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O Acontecimento
Junho de 2014

Mundial de futebol: Juntos num só ritmo



Depois da estreia no continente africano em 2010, o Campeonato do Mundo de Futebol regressa ao Brasil na sua vigésima edição. A Copa das Copas está a inflamar paixões e protestos e, ao mesmo tempo, a criar laços comuns com a partilha global das emoções.

 

País sede do Campeonato Mundial de Futebol em 2014, o Brasil defronta o duplo desafio de criar condições estruturais para receber o evento e apresentar uma excelente selecção para fazer jus à condição de país do futebol e conquistar o título de hexacampeão mundial em casa.

 

O grande desafio é a modernização do país seguindo os padrões exigidos pelo modelo da Federação Internacional de Futebol (FIFA) para acolher o maior evento desportivo mundial. O processo exigiu a construção e remodelação de estádios e a modernização de instalações, equipamentos, serviços, segurança e transportes. «O cenário simboliza uma mudança em diversas dimensões sociais, políticas e económicas do país, bem como no próprio imaginário de construção da identidade nacional», observa a socióloga política brasileira Adriane Nopes à revista Sociologia, Ciência & Vida.

 

O Campeonato do Mundo de Futebol, assim como os Jogos Olímpicos em 2016, «vai muito além de um mero evento desportivo. Vai ser uma ferramenta interessante para promover uma transformação social», prevê Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol. A promoção de projectos e planos para o Brasil da actualidade não pode porém esquecer que os problemas sociais, económicos e políticos do país vão muito além da questão das infra-estruturas. O retrato das «desigualdades sociais do país como a sexta maior economia mundial, apresenta muitas contradições, principalmente socioeconómicas e educacionais, gerando um abismo que consequentemente se revela na falta de segurança, na falta de acesso à saúde e educação, bem como num racismo velado», regista Adriane Nopes.

 

Protestos populares

Estima-se que mais de 250 mil brasileiros foram removidos das suas casas por causa das obras de realização do Mundial de Futebol 2014. Um processo que se pautou por desinformação, ameaças e violência. Em 2012, as Nações Unidas questionaram a violação de direitos humanos na preparação da Copa do Mundo no Brasil, sobretudo no que diz respeito aos despejos forçados.

 

Para a organização Contas Abertas, entidade civil brasileira para a transparência pública, «pelo menos quatro dos 12 estádios construídos ou remodelados para a Copa no Brasil vão-se transformar em “elefantes brancos”», numa referência a empreendimentos dispendiosos e subutilizados. O valor gasto para remodelação ou construção dos 12 estádios chega ao equivalente a 2,4 mil milhões de euros.

 

Num país que surge no lugar 85.º, entre 186 países, no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas e onde a desigualdade entre géneros é marcante, a realização do FIFA World Cup 2014 e a consequente chegada de milhares de turistas, «só fará aquecer ainda mais as redes de aliciamento que se beneficiam do mercado da exploração sexual», alerta o colectivo popular CPC/SP à revista Carta Popular.

 

Um estudo da Fondation Scelles, instituição francesa contra a exploração sexual, comprova que as grandes competições internacionais permitem que as redes criminosas «aumentem a oferta» de pessoas que são prostituídas. De acordo com a instituição para a erradicação do trabalho infantil FNPETI, estima-se que existam 500 mil crianças e adolescentes na indústria do sexo no Brasil e surgem denúncias de exploração sexual nos arredores dos estádios.

 

«Apesar de a exploração sexual ter sido elencada entre as preocupações das autoridades brasileiras com a realização da Copa, pouco foi efectivado em termos de políticas públicas preventivas ou de combate ao tráfico de mulheres», aponta o colectivo popular CPC/SP.

 

Padrão FIFA

Para poder receber a Copa do Mundo, o Governo brasileiro foi obrigado a oferecer uma série de garantias à FIFA, nomeadamente a criação de zonas de excepção nas cidades em que se realizam jogos. A Lei Geral da Copa concede à FIFA e empresas parceiras isenção total de impostos no Brasil. O Mundial de Futebol no Brasil deverá ser o mais lucrativo da história da FIFA, ao render o equivalente a 323 milhões de euros aos seus cofres.

 

Governos estaduais e clubes brasileiros comprometeram-se a construir e remodelar estádios de acordo com o padrão de qualidade da FIFA, na criação de modernos estádios. Os custos dos novos recintos desportivos reflectem-se no preço dos ingressos, gerando um espectáculo para elites. «Neste processo, parcelas mais pobres da sociedade são excluídas e impossibilitadas de acompanhar ao vivo os jogos do desporto mais popular do país», lamenta o colectivo popular CPC/SP.

 

Mais preocupante é o aparato de segurança visando os protestos de movimentos sociais e manifestações durante a Copa do Mundo. O governo federal brasileiro gastou o equivalente a 16,2 milhões de euros em armamento menos letal, que inclui canhões de água, granadas, armas de choque eléctrico e balas de borracha. Uma tropa de choque especial com 10 mil homens também foi criada para actuar nas cidades em que se realizarão os jogos.

 

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República admite que as polícias militares dos Estados que enfrentaram manifestações cometeram excessos ao reprimir as marchas e actos cometidos pelos cidadãos que protestaram nas ruas contra a corrupção e a favor de investimentos em saúde, transporte e educação. Muitas das manifestações terminaram em actos de vandalismo de edifícios públicos e bancos. «A verdade é que não tínhamos uma polícia historicamente treinada para este tipo de manifestação», justifica Gilberto Carvalho.

