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Em Foco
Junho de 2017

Peregrinação, festa e uma fé purificada
Por: ANTÓNIO MARUJO, jornalista



Em Fátima, o papa reiterou o seu programa de uma globalização construída «a partir das periferias das pessoas e dos excluídos». Foram 24 horas intensas, de peregrinação, festa e apelos a uma fé purificada. 

 

 

Foram 24 horas de uma intensa peregrinação, com apelos a uma fé purificada e um festivo testemunho do encontro entre o povo e o seu bispo. Esta pode ser uma forma de sintetizar a jornada que o Papa Francisco viveu em Fátima, a 12 e 13 de Maio passado, para assinalar os 100 anos dos acontecimentos da Cova da Iria e canonizar os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.

Nas ocasiões em que o papa esteve perto do povo, percebeu-se o clima de festa e proximidade: várias vezes ele deixou o papamóvel ou o veículo em que se fazia transportar para saudar doentes, crianças ou pessoas que lhe traziam uma mensagem especial. Em todos esses momentos, Francisco circulava entre uma multidão imensa, mas fixava-se em cada pessoa. A corrente de comunicação entre o papa e o seu povo traduz-se não só no clamor que cresce à passagem de Francisco, mas também nos gestos de afecto e ternura em que o papa se desdobra.

A peregrinação foi o mote desta viagem. Em Fátima, Francisco apresentou-se como peregrino entre peregrinos: «Obrigado por me acolherdes entre vós e vos associardes a mim nesta peregrinação vivida na esperança e na paz.»

Essa marca ficou assinalada logo no início quando, na Capelinha das Aparições, o “bispo vestido de branco” rezou durante oito largos minutos diante da imagem de Nossa Senhora. As centenas de milhares de pessoas que já enchiam o santuário fizeram silêncio com o papa, traduzindo nesse silêncio mais um factor de comunhão com o seu bispo. Um momento impressionante, recordando o que, na noite de 13 de Março, encheu a Praça de São Pedro, depois de o novo papa pedir ao seu povo que rezasse por ele e lhe desse a bênção.

O mesmo sentido de peregrinação também se notou na forma como, na noite de dia 12, o papa se decidiu aproximar da Capelinha das Aparições. Ao cimo do santuário, desceu do papamóvel e fez a pé o caminho que o separava da capelinha, sempre rodeado de aclamações. E, já, de muitas velas.

 

Maria «mestra» ou «santinha»?

A outra característica desta viagem foi o apelo a uma fé purificada. Na conferência de imprensa durante o voo de regresso a Roma, respondendo a uma pergunta sobre as alegadas aparições em Medjugorje (Bósnia), o papa repetiu, por outras palavras, o que já dissera em Fátima: «Eu, pessoalmente, sou mais ‘ruim’: prefiro Nossa Senhora mãe, nossa mãe, e não uma Nossa Senhora chefe de um departamento telegráfico que todos os dias, a determinada hora, envia uma mensagem; esta não é a Mãe de Jesus.»

O papa admitia, no entanto, que há um «facto espiritual» e «pastoral», relacionado com as pessoas que procuram este tipo de experiências «e se convertem, pessoas que encontram Deus, que mudam de vida...». E acrescentava: «Para isso, não há uma varinha mágica, e este facto espiritual-pastoral não se pode negar.»

Na oração à chegada, na capelinha, Francisco não se inibiu de apontar o que, para ele, deve ser um autêntico devoto de Maria, com uma linguagem nada doce sobre algumas práticas menos purificadas: «Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma “mestra de vida espiritual”, a primeira que seguiu Cristo pelo caminho “estreito” da cruz dando-nos o exemplo, […] a “bem-aventurada por ter acreditado” sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas» ou a «“santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço?»

Nessa oração, ele criticaria ainda a perspectiva de Maria «segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar» ou olhada como «melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso». E acrescentaria: «Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia.»

Para Francisco, a religiosidade popular é uma base em que a Igreja pode assentar a sua missão evangelizadora, sempre com esse horizonte da misericórdia, eixo central do pontificado. A partir de dimensões como a fraternidade, a relação física e tangível com o divino ou a profunda conexão com a cultura popular, é possível concretizar novas possibilidades de anúncio do evangelho, como ele vem defendendo, já desde quando era arcebispo de Buenos Aires e na perspectiva que consagrou em vários parágrafos da Evangelii Gaudium.

 

«Derrubaremos todos os muros»

Nessa nova linguagem proposta pelo papa para a tradução da religiosidade popular, deve registar-se que Francisco nunca tenha falado de «aparições», nas suas quatro intervenções em Fátima. E, quer antes da bênção das velas (o texto mais marcante da sua presença em Fátima), quer na recriação que fez da salve-rainha, quando chegou à capelinha, o papa mostrou alguns dos caminhos de uma religiosidade popular renovada.

Nesta oração do final da tarde, a frase central surge logo depois de se recordar o exemplo de Francisco e Jacinta «e de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho». O papa rezou, sintetizando várias ideias centrais do seu pontificado: «Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direcção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus.»

A mensagem que o papa deixou também não será estranha aos anseios dos peregrinos, que sentem a protecção maternal no santuário, como ele referia no voo de regresso. Francisco disse-o, na homilia de dia 13: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois […] “aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo” (Rm 5, 17).»

Na perspectiva do papa, a religiosidade popular e essa protecção que se vive e sente em Fátima deve incluir um empenhamento em favor da humanidade, em especial dos doentes e pessoas com deficiência, presos e deserdados, pobres e abandonados, como apontou na homilia de dia 13, depois de evocar uma das afirmações da agora santa Jacinta Marto, em que ela falava das pessoas «a chorar com fome», que «não tinham nada para comer».

Isso mesmo ecoava Viriato Soromenho-Marques, no Diário de Notícias de 17 de Maio: «Em Fátima, escutámos o Papa Francisco reiterando o seu programa de uma globalização construída a partir das periferias para o centro, das pessoas para a economia, dos excluídos para as políticas de integração pacificadora, do espírito para a matéria.»

 

«Uma Igreja livre, pobre de meios e rica no amor»

A mensagem do papa alargou o horizonte a outras questões. Ainda no dia 12, Francisco citou a Evangelii Gaudium (288), para dizer que, em Maria, «vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes». Esta «dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros» é que faz dela «um modelo eclesial para a evangelização.»

Depois, acrescentou: «Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo.» No actual debate sobre o acesso à comunhão das pessoas divorciadas que voltaram a casar, a afirmação do perdão de Deus para «sempre» e para «tudo» deve também ser registada.

Pela primeira vez, duas crianças que não morreram mártires foram canonizadas pela Igreja. Mas, mesmo se falaram com a linguagem do tempo em que viveram, não deixaram de ser sinais de um cristianismo autêntico, que não fica indiferente perante a sorte dos que sofrem: «Ao “pedir” e “exigir” o cumprimento dos nossos deveres de estado, o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada!», afirmou o papa na missa de canonização.

Na mesma ocasião, deixou o pedido, que ecoa o início do seu pontificado: a Igreja deve dotar-se de um rosto «jovem e belo» e ser capaz de brilhar. «Quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.»


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