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Maio de 2017

Combonianos em Portugal: 70 anos de histórias com missão
Por: P. MANUEL AUGUSTO LOPES FERREIRA, mccj



 

Os Missionários Combonianos cumprem 70 anos de presença em Portugal. Uma fundação que surge e cresce como resposta aos novos desafios da missão no País e no mundo.

 

 

Os Missionários Combonianos chegam a Portugal em Abril de 1947. A decisão de iniciar esta nova presença comboniana na Europa é tomada no Natal de 1946, em Verona, na Itália, quando o superior-geral do instituto comboniano, o P.e António Vignato, encarrega o P.e João Cotta de abrir uma casa de formação em Portugal.

 

Um seminário

Esta decisão é consequência de um passo dado pelo instituto comboniano, a 4 de Março de 1946, com vistas a estender a sua presença missionária ao Norte de Moçambique. O acordo, entre a Secretaria de Estado da Santa Sé e o Instituto Comboniano, para esta nova abertura africana, em terras moçambicanas, contempla a abertura de um seminário em Portugal, para cumprir quanto estabelece o Acordo Missionário (assinado entre a Santa Sé e o Governo português, a 7 de Maio de 1940, que estabelece que as corporações missionárias com missionários em territórios de administração portuguesa devem abrir casas de formação em Portugal).

O alargamento da missão comboniana, do seu território tradicional – o Vicariato da África Central, confiado pela Santa Sé a Daniel Comboni (1831-1881) e aos seus missionários – a Moçambique, deixa os Combonianos com a responsabilidade de abrirem quanto antes um seminário para a preparação de missionários combonianos portugueses.

 

Acolhidos em Viseu

A pessoa encarregada desta abertura, o P.e João Cotta, é um veterano da missão comboniana no Sudão. Chega a Lisboa no dia 1 de Abril de 1947. Depois de peregrinar por Lisboa, Fátima, Aveiro, vai a Viseu no dia 22 de Abril de 1947. Aqui sente-se afectuosamente acolhido pelo bispo da diocese, D. José da Cruz Moreira Pinto, e pelo clero diocesano. E é aqui que procura um lugar para iniciar a presença comboniana.

A 17 de Outubro de 1947, o P.e João Cotta regista o instituto comboniano junto do Governo Civil de Viseu e a 20 desse mês e ano formaliza a compra da Quinta de Santa Eugénia, um terreno na estrada de Mangualde, à saída de Viseu. A 3 de Novembro desse ano chegam os primeiros combonianos que irão, juntamente com ele, dar rosto e corpo à presença comboniana em Portugal. São eles os padres Ézio Imoli, Ângelo La Salandra e Rino Carlesi, que, não dispondo ainda de residência própria, se dispersam pelas paróquias de Bodiosa, Mangualde e Canas de Sabugosa, dedicando-se à aprendizagem da língua portuguesa e ao apostolado.

A primeira pedra do Seminário das Missões de Viseu é lançada no dia 1 de Junho de 1948. Um ano depois, a 14 de Agosto de 1949, está concluída a primeira parte e o seminário pode começar a funcionar como estabelecimento de ensino, abrindo as suas portas, a 9 de Setembro desse ano, para acolher o primeiro grupo de 17 jovens. Os anos sucedem-se, como se sucedem os grupos de seminaristas que entram no seminário cada ano. A conclusão das obras, essa demora por causa da escassez de recursos: finalmente, a 11 de Dezembro de 1955, o primeiro seminário comboniano em Portugal é solenemente inaugurado.

 

Missão aos jovens

Os Combonianos são um instituto de sacerdotes e irmãos missionários. Concluído o seminário em Viseu, para a formação dos seminaristas, é preciso pensar na formação dos candidatos a irmãos missionários. Nos primeiros dias de Janeiro de 1956, um primeiro grupo de cinco candidatos inaugura a casa do Faleiro, nas margens do rio Vouga, em Arcoselo das Maias.

Entretanto, os primeiros alunos entrados em Viseu estão a chegar ao 5.º ano do liceu e precisam de um lugar para fazerem o noviciado e serem iniciados à vida consagrada. A diocese de Braga e Vila Nova de Famalicão são as escolhidas para se estabelecer a comunidade do noviciado. A 17 de Outubro de 1956, inicia-se esta presença comboniana no Norte do país, e a 11 de Novembro desse ano abre-se oficialmente o noviciado, com um primeiro grupo de quatro noviços portugueses e onze italianos, na velha casa do passal da Igreja de São Tiago de Antas.

A seguir, é preciso pensar no estudo da Filosofia e na iniciação aos estudos teológicos. Decide-se pela diocese do Porto e procura-se um lugar nos arredores da capital do Norte, na (então) Vila da Maia. A 16 de Outubro de 1958, abre-se a comunidade comboniana em terras maiatas, com um grupo de dez candidatos estudantes de Filosofia.

 

E às paróquias

Os seminários e as comunidades combonianas crescem e afirmam-se como centros de formação e iniciação à vida missionária dos jovens portugueses provenientes sobretudo das dioceses de Viseu, Guarda, Lamego, Vila Real, Braga e Porto... Mas, logo desde os princípios a começar por Viseu, os seminários combonianos afirmam-se também como centros de animação missionária, de acção concertada para levar o carisma missionário às comunidades cristãs, às paróquias e à sociedade em geral.

Em Viseu, primeiro, e nas outras comunidades combonianas depois, nascem grupos de colaboradores e colaboradoras missionários, para quem se organizam encontros de formação nos seminários e excursões com os seminaristas durante o ano lectivo. A realização dos presépios monumentais, em Viseu pelo Natal, atrai um público alargado que se familiariza com o seminário e os missionários. Em Janeiro de 1956, nasce a revista Além-Mar, vocacionada para levar ao grande público o ideal missionário e a informação sobre a missão da Igreja no mundo. A animação missionária articula-se com a promoção vocacional, o trabalho de pastoral juvenil feito com a juventude portuguesa, para a interessar ao seguimento de Cristo para o serviço missionário.

Os seminários são símbolos do espírito missionário que anima o instituto comboniano. Os primeiros combonianos em Portugal sabem que têm uma tarefa que vai além da educação escolar dos candidatos: assumem-se, por isso, como animadores missionários, com a tarefa de semear espírito missionário no seio das paróquias e dioceses, no meio das comunidades cristãs de onde provêm os candidatos e com as quais estabelecem laços de proximidade, de amizade.

 

Acolhidos, mas suspeitos

Os primeiros combonianos em terras de Santa Maria apreciam os jovens portugueses que, às centenas, passam pelos seminários: procuram conhecer os ambientes de onde provêm, visitam os seminaristas nas férias, organizam encontros no seminário para os seus pais, familiares e benfeitores. Além disso, cultivam amizade com o clero das dioceses onde se radicam: clero e bispos das dioceses do Norte, a começar pelo bispo de Viseu, acolhem os missionários com afecto e interesse.

Os combonianos da primeira geração são italianos de origem e integram uma grande capacidade de aproximação às pessoas e sentido de amizade com uma grande abertura de visão cristã e social. O povo simples, as pessoas do mundo da cultura e da economia apreciam-nos porque eles trazem uma visão de futuro e um entusiasmo contagiante. O Dr. António de Oliveira Salazar, o homem-forte do Estado Novo, que completara o curso de Teologia no seminário maior de Viseu, conhece pessoalmente os missionários, à Missa e à mesa na casa Crespo em Viseu.

Na década de 50, nascem os movimentos independentistas em África e nas colónias portuguesas. A revista italiana Nigrizia, propriedade dos Missionários Combonianos, não fica em silêncio perante esta evolução da cena política africana e sai com uma série de artigos, durante o ano de 1960, que, aos olhos das autoridades portuguesas, deixam sob suspeita os Combonianos em Portugal.

Esta nuvem de suspeita adensa-se em Novembro 1964 e desfaz-se em tempestade, com a supressão da revista Além-Mar (5 de Novembro de 1964) por causa de um artigo sobre o Congresso Eucarístico de Bombaim e a ida do Papa Paulo VI à Índia. A decisão é dada a conhecer a 5 de Novembro de 1964 e a revista dos Combonianos só voltará a ser publicada meio ano depois, em Maio de 1965.

A segunda tempestade desta relação difícil entre os Combonianos e as autoridades políticas tem lugar dez anos depois, em Abril de 1974. Durante o ano de 1973, dá-se a tentativa de expulsão de Portugal de dois missionários combonianos italianos, por parte da PIDE (a Polícia Internacional de Defesa do Estado). E a 12 de Fevereiro de 1974, os combonianos em Moçambique assinam o documento Um imperativo de Consciência, em que se defende o direito do povo moçambicano à sua cultura e autonomia política. Como consequência, onze missionários combonianos são expulsos pelas autoridades portuguesas de Moçambique, a 13 de Abril de 1974. Teme-se o pior para a obra comboniana em Portugal. Mas a 25 de Abril acontece a reviravolta na cena política em Lisboa, que os Portugueses bem conhecem, e o sol volta a brilhar no horizonte da obra comboniana em Portugal.

