Página Inicial







Actualizar perfil

Em Foco
Outubro de 2010

Israel – Vaticano: Diálogo sincero
Por: ARIEH COHEN, Asianews



Ao mesmo tempo que os Estados Unidos, em Washington, relançavam o diálogo entre Israel e os Palestinos, em Roma o Papa Bento XVI recebia o presidente de Israel, Shimon Peres. Um encontro importante, na procura de um diálogo sério e sustentado entre judeus e católicos.

 

Dificilmente o encontro, ocorrido a 2 de Setembro em Castel Gandolfo e ignorado em boa parte dos meios de comunicação, terá incidência particular sobre aspectos práticos, dado que o presidente de Israel é figura quase simbólica. Mas ele é sintomático da vontade de fazer avançar o diálogo e a procura de acordos entre Israel e a Santa Sé. Antes desse encontro, o octogenário chefe de Estado declarou: «As relações entre o Vaticano e o Estado Judaico são as melhores desde os tempos de Jesus Cristo, nunca foram tão boas em dois mil anos de História», e sublinhou depois: «O actual papa quer manter um diálogo sincero connosco e também nós com o Vaticano.»

 

Relações bilaterais

 

É difícil que a visita de Peres ao papa tenha uma incidência particular sobre aspectos práticos destas relações, que no essencial se desenvolvem em bem outras sedes. O presidente do Estado, em Israel, é uma figura quase apenas simbólica, uma vez que o poder executivo cabe ao Conselho dos Ministros. É mais provável que a viagem do presidente Peres esteja ligada à tarefa que ele se atribuiu desde há tempos de cuidar da imagem internacional de Israel, dado o cepticismo difuso face às intenções do Governo presidido por Benjamim Netanyahu.

Mas quanto às relações bilaterais com a Igreja Católica, estas encontram-se numa fase de particular relevo. É desde 29 de Julho de 1992 que a Santa Sé e Israel estão empenhados numa negociação tendente a alcançar uma série de tratados de carácter «concordatário» para conferir à Igreja Católica em Israel segurança legal e fiscal. Dois destes tratados já foram assinados e ratificados há anos: O Acordo Fundamental (30 de Dezembro de 1993), uma espécie de carta de direitos da Igreja no Estado judaico, e o Acordo sobre a Personalidade Jurídica (10 de Dezembro de 1997), que reconhece para efeitos civis a personalidade jurídica da Igreja e das entidades eclesiásticas. Nenhum dos dois, contudo, foi integrado na legislação israelita, o que por enquanto limita a sua utilidade.

 

Lugares Santos

 

Desde 11 de Março de 1999 as partes estão a negociar um terceiro acordo, o acordo que deverá confirmar o estatuto fiscal da Igreja em Israel, em especial as históricas isenções fiscais, essenciais para que a Igreja possa continuar a exercer as suas funções de representação na Terra Santa da Igreja universal como também de cuidado pastoral dos fiéis do lugar. Este terceiro acordo deverá igualmente pôr a salvo as propriedades, os bens imóveis, da Igreja em Israel, sobretudo no que respeita aos Lugares Santos, e prover também à restituição de alguns deles, por exemplo a igreja-santuário em Cesareia marítima, expropriada e arrasada na década de 1950. A próxima reunião «plenária» das negociações, que conjuntamente constituem a Comissão bilateral permanente de trabalho entre a Santa Sé e o Estado de Israel, está prevista para o dia 6 de Dezembro próximo, e entretanto, dizem fontes bem informadas, o trabalho prossegue apressado. Estados Unidos, França, Itália e outros países acompanham de perto, embora discretamente, o evoluir das negociações, coerentemente com o seu apoio, e dos seus cidadãos católicos, na presença e por obra da Igreja na Terra Santa

Alcançado este acordo, ou mesmo antes e paralelamente às negociações que lhe dizem respeito, a agenda prevê vários outros acordos não menos importantes. Nos últimos anos, três assuntos em particular foram publicamente sublinhados. Antes de mais um acordo que garanta e discipline de forma estável a emissão por parte do Estado de Israel de vistos de entrada e licenças de residência ao pessoal eclesiástico proveniente de outros lugares. Aqui a política do Estado foi oscilante, mas a orientação geral foi sobretudo restritiva. Mas acima de tudo pesa a incerteza normativa, a falta de critérios oficialmente publicados.

 

Assistência pastoral

 

Depois há um assunto da maior importância pastoral, uma normativa que garanta a assistência espiritual aos fiéis em condições de mobilidade limitada, em especial os presos, os militares e os hospitalizados. O acordo a esse respeito entre o Governo italiano e a União das Comunidades judaicas em Itália é muitas vezes citado como um modelo onde se inspirar, vista a analogia entre a pequena minoria judaica em Itália e a pequena minoria cristã em Israel. O terceiro assunto a que se aludiu muitas vezes publicamente nos últimos anos seria uma revisão do modo como apresentar Cristo, o Cristianismo e a Igreja no sistema escolar israelita. Desse modo seria possível garantir que haja efectivamente reciprocidade face ao ingente esforço realizado pela Igreja Católica nas últimas décadas para uma correcta, melhor, amigável, apresentação do Judaísmo e dos judeus na educação católica.

O jurista franciscano padre David-Maria A. Jaeger, perito nas relações Igreja-Estado em Israel, salienta as perspectivas positivas deste processo de diálogo: «Particularmente nos últimos anos, parece que as negociações, que constituem efectivamente este “diálogo” entre o Estado de Israel e a Igreja Católica, prosseguem com grande empenho e serenidade, como está patente aos olhos de todos, graças aos sucessivos “comunicados conjuntos” difundidos de todas as vezes pela comissão bilateral. Embora sem ignorar os problemas nos diversos sectores das relações quotidianas Igreja-Estado, o optimismo é de obrigação e já comporta em si mesmo uma influência decididamente benéfica.»


Comente esta informação

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados