de 1958. Neste mesmo ano, a Guiné declarava a sua independência sob a tutela de Sékou Touré.
Kwame Nkrumah deixou muito claro na sua biografia «Um Líder e Um Povo» – editada em 1957, mas escrita em 1956 – que, «uma vez obtida a liberdade, entra em jogo uma tarefa maior. Todos os territórios dependentes estão atrasados na educação, na agricultura e na indústria. A independência económica que deve seguir e sustentar a independência política exige todos os esforços do povo, uma mobilização total da inteligência e dos recursos de potencial humano.»
Não foi possível alcançar esta meta, entre outras razões porque os novos países tinham uma economia orientada para a produção de matérias-primas, tanto agrícolas como mineiras, mas não para a transformação de produtos in situ. A África perdeu assim o comboio da industrialização e ficou presa à dependência das antigas metrópoles, as quais haviam organizado os sistemas de produção que melhor satisfaziam os seus interesses e não as necessidades das populações africanas. Demonstrou-o com toda a clareza o agrónomo francês René Dumont no seu célebre livro «A África Negra Começou Mal», publicado em 1963.
A hecatombe eclodiu em cadeia em 1973, quando se produziu a primeira grande crise do petróleo. Foi nesta época que a dívida externa começou a asfixiar os países africanos; desde então não mais levantaram a cabeça.
Outro duro golpe ao processo foi a instabilidade política. Com a escalada do golpismo militar, a criação de exércitos desmesurados e a compra de armas, com o pretexto de defender a unidade nacional, deixaram-se para segundo plano os investimentos em saúde, educação e infra-estruturas. Daqueles barros vêm estes lodos, e hoje na África há mais de 100 milhões de armas de fogo.
É verdade que na década de 1960 os países que içaram a bandeira da independência não estavam em piores condições do que muitos dos países asiáticos e latino-americanos. Cinquenta anos depois, muitos figuram na lista dos chamados Estados falidos e vêem como as suas gerações jovens têm somente uma ambição: emigrar para a Europa.
Terceira colonização
A pior parte dos novos países independentes ficou para o Congo Belga, hoje República Democrática do Congo. Não foi o país com mais golpes de Estado, mas neste país concitaram-se e continuam a concitar-se os interesses mais espúrios, que explicam as contínuas e devastadoras guerras. Tão-pouco houve muitos golpes de Estado na Somália, e hoje é um país fragmentado. A Nigéria padeceu a primeira grande guerra civil (1967-1970), com a tentativa de divisão do Biafra, e já então se percebeu a intensidade do cheiro a petróleo.
No Congo, depois rebaptizado Zaire por Mobutu Sese Seko, que depôs Joseph Kasavubu a 24 de Novembro de 1965, instalaram-se os primeiros mercenários com o pretexto da divisão de Katanga, em primeiro lugar, e da rebelião dos Simbas, a seguir.
De alguma forma, a República Democrática do Congo tornou-se o paradigma da intrusão estrangeira num Estado soberano, que teve como corolário o fracasso das instituições e um travão ao desenvolvimento. O Congo é um país muito rico, onde vivem presentemente mais de 70,5 milhões de habitantes, na sua maioria abaixo do limiar da pobreza. A ambição desmedida das grandes potências e das multinacionais foi – e é – a causa da instabilidade, das guerras e da exploração das suas matérias-primas: primeiro o urânio e o cobre de Katanga, depois o ouro e os diamantes, para concluir com o coltan. Os Congoleses pagaram muito caro esta intrusão, apoiada por países vizinhos como o Uganda e o Ruanda.
A esta instabilidade há que acrescentar o auge da corrupção, que se incrementou exponencialmente nos países com matérias-primas muito apetecidas pelo Ocidente, como os hidrocarbonetos. Esta é a causa fundamental do que se baptizou como «a terceira colonização», mais subtil do que as duas anteriores: o colonialismo (desde a repartição do continente na Conferência de Berlim até às independências) e o neocolonialismo, uma vez alcançada a soberania política. Nesta terceira colonização, não só se está a acelerar a exploração de matérias-primas, como as multinacionais estão a adquirir em África milhões de hectares de terra para semear produtos agrícolas destinados à produção de biocarburantes.