 

Criatividade

Durante os anos 60 e 70, e não obstante as dificuldades do relacionamento com o poder político, os Combonianos em Portugal mostram capacidade inventiva e visão de futuro, em linha com o impulso renovador do Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965). Abrem uma comunidade em Lisboa, a 28 de Junho de 1966, para onde mudam a redacção da revista Além-Mar, iniciam a publicação de uma revista para adolescentes, a Audácia, e relançam a actividade editorial. Iniciam a sua presença em Coimbra, com a abertura de um seminário, no ano lectivo de 1970-1971. E a 18 de Outubro de 1972 estabelecem uma presença missionária no Ribatejo, com a abertura do noviciado em Santarém. Por fim, a 10 de Outubro de 1977, é aberta uma casa de formação para os irmãos missionários em Aveiro.

Este espírito de abertura e renovação continua activo nas décadas de 80 e 90, em que os métodos de educação e trabalho de animação missionária e promoção vocacional se renovam. Os frutos não se fazem esperar: na década de 70 entram no instituto quatro dezenas de missionários portugueses, sacerdotes e irmãos, e os números das entradas continuam altos na década de 80 e 90: nestas duas décadas são 47 os portugueses que se fazem missionários combonianos.

 

Missão universal

Até 25 de Abril de 1974, os combonianos portugueses só podem ser enviados em missão para Moçambique e para o Brasil. Por um lado, o Governo português dificulta a concessão de passaportes para países africanos, ou de outros continentes, que não têm relações diplomáticas com Portugal. Por outro, a maioria dos países africanos onde os missionários combonianos estão empenhados na evangelização vêem com maus olhos Portugal e os Portugueses por causa da questão colonial. Por fim, os missionários combonianos portugueses, até à década de 70, são poucos, apenas suficientes para corresponder às necessidades da obra comboniana e às exigências do Governo para ter missionários de nacionalidade portuguesa em Moçambique.

A chegada do 25 de Abril de 1974 abre os horizontes da missão comboniana, permitindo que ela se revele na sua identidade de missão universal, preferentemente africana. Os combonianos portugueses continuam a ir para Moçambique e para o Brasil, mas estão criadas as condições para novos destinos e empenhos, que não tardam em chegar. No fim da década de 70 os missionários combonianos portugueses estão já a trabalhar em cinco países africanos, do Togo ao Quénia, passando pela RD Congo. Mais tarde, nas décadas de 80 e 90, esta nota da missão universal continua a caracterizar os combonianos portugueses, presentes em novos países africanos (como o Chade, a Etiópia, o Sudão, a África do Sul e o Uganda), latino-americanos (como Peru, Equador, Colômbia e a Costa Rica) e asiáticos (Filipinas e China).

 

 

Breve cronologia: 70 anos dos Missionários Combonianos em Portugal

 

1947

A 23 de Abril de 1947, chega a Viseu o missionário comboniano italiano P.e João Cotta, para começar a presença do instituto no País.

 

1949

Começam em Viseu as obras do Seminário das Missões. Funcionará durante décadas como seminário menor.

 

1956

A 13 de Novembro de 1956, os Missionários Combonianos iniciaram a sua presença no Norte de Portugal, em Vila Nova de Famalicão.

 

1958

O seminário da Maia é a segunda casa fundada no Norte. Foi inaugurada no dia 15 de Outubro de 1958.

 

1966

Em Lisboa, a 15 de Julho de 1966, foi adquirida a casa que é a sede dos Combonianos em Portugal e das revistas Além-Mar  (iniciada em 1956) e Audácia (1966).

 

1970

Em 1970, foi construído o seminário comboniano de filosofia, em Areeiro, Coimbra. É fechado em 2012.

 

1972

Em 1972, foi inaugurada a casa comboniana no Jardim de Cima, Santarém. Funciona como noviciado.

 

1977

Em 1977, foi inaugurada a casa comboniana em Aradas, Aveiro. Funciona como centro de formação para Irmãos missionários. É fechada em 1996.

 

2010

A 19 de Setembro de 2010, foi criada uma comunidade comboniana em Camarate, no concelho de Loures.

 

2012

Em Setembro de 2012, os Combonianos chegam a Calvão (Vagos), na diocese de Aveiro.


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