 

A FIFA teme agora uma nova onda de manifestações durante a competição sob o lema «Não vai ter Copa», isto depois de ter «vivido um inferno» para organizar o evento, devido ao número de interlocutores políticos com que teve de dialogar. O secretário-geral da FIFA esclarece que «não é a FIFA que organiza o Mundial no Brasil, mas o Brasil que organiza o Mundial em 12 cidades. Se a prova for um fracasso, a FIFA fica mal», argumenta Jérôme Valcke, apontando que a Federação Internacional de Futebol deveria ter recebido os estádios em Janeiro, mas apenas os recebeu em Maio.

 

Copa das Copas

Num esforço de reverter a percepção negativa com a organização da Copa do Mundo, o Governo brasileiro lançou uma ampla campanha publicitária para promover a «Copa das Copas», assim designada pela presidente Dilma Rousseff. A aposta é numa mudança de humor dos cidadãos descontentes. «A chegada das selecções e o começo dos jogos vão criar um clima de festa no país», antecipa o ministro dos Desportos, Aldo Rebelo. Não é só o risco de manifestações que preocupa. Diversas organizações sindicais têm ameaçado com greves nas semanas que antecedem e durante o Mundial de Futebol.

 

Dilma Rousseff defende os investimentos feitos e assegura que os benefícios ficarão para os Brasileiros após o fim do evento. «As obras, rigorosamente falando, atendem à Copa, mas elas não são para a Copa», esclarece a presidente brasileira.

 

A organização do Mundial de Futebol «gerará reflexos e benefícios em diversos sectores da economia e da sociedade, sejam temporários ou duradouros, directos ou indirectos. Também apresenta vários riscos, necessitando de processos de gestão eficientes no sector público e privado», revela o estudo «Brasil Sustentável», promovido pela Fundação Getúlio Vargas e a consultora internacional Ernst & Young.

 

Entre Junho e Julho, são esperados 600 mil turistas estrangeiros, cerca de 10 por cento do total de visitantes estrangeiros que o Brasil recebeu em 2013. O instituto brasileiro de turismo Embratur estima que o gasto médio desses turistas será até 42 por cento maior. O turismo pode ainda beneficiar com a exposição do Brasil nos meios de comunicação internacionais. A riqueza gerada poderá equivaler a três por cento do PIB, riqueza produzida pelo país.

 

Ainda que as obras públicas não fiquem prontas a tempo do Mundial de Futebol, devem melhorar a qualidade dos serviços prestados. A capacidade dos aeroportos nas 12 cidades-sede deve duplicar.

 

Ganhos não mensuráveis poderão ocorrer na melhoria da auto-estima da população e da imagem do país no exterior. «Dependendo do sucesso dos jogos e de como conseguir capitalizar essa imagem positiva, o país terá benefícios por muitos anos», refere o estudo «Brasil Sustentável». O governo federal apela ao orgulho dos anfitriões. «Patriotismo, para muitos brasileiros, é apenas futebol na Copa do Mundo. Mesmo assim só se o Brasil ganhar», resume o frasista brasileiro Horlando Halergia.

 

Jogue pela Vida

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que a Igreja no Brasil «acompanha com presença solidária este evento que reunirá diversos países, e a possibilidade de propor uma reconciliação universal». Por ocasião da Copa do Mundo, os bispos convidam a aderir ao projecto «Copa da Paz» e à campanha «Jogue pela Vida», e a «denunciar o tráfico de seres humanos», para que este evento «seja lembrado como um momento de consolidação da cidadania». Os bispos salientam que o evento desportivo serve para reflectir com a sociedade sobre as relações pacíficas e culturais entre todos os povos, e também sobre os aspectos sociais e económicos envolvidos no desporto, reiterando que o dinheiro e o sucesso não podem prevalecer como objectivos finais. Também o Papa Francisco lembra que «actualmente, o futebol é um grande negócio, publicitário e televisivo, mas os factores económicos nunca podem prevalecer sobre os desportivos, sob o risco de contaminar tudo. O futebol tem uma responsabilidade social. É um factor social e exige uma responsabilidade da parte dos jogadores, dentro e fora de campo, e dos dirigentes», reflecte o pontífice, adepto de futebol.

 

É hora de África

O sorteio determinou oito grupos de equipas classificadas para a fase final do campeonato do mundo de futebol. Divididas entre as 12 cidades brasileiras, as 32 selecções tentarão chegar à final marcada para 13 de Julho, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Entre os favoritos surgem o Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha.

 

O brasileiro Pelé, eleito Futebolista do Século pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), surpreendeu quando previu um campeão mundial africano para vencer em 2000 mas o melhor que o continente conseguiu foram as presenças nos quartos-de-final dos Camarões (1990), Senegal (2002) e Gana (2008).

 

A Costa do Marfim é a selecção africana mais bem cotada para a Copa do Mundo no Brasil, seguem-se o Gana, Nigéria, Camarões e Argélia, as mesmas selecções que estiveram no mundial de futebol na África do Sul em 2010, já que a selecção anfitriã foi classificada automaticamente.

 

Agora, entre 12 de Junho e 13 de Julho, 30 mil milhões de espectadores vão familiarizar-se com o tatu mascote Fuleco, a bola Adidas Brazuca, alusiva às tradicionais fitinhas multicoloridas da Bahia e o hino oficial «We Are One (Ole Ola)», pelo cantor norte-americano Pitbull, juntos num só ritmo.


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