Partidos Políticos
A adopção do pluripartidarismo, na evolução recente da política africana (ver caixa) não está a resolver os problemas de convivência e de desenvolvimento, entre outras razões porque não depende apenas do sistema. Muito menos o conseguiram os regimes militares e os partidos únicos. Detecta-se um vazio de poder real, acompanhado de dois factores preocupantes. Em primeiro lugar, o abismo cada vez maior entre o poder e a população civil; esta perdeu a fé nos seus dirigentes, pois são incapazes de satisfazer as suas necessidades vitais, enquanto eles enriquecem escandalosamente. Disse-o com toda a crueza o escritor nigeriano Wole Soyinka, Prémio Nobel da Literatura em 1986: «A terrível dor que a África hoje sofre não é causada por inimigos externos, mas internos. Os líderes africanos estão a afundar os seus povos no abismo enquanto lutam para estabelecer o seu próprio domínio.»
A distância entre o poder e os cidadãos impulsionou estes a desembaraçar-se como podem, acabando muitos deles – sobretudo os jovens – nas rotas imprevisíveis em direcção a uma Europa mítica e opulenta. Antigamente, os jovens africanos que vinham para a Europa era para se matricular nas universidades. Hoje chegam – muitos deles em pateras e canoas do tipo caiaque – para encontrar qualquer trabalho que os Europeus não queiram. São a boat people do desengano e da frustração.
África tem de ser ela mesma
Entre 1960 e 2010, houve nos países africanos 278 chefes de Estado distintos (incluindo os dois do Sara Ocidental); alguns deles repetiram mandato. Nem todos tiveram noção da dimensão da exigência de presidir ao destino de tantos povos. Entre outras razões, porque a maioria deles acedeu ao poder de maneira violenta e com a pretensão não tanto de governar quanto de dominar e monopolizar os recursos para seu benefício e da sua própria família. Outros entenderam muito bem o que exigia serem servidores da pátria, isto é, dos cidadãos, como Julius Nyerere e Nelson Mandela.
O grande problema que se coloca hoje à África é ser ela mesma: no âmbito político, no económico e no cultural. Não é fácil, pois o continente africano é novamente um grande objecto de desejo para os países industrializados, alguns deles – como França, Bélgica e Grã-Bretanha – antigas potências colonizadoras. Uniram-se-lhes, contudo, mais pretendentes: Estados Unidos, directamente ou através das suas multinacionais; a Rússia retoma o papel da União Soviética, que penetrou em África com o pretexto de lutar contra o imperialismo ocidental (daí a sua influência através de Cuba em Angola, Moçambique e na Etiópia de Menghistu Haile Mariam); a China economicamente neoliberal; Brasil; Índia…
Todos estes países, muito em especial a China, assaltaram a África de formas mais subtis, mas nem por isso menos depredadoras, como aconteceu com o petróleo sudanês. Viram no continente africano um imenso viveiro de matérias-primas para impulsionar as suas economias emergentes, mas não promoveram a indústria nem empresas de transformação em solo africano. Numa das visitas oficiais que realizou à África do Sul, o presidente chinês Hu Jintao teve de suportar a manifestação dos trabalhadores sul-africanos contra a concorrência desleal dos têxteis com a marca made in China, porque punham na rua mais de 100 mil trabalhadores. Não é tudo ouro o que reluz nas relações comerciais Sul-Sul.
Os herdeiros daqueles anos gloriosos do boom das independências têm agora o repto de levar para a frente países estagnados no século xxi com a fome a morder-lhe os calcanhares. Poucos podiam imaginar, há 50 anos, que os Africanos iam pagar um preço tão caro pela soberania política.
Os 17 países do boom
Camarões: 1 de Janeiro
Togo: 27 de Abril
Mali: 20 de Junho
Senegal: 20 de Junho
Madagáscar: 26 de Junho
Somália: 26 de Junho
RD Congo: 30 de Junho
Benim (então Daomé): 1 de Agosto
Níger: 3 de Agosto
Burkina Faso (então Alto Volta): 5 de Agosto
Costa do Marfim: 7 de Agosto
Chade: 11 de Agosto
República Centro-Africana: 13 de Agosto
República do Congo: 15 de Agosto
Gabão: 17 de Agosto
Nigéria: 1 de Outubro
Mauritânia: 28 de Novembro
Perfil dos primeiros Chefes de Estado |
Países | | Idade de acesso ao poder | Anos no poder | Fim | Profissão |
Benim (antes Daomé) | Hubert Maga (1916-2000) | 44 anos | 5 anos | É deposto | Professor |
Burkina Faso (antes Alto Volta) | Maurice Yaméogo (1921-1993) | 39 anos | 6 anos | É deposto | Funcionário |
Camarões | Ahmadou Ahidjo (1924-1989) | 36 anos | 22 anos | Deixa o poder voluntariamente | Funcionário e operador de rádio |
República Centro-Africana | David Dacko (1930-2003) | 30 anos | 8 anos | É deposto | Professor |
Chade | François Tombalbaye (1918-1975) | 42 anos | 15 anos | É deposto e assassinado | Professor |
República do Congo | Fulbert Youlou (1917-1972) | 43 anos | 3 anos | É deposto | Sacerdote |
República Democrática do Congo | Joseph Kasavubu (1913-1969) | 43 anos | 5 anos | É deposto | Professor |
Costa do Marfim | Félix Houphouët-Boigny (1905-1993) | 55 anos | 33 anos | Morre sendo presidente | Médico |
Gabão | Léon M’Ba (1902-1967) | 58 anos | 7 anos | Morre sendo presidente | Despachante alfandegário e jornalista |
Madagáscar | Philibert Tsiranana (1912-1978) | 48 anos | 12 anos | É deposto | Professor |
Mali | Modibo Keita (1915-1977) | 45 anos | 8 anos | É deposto | Professor |
Mauritânia | Mocktar Ould Daddah (1924-2003) | 36 anos | 18 anos | É deposto | Licenciado em Direito |
Níger | Hamani Diori (1916-1989) | 44 anos | 14 anos | É deposto | Pedagogo |
Nigéria | Abubacar Tafawa Balewa (1912-1966) | 48 anos | 6 anos | É deposto e assassinado | Professor |
Senegal | Léopold Sédar Senghor (1906-2001) | 54 anos | 20 anos | Deixa o poder voluntariamente | Professor |
Somália | Ali Shermarke (1919-1969) | 41 anos | 9 anos | É deposto e assassinado | Doutorado em Ciências Políticas |
Togo | Sylvanus Olympio (1902-1963) | 58 anos | 3 anos | É deposto e assassinado | Licenciado em Economia |
Golpe a golpe
Nos últimos 50 anos, o continente africano foi cenário de contínuas guerras e conflitos. Neste período, produziu-se também mais de uma centena de golpes de Estado; vinte deles saldaram-se no assassínio do presidente, durante o próprio golpe ou em atentado:
Presidente derrotado (País) - Data
Sylvanus Olympio (Togo) - 13 de Janeiro de 1963
Abubacar Tafawa Balewa (Nigéria) - 15 de Janeiro de 1966
Johnson Aguiyi-Ironsi (Nigéria) - 26 de Julho de 1966
Ali Shermarke (Somália) - 15 de Outubro de 1969
Richard Rastsimandrava (Madagáscar) - 11 de Fevereiro de 1975
N’Garta Tombalbaye (Chade) - 13 de Abril de 1975
Ali Soilih (Comores) - 15 de Maio de 1975
Murtala Mohammed (Nigéria) - 13 de Fevereiro de 1976
Marien Ngouabi (República do Congo) - 18 de Março de 1977
William Tolbert (Libéria) - 12 de Abril de 1980
Anouar El Sadat (Egipto) - 6 de Outubro de 1981
Thomas Sankara (Burkina Faso) - 15 de Outubro de 1987
Ahmed Abdallad (Comores) - 26 de Novembro de 1989
Samuel Kanyon Doe (Libéria) - 9 de Setembro de 1990
Mohamed Boudiaf (Argélia) - 29 de Junho de 1992
Melchior Ndadaye (Burundi) - 21 de Outubro de 1993
Juvenal Habyalimana (Ruanda) - 6 de Abril de 1994
Cyprien Ntaryamira (Burundi) - 6 de Abril de 1994
Ibrahim Mainassara Baré (Níger) 9 de Abril de 1999
Laurent Desiré Kabila (RD Congo) - 16 de Janeiro de 2001
João Bernardo Vieira (Guiné-Bissau) - 2 de Março de 2009
O imperador Haile Selassie, da Etiópia, não foi assassinado quando foi destituído, a 3 de Julho de 1974, mas deixou-se morrer (27 de Agosto de 1975). Francisco Macías, da Guiné Equatorial, foi afastado a 3 de Agosto de 1979, julgado e fuzilado a 29 de Setembro desse mesmo ano.
Nos 17 países que proclamaram a independência em 1960, houve nada mais, nada menos do que 47 golpes de Estado. No Gabão, o presidente Léon M’Ba foi deposto pelos militares a 18 de Fevereiro de 1964, mas a França repô-lo no poder.
