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Dezembro de 2014

Jesus de Nazaré: Pacífico ou revolucionário?
Por: MARGARIDA SANTOS LOPES, Jornalista



Um revolucionário que queria derrubar um exército ou um pacifista que inspirou os primeiros cristãos a recusarem alistar-se no exército romano? Dois biblistas, Joaquim Carreira das Neves e Simon J. Joseph, analisam a controversa biografia do «Nazareno da História» da autoria de Reza Aslan.

 

O iraniano-americano Reza Aslan admite, numa entrevista por telefone, de Los Angeles (Califórnia, EUA), que podia ter escolhido «revolucionário» para descrever Jesus. No entanto, anota, na Palestina do século i, a palavra «zelota» não tinha conotação pejorativa. Pelo contrário, era um elogio para os judeus. Para Aslan, que emigrou de Teerão para os EUA depois de Khomeini ter instaurado uma República Islâmica, escrever sobre o Jesus não divino tornou-se quase uma missão.

Diz ele, no início da obra: «Quanto mais aprofundava a Bíblia para me armar contra as dúvidas dos não crentes, mais distância descobria entre o Jesus dos Evangelhos e o Jesus da História – entre Jesus, o Cristo, e Jesus de Nazaré. Na faculdade, onde iniciei os meus estudos oficiais de história das religiões, o desconforto inicial depressa se transformou na minha dúvida total» (pp. 16-17).

Joaquim Carreira das Neves, especialista em Estudos Bíblicos e Orientais, considera que o «ímpeto obsessivo» de Aslan em mostrar um Jesus que veio «trazer a espada e não a paz» talvez se deva ao facto de ter sido «um cristão evangélico ultraconservador», antes de se reconverter às origens muçulmanas dos antepassados. «Jesus nada tem que ver com o cristianismo fundamentalista.»

Aslan confessa: «A base do cristianismo evangélico […] é a crença incondicional de que todas as palavras da Bíblia são emitidas por Deus e verdadeiras, literais e isentas de erro. A súbita compreensão de que essa crença é pateta e irrefutavelmente falsa, de que a Bíblia está repleta de erros e contradições mais flagrantes e óbvios  […] deixou-me confuso e espiritualmente à deriva» (p.17).

 

Messias falhado?

 

No trajecto de «duas décadas de rigorosa investigação académica das origens do Cristianismo», Aslan deixou-se, então, seduzir por um outro Jesus: «o camponês e revolucionário judeu, que desafiou o regime do mais poderoso império que o mundo jamais conheceu e saiu derrotado».

Porque lemos, em O Zelota (p.187), que os judeus do século i «já tinham decidido construir o argumento teológico de que Jesus seria Cristo», perguntámos a Aslan se, na sua investigação, se deixou surpreender pelo que foi «descobrindo», ou se estava também determinado a desmontar, a qualquer custo, a «fabricação» de um «Jesus celestial» em que acreditou enquanto cristão evangélico. Respondeu: «Em parte alguma digo que Jesus não é Deus. Como investigador, esta questão não me interessa. Não contradigo a divindade de Jesus. Só não acredito que Jesus seja a única divindade na Terra, que seja exclusivamente divino. Não quis provar nada. O que digo é que a afirmação dos discípulos sobre a divindade de Jesus era invulgar, sem precedentes. Não é um facto histórico.»

«No que toca à investigação», acrescentou, «o mais difícil de aceitar foi a decisão de Jesus ir até Jerusalém. Não há maneira de entender esta decisão excepto como uma decisão de morrer. Porque fez isso? Estava a ser bem-sucedido. Tinha seguidores. Evitara todo o tipo de sarilhos. Conseguira escapar às autoridades. E, no entanto, um dia, sem que ninguém esperasse, decidiu: “Chega! Vamos sacrificar-nos.” Há algo de profundo nesta declaração e precisamos de a compreender.»

Se Jesus tivesse sido apenas mais um zelota, e um zelota falhado, teria Aslan publicado este livro? «Bem, bem....», replica o autor, hesitante. «Não considero Jesus um zelota falhado, mas um messias falhado. No século i, um judeu que proclamasse ser o Messias estaria a dizer que era descendente do Rei David... se não fizesse isso, não era o Messias. Dezenas de judeus clamaram ser “messias”, mas eram “messias falsos”. Por alguma razão, todavia, Jesus é apresentado como o verdadeiro Messias, apesar de ter fracassado como os restantes. Para 2000 milhões de cristãos em todo o mundo, e dois mil anos depois, Jesus é o Messias, mas não era este o significado de “messias” no seu tempo.»

Numa conversa telefónica com Carreira das Neves, este professor jubilado da Universidade Católica, em Lisboa, rebate: «Aslan concentra-se apenas no Evangelho de São João, capítulo II, que dá um grande relevo à chamada “limpeza” do Templo. Não está certo dizer que Jesus é um zelota só por causa daquele texto, mesmo que, aqui, Jesus tenha uma imagem de zelota. Noutros evangelhos, como os de Mateus e Lucas, temos apenas três ou quatro frases sobre a purificação do templo.»

