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Vocação e Vida
Dezembro de 2015

O amor liberta
Por: P.e MANUEL JOÃO P. CORREIA, Missionário comboniano



O Cântico dos Cânticos termina com uma nota de leveza: «Corre, meu amado! Sê como um gamo ou um filhote de gazela, pelos montes perfumados.» (8,14).

 

A agilidade caracteriza os dois amantes. Correr era o desejo da amada desde o início: «Arrasta-me atrás de ti. Corramos!» (1,4). Com ele deseja correr pelos campos (7,12). Também o amado «corre pelos montes, saltando sobre as colinas... semelhante a um gamo ou a um filhote de gazela» (2,8-9) e faz correr atrás dele a sua amada, por ruas e caminhos, à sua procura (5,6).

O amor é dança e ligeireza, dá asas aos pés que «correm sem se cansarem, andam sempre sem se fatigarem» (Isaías 40,31). Sem amor e paixão arrastamos os pés, sem entusiasmo.

O amor é criativo e imprevisível. Corre como o vento: «não sabemos de onde vem nem para onde vai» (João 3,8). Como o Espírito. Eis porque o papa pede aos religiosos que se deixem conduzir nos caminhos do futuro pelo impulso do Espírito Santo.

O amor é liberdade. Se, como diz Jesus, «a verdade nos tornará livres» (João 8,31-42), o amor que é verdadeiro não faz de nós escravos, mas torna-nos verdadeiramente livres. Por isso Santo Agostinho ousa exclamar: «Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.»

 

O Cântico: um hino à liberdade do amor

A liberdade do amor aparece em diversos trechos do Cântico. Por três vezes o amor suplica às mulheres de Jerusalém para que não o despertem: «Eu vos conjuro, mulheres de Jerusalém, pelas gazelas ou pelas corças do monte: não desperteis nem perturbeis o meu amor, até que ele queira» (2,7; 3,5; 8,4). Segundo um autor (Gianni Barbiero, Não desperteis o amor. Uma leitura do Cântico dos Cânticos) este refrão é o mais importante do livro e anuncia a tese fundamental de todo o poema: um hino à liberdade do amor. O Cântico seria, por conseguinte, uma reivindicação de liberdade em polémica contra o contexto religioso e social que tendia a aprisionar o amor e a sexualidade numa espessa rede de tabus, costumes e regras. As “filhas de Jerusalém” seriam a figura emblemática da interferência externa sobre o amor.

O pedido para “não despertar o amor” não significa apenas não incomodar os dois que, depois de se terem procurado por muito tempo, finalmente podem abraçar-se e dormir lado a lado. O amor aqui é personificado e o convite é para não acordá-lo até que ele assim deseje. Ou seja, o amor não deve ser perturbado, ele sabe quando deve acordar, dissolver a união e retornar à vida normal. O amor sabe como regular-se, é lei a si mesmo e ninguém deve interferir desde fora! Uma advertência contra a oposição dos irmãos (1,6; 8,9-10), os guardas da cidade (3,3; 5,7) as amigas invejosas (1,5; 2,7; 3,5; 8,4) ou os amigos sedutores (2,15).

Tal reclamação não quer ser anti-social, mas uma justa exigência de evitar interferências indevidas numa relação de amor. P. Beauchamp fala de tensão entre o amor e a lei: «O amor não é a lei e a lei não é o amor. Ninguém tem de pedir consentimento para amar. Ele vem das origens. E, por outro lado, o amor não pode ter lugar fora de um corpo social, mesmo que não tenha nele a sua origem».

 

Amor e vocação, liberdade e martírio

A vocação nasce sempre de um grande amor, seja ele vivido no matrimónio, na vida consagrada, sacerdotal ou missionária. Um amor que para ser grande tem a sua origem em Deus, e bebendo a essa fonte pode «amar até ao fim» (João 13,1): dar a vida pela pessoa amada. Livremente. O mártir é «uma pessoa extremamente livre», dizia o Papa Bento XVI na audiência de 11 de Agosto de 2010). À imagem do Mestre: «A minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou» (João 10,18).

