Página Inicial







Actualizar perfil

Em Foco
Maio de 2017

Biodiversidade: Descompasso ecológico
Por: CARLOS REIS, jornalista



O desenvolvimento sustentável depende da diversidade biológica. Depois da «grande aceleração» na degradação dos sistemas naturais nos últimos sessenta anos, é o momento de inverter para a «grande transição», para um futuro ecologicamente sustentável.

 

 

A diversidade biológica de genes, espécies e ecossistemas descreve o número e a variedade de organismos vivos, resultado de mais de três mil milhões de anos de evolução. Saber quantas espécies habitam a Terra está entre as questões mais fundamentais da ciência. No entanto, os esforços para provar a biodiversidade do mundo são limitados e impedem a quantificação directa. A grande maioria das espécies são animais, com números progressivamente menores de fungos, plantas, protozoários, algas e outros microorganismos, excluindo-se as bactérias. Depois de 250 anos de classificação taxonómica e 1,7 milhões de espécies já catalogadas, o estudo How Many Species Are There on Earth and in the Ocean, publicado na revista científica norte-americana PLOS Biology, sugere que cerca de 86 % das espécies existentes na Terra e 91 % das espécies no oceano ainda aguardam descrição e calcula em 8,7 milhões o número de espécies de seres vivos existentes. O estudo estima que a catalogação de todas elas poderá levar mais de mil anos. Os pesquisadores advertem, não obstante, que «muitas das espécies serão extintas antes de poderem ser estudadas».

Apesar de a extinção das espécies ser parte natural do processo de evolução, actualmente, devido às actividades humanas, as espécies e os ecossistemas estão mais ameaçados do que em qualquer outro período histórico. As perdas de diversidade ocorrem tanto nas florestas tropicais (onde estão presentes 50 % a 90 % das espécies já identificadas), como nos rios, lagos, desertos, florestas mediterrânicas, montanhas e ilhas.

Estimativas prevêem que, às taxas actuais de desflorestação, 2 % a 8 % das espécies que vivem na Terra venham a desaparecer nos próximos 25 anos. Estas extinções têm profundas implicações no desenvolvimento económico e social, além de serem uma tragédia ambiental.

A espécie humana depende da diversidade biológica para a sua própria sobrevivência, dado que pelo menos 40 % da economia mundial e 80 % das necessidades dos povos dependem dos recursos biológicos. Além disso, quanto mais rica é a diversidade biológica, maior é a oportunidade para descobertas na medicina e alimentação.

«Garantir um verdadeiro desenvolvimento sustentável para o crescimento da família humana depende da diversidade biológica, dos bens vitais e dos serviços que ela nos oferece. Não podemos reverter a extinção. Podemos, no entanto, prevenir a extinção futura de outras espécies», defendem as Nações Unidas, que reconhecem a grande importância para as economias turísticas de paisagens atraentes e de uma rica biodiversidade, o que sustenta o argumento político e económico para a conservação da diversidade biológica.

O programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e a Convenção de Diversidade Biológica (CBD) coordenam a Década das Nações Unidas para a Biodiversidade 2011-2020 para encorajar os governos a pôr em prática o Plano Estratégico para a Biodiversidade, sobre a importância de viver em harmonia com a Natureza.

 

Risco e resiliência

A medida do estado da diversidade biológica do mundo Living Planet Index preconiza que se tomem «medidas efectivas e urgentes para travar a perda de biodiversidade». No relatório Living Planet Report 2016, o World Wide Found for Nature (WWF) mostra um declínio de populações e espécies de 58 % entre 1970 e 2012. Só as populações de espécies de água doce sofreram um declínio de 81 %.

O crescimento populacional e o consumo humano são os motivos para a enorme perda, enquanto a destruição do habitat e o comércio da fauna silvestre são as principais causas. A exploração de caça, pesca e captura acidental já é totalmente insustentável.

«A nível global, necessitamos do equivalente a 1,4 planetas para dar vazão aos nossos estilos de vida. Esta é a actual Pegada Ecológica da humanidade», regista o WWF. Por ano, a humanidade usa 40 % mais recursos do que a Natureza é capaz de regenerar nesse período.

O uso de recursos em velocidade superior à capacidade de regeneração e criação de resíduos como CO2 em velocidade superior à capacidade de absorção recebe o nome de descompasso ecológico, que leva ao esgotamento de recursos. A pressão é agravada pelas mudanças climáticas. «No fim de contas, a perda da biodiversidade é a maior ameaça à estabilidade e à segurança do mundo hoje», resume o WWF. Entrámos no Antropoceno, uma nova era geológica na história da Terra, em que os seres humanos, em vez das forças naturais, são a principal causa da mudança global. Depois da «grande aceleração» na degradação dos sistemas naturais nos últimos sessenta anos, é o momento de inverter para a «grande transição», no sentido de um futuro ecologicamente sustentável.

 

Números

8,7 milhões é o número estimado de espécies de seres vivos existentes na Terra.

São necessários 1,4 planetas para dar vazão aos actuais estilos de vida da humanidade.

5,8 % é o declínio de populações e espécies entre 1970 e 2012.

 


Comente esta informação

Imprimir   |   Enviar a um amigo



© copyright Missionários Combonianos - Revista Além-Mar | Todos os direitos reservados