«É de louvar o estudo que ele [Aslan] faz sobre os zelotas do tempo de Jesus, porque não há dúvida de que havia zelotismo», refere o frade franciscano, autor de várias obras, designadamente, Jesus Cristo – História e Fé (1989). «No tempo de Jesus, havia um messianismo zelótico, mas todos esses zelotas despareceram. Se Jesus tivesse sido apenas um zelota, teria desaparecido completamente da História.»

«Por cada argumento bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado acerca do Jesus histórico, há um argumento igualmente bem atestado, igualmente investigado e igualmente abalizado que se lhe opõe», reconhece Aslan no seu livro. Carreira das Neves, mesmo que elogiando «uma história muito bem escrita», é um dos críticos: «Os Evangelhos são estórias e não História. Quando Jesus prega o Reino de Deus, os cristãos entendem que este [Messias] é diferente do que era o do Antigo Testamento.»

 

Missão suicida?

 

«Quando Jesus começou o seu ministério, já tinha visto Roma destruir pelo menos meia dúzia de outros “messias” e seus seguidores», diz-nos o biógrafo Aslan. «Faz sentido que Jesus tenha querido esconder a sua identidade messiânica entre os fiéis. Talvez tenha sido, por isso, que escolheu a expressão “Filho do Homem”, porque Roma não a entenderia. Esta ambiguidade era benéfica. Após ter passado mais de 99 % do seu tempo na Galileia, a decisão de ir até Jerusalém e de se proclamar Messias significa, basicamente, que Ele escolheu uma missão suicida.»

«Quando Jesus diz aos discípulos “Se alguém quer seguir-me, pegue na sua cruz e siga-me”, é como se dissesse “têm de estar preparados para se sacrificarem”», opinou Aslan. «A cruz significava crime por traição. Jesus disse “vou ser um traidor; se quiserem vir comigo, têm de estar preparados para também serem traidores. Há a tentação de se afirmar que Jesus foi um revolucionário violento OU um pacifista. Não se admite que tenha sido as duas coisas ou nenhuma delas. Jesus estava consciente de que o seu grupo de seguidores não conseguiria derrubar o império que ocupava a Terra Santa. No entanto, como um bom judeu crente nas Escrituras, também sabia que só Deus poderia destruir os inimigos dos judeus. Sabia que a violência era necessária e inevitável – mas seria Deus a praticá-la.»

A interpretação de Simon J. Joseph, professor de Religião na Universidade Luterana da Califórnia (EUA) e autor do recém-publicado The Nonviolent Messiah («O Messias Não-Violento») é totalmente oposta à de Reza Aslan. O Jesus dos seus estudos disse «Perdoai os vossos inimigos» e «Ofereçam a outra face».

As frases que Aslan privilegia («Não vim trazer a paz mas a espada») provêm dos evangelhos de Mateus e Lucas, as primeiras fontes das tradições de Jesus, informa Joseph, em entrevista por correio electrónico. «Embora possam ser atribuídas ao Jesus histórico, não há nenhuma prova de que Jesus alguma vez tenha recorrido a violência para magoar alguém, muito menos para iniciar uma campanha militar contra Roma. O movimento cristão inicial ficou conhecido nos seus primeiros três séculos por ser pacifista. Os cristãos recusavam alistar-se no Exército romano porque, desse modo, tentavam seguir os ensinamentos de Jesus.»

 

Simplificar a História

 

Para Joseph, o facto de, na epígrafe do seu livro, Reza Aslan «exacerbar o argumento de um Jesus zelota faz com que a sua interpretação seja enganadora e irresponsável». E prossegue: «O verdadeiro significado da frase é o de que a lealdade a Jesus causa a divisão – simbolizada pela espada – no seio das famílias. Não tem nada que ver com violência física ou revolucionária. O seu contexto literário requer uma interpretação simbólica da palavra “espada”, e isso é algo que bem sabe qualquer estudioso sério do Novo Testamento – o que Aslan não é.»

«Amai os vossos inimigos» e «Ofereçam a outra face» são, segundo o biblista Joseph, «tradições de Jesus conhecidas e comprovadamente autênticas». Porque «pertencem às primeiras tradições de Jesus no material Q – habitualmente designadas como “Sermão Inaugural”. Amai os inimigos é um mandamento sem precedentes no Judaísmo original, e há consenso entre os historiadores de que se trata de um mandamento autêntico de Jesus».

Simon J. Joseph, por seu turno, lamentou «a simplificação de um complexo trabalho académico, a não revisão interpares e o facto de [o livro de Aslan] não se basear em nenhuma investigação original», considerando ainda que «é grave a interpretação errada dos conhecimentos dos especialistas nesta área».

«Não há nada sobre a crucificação que ligue Jesus a violência política ou a uma revolução militarista», garantiu Joseph. «O “facto” de só Jesus, e não os seus discípulos, ter sido preso indica que Pilatos sabia que os fiéis de Jesus não constituíam, para Roma, uma ameaça política ou militar. Em resumo, nada sugere que Jesus advogou ou participou em qualquer actividade de tipo zelota contra Roma.»


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