A história hodierna está repleta do testemunho de tantos cristãos mártires. Recordemos, por exemplo, o dos sete monges cistercienses do mosteiro de Nossa Senhora de Atlas (Argélia), martirizados no dia 21 de Maio de 1996 (ver filme Homens e Deuses). No seu testamento, Christian de Chergé, prior do mosteiro, escrevera: «Se acontecer um dia – e poderia ser hoje – em que eu me torne uma vítima do terrorismo que agora parece pronto a engolir todos os estrangeiros que vivem na Argélia, gostaria que a minha comunidade, minha Igreja e minha família se lembrassem que a minha vida foi dada por Deus e a este país. Peço-lhes que aceitem que o Único Mestre de toda vida não desconheceu esta partida brutal».

Como o comboniano padre Ezequiel Ramin, assassinado no dia 24 de Julho de 1985, na Rondónia (Brasil), por defender os pobres. A eles ele dizia sempre: «A vocês pertence a minha vida e a vocês também pertencerá a minha morte».

 

Concluindo com Khalil Gibran

Gostaria de concluir este percurso sobre o Cântico dos Cânticos com dois textos do conhecido escritor libanês Khalil Gibran (1883-1931), tomados do seu famoso livro O Profeta.

 

Sobre o Amor

Então Almitra disse: Fala-nos do Amor.

E ele ergueu a cabeça e olhou para o povo

e uma grande quietude desceu sobre eles.

E com voz forte ele disse:

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o,

Embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.

E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o,

Embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir.

E quando ele vos falar, acreditai nele,

Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos

como o vento norte ao sacudir os jardins.

Pois o amor, coroando-vos,

também vos podará para purificar-vos.

E assim como se eleva à vossa altura

e acaricia os ramos mais tenros que oscilam ao sol,

Também penetrará até às raízes sacudindo

o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo, ele vos junta a si.

Malha-vos para vos pôr a nu.

Peneira-vos para vos libertar das impurezas.

Mói-vos até a alvura.

Amassa-vos até vos tornardes moldáveis;

E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado,

Para que vos torneis pão sagrado

para a sagrada festa de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,

para poderdes conhecer os segredos do vosso coração,

E, com esse conhecimento,

vos tomeis um fragmento no coração da Vida.

Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor

e o prazer do amor,

Então mais vale esconder a vossa nudez

e afastar-vos do campo do amor,

A caminho do mundo sem estações,

Onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos,

E chorar, mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo.

O amor não possui nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

Quando amardes não deveríeis dizer

«Deus está no meu coração»,

Mas antes «Eu estou no coração de Deus».

E não penseis que podeis alterar o rumo do amor,

Pois o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo que saciar-se

Mas se amardes e tiverdes desejos,

que sejam estes os vossos desejos:

Fundir-se e ser como um regato que corre

e canta a sua melodia para a noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.

Ser ferido pela própria inteligência do amor,

E sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio

e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio-dia e meditar no êxtase do amor.

Regressar a casa ao crepúsculo com gratidão;

E depois adormecer com uma prece

pelo bem-amado no coração

E um cântico de louvor nos vossos lábios.

 

 

 

 

 

Actividades para jovens

 

Todas as quintas-feiras, das 9h00 às 19h00, adoração pelas vocações, na Maia

Primeira sexta-feira do mês, às 18h00, adoração pelas vocações, na Maia

 

Estão disponíveis para acompanhamento espiritual e vocacional:

O P.e Leonel Claro, na Maia. Tlm: 968 107 616. Email: jovemissio@gmail.com; jovensemissao.blogspot.com

O P.e Carlos Nunes, em Lisboa. Tlm: 913 739 160. Email: jimsulmccj@gmail.com

 


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