Em dois países (Camarões e Senegal) não se produziu nenhum golpe de Estado militar. Apenas dois «pais da pátria» de 1960 morreram no exercício do poder: Félix Houphouët-Boigny, na Costa do Marfim, e Léon M’Ba, no Gabão. Outros dois deixaram o poder voluntariamente: Léopold Sédar Senghor, no Senegal (Dezembro de 1980); e Ahmadou Ahidjo deixou-o por razões de saúde em Novembro de 1982, embora posteriormente tivesse confessado ter sido enganado. A eles juntar-se-ia Julius Nyerere, presidente da Tanzânia, em 1985.
Uma história, quatro etapas
Na breve história de independência africana houve quatro etapas. Na primeira etapa, afloraram os «pais da pátria», primeira geração de dirigentes eleitos democraticamente: é a era de Kwame Nkrumah, Félix Houphouët-Boigny, Sékou Touré, Julius Nyerere, Modibo Keita, Joseph Kasavubu, Léopold Sédar Senghor… Foram também os pais fundadores, em Maio de 1963, da Organização para a Unidade Africana, reconvertida em União Africana em 2002.
Na segunda etapa, mantêm-se muitos destes dirigentes e somam-se chefes de Estado militares, que acederam ao poder mediante um golpe de Estado: é a era de Joseph Ankrah, no Gana, Mobutu Sese Seko, no antigo Zaire, Jean-Bedel Bokassa, na República Centro-Africana, Idi Amín Dada, no Uganda… Todos eles têm uma característica comum: proíbem os partidos políticos e criam um partido único, fundado pelo próprio chefe de Estado. Houve, então, duas excepções: a Gâmbia e o Botsuana, que mantiveram os partidos políticos e as eleições democráticas. Mais tarde, uniu-se a eles o Senegal de Senghor.
Na terceira etapa, breve, surgem militares dispostos a governar com honestidade: é a era de Jerry Rawlings, do Gana, Thomas Sankara, do Burkina Faso, e a primeira etapa de Samuel Kanyon Doe, da Libéria. As reformas de Sankara não agradaram à França, que apoiou o golpe de Estado de Blaise Compaoré, em 1987, o qual conduziu ao assassínio de Sankara, a 15 de Outubro de 1987, com apenas 38 anos. Pouco depois, foram assassinados doze dos seus melhores colaboradores. Três anos antes do seu assassínio, Thomas Sankara pronunciou um memorável discurso na sede permanente das Nações Unidas. Disse, entre outras coisas: «Falo em nome das mães e dos nossos países privados dos seus recursos, que vêem morrer as suas crianças de malária e de diarreia, ignorando que existem, para as salvar, meios simples que a ciência das multinacionais não lhes oferecem, porque preferem investir nos laboratórios de cosméticos e de cirurgia estética, para satisfazer os caprichos de alguns homens e mulheres, cuja figura é ameaçada pelo excesso de calorias das suas comidas demasiado abundantes.»
Na quarta etapa, que começa em 1990, produz-se a eclosão do pluripartidarismo, na sequência da queda do Muro de Berlim e dos regimes comunistas: é a era dos convertidos ao pluripartidarismo, como Omar Bongo, Mathieu Kérékou, Kenneth Kaunda, Dénis, Sassou-Nguesso, Paul Biya, Teodoro Obiang…
Nesta quarta etapa, tem lugar o fecho quase completo do círculo das soberanias, com a independência do Zimbabué, em Abril de 1990, e da Eritreia, em Maio de 1993. Em Fevereiro de 1990, foi posto em liberdade Nelson Mandela e, em 1994, foi eleito presidente da nova África do Sul. Este «quase» prende-se com o ainda não resolvido conflito do Sara Ocidental, que é um problema de descolonização.
Na década de 1990, surge também um fenómeno novo: o apogeu do bandoleirismo de milícias de diversas índoles, rebeldes e «senhores da guerra»: entre outros, Charles Taylor, na Libéria, Joseph Kony, no Uganda, um sem-fim de chefes de clãs na Somália e incontáveis bandidos no Este da República Democrática do Congo. Tudo começou com as lutas na Libéria e estendeu-se à Serra Leoa, dois países que mergulharam no caos, nos quais se cometeram atrocidades inimagináveis contra a população civil. Apareceram crianças-soldados e meninas raptadas como escravas sexuais. Este fenómeno tornou-se igualmente pavoroso no Norte do Uganda.