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Setembro de 2015

Leigos para o Desenvolvimento: Capacitar e autonomizar
Por: CARLOS REIS



 

Os Leigos para o Desenvolvimento – organização não governamental católica – actuam no desenvolvimento local e participativo, em intervenções de longo prazo nos países de expressão portuguesa. Para os seus voluntários qualificados, desenvolvimento é o envolvimento de todos. 

 

 

Os Leigos para o Desenvolvimento (LD) assumem como missão promover o desenvolvimento de pessoas e comunidades com vista à sua capacitação e autonomização, por meio da intervenção de voluntários missionários qualificados. A associação de inspiração inaciana, que partilha com os Jesuítas princípios e missão, foi fundada em Lisboa em 1986 pelo padre António Vaz Pinto. «Os LD são uma organização autónoma assistida pela Companhia de Jesus, que dá apoio na identidade. Partilhamos a mesma espiritualidade», esclarece Carmo Fernandes, a directora executiva da associação. Depois de se estrearem em São Tomé e Príncipe, os LD vão para o Maláui, entre 1991 e 1994, onde apoiam moçambicanos em campos de refugiados. Acabada a guerra civil em Moçambique, os LD instalam-se nas províncias de Tete e do Niassa. Em 1996, abrem uma missão em Benguela e, em 2003 em Uíge, em Angola. «A nossa história e a história da Companhia de Jesus sempre estiveram muito ligadas a África», lembra Carmo Fernandes.

Tendo em conta a experiência dos LD, a Companhia de Jesus solicitou a presença da associação no esforço de reconstrução de Timor-Leste, nas áreas da educação e da promoção social. Em 2000, é aberta uma comunidade em Díli. Uma década depois, conseguiram criar condições para que todos os projectos locais sejam sustentados pela população local.

Actualmente com projectos de desenvolvimento em Angola, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, os LD actuam na área da formação e educação, dinamização e organização comunitária, empreendedorismo e empregabilidade, capacitação de agentes locais, promoção do voluntariado e pastoral.

 

Estar lá

A actuação dos LD processa-se por intermédio de jovens voluntários que permanecem no terreno pelo período mínimo de um ano, privilegiando a relação, o conhecimento local e a simplicidade de meios, criando assim a possibilidade do autodesenvolvimento das comunidades. «Os voluntários devem ser pessoas com qualificações e preparadas para viver e trabalhar em comunidade», pormenoriza a directora executiva, natural do Porto, e formada em Ciências Farmacêuticas. Partem depois de um ano de formação em Lisboa, Porto ou Coimbra. «Estamos agora a fazer uma experiência-piloto em Portimão», revela Carmo Fernandes. A aprendizagem organiza-se por núcleos, sessões quinzenais e encontros nacionais. Depois da partida dos voluntários todo o trabalho acontece nos países africanos com acompanhamento a partir de Portugal. «Procuramos que a nossa intervenção provoque a transformação social nos sítios onde estamos a intervir», resume.

Os processos de desenvolvimento são longos, em projectos que demoram de cinco a 20 anos, o necessário para que localmente os parceiros fiquem autónomos na dinamização, coordenação e gestão dos programas. «Isto só é possível quando há uma retaguarda com uma visão prolongada, além dos voluntários. Na sede da organização contamos com um grupo de sete pessoas que trabalha a tempo inteiro para dar o suporte a tudo o que acontece no terreno», explica Carmo Fernandes. Os projectos são definidos localmente pelas dioceses que desencadeiam o processo e pedem aos LD uma presença no terreno, que faz uma avaliação e diagnóstico para conhecer em pormenor a realidade e estruturar a intervenção.

 

Missão África

Os candidatos a voluntários chegam aos LD com as suas motivações. A formação é um tempo de acompanhamento e aprofundamento. «Temos de nos aperceber se a decisão de partir faz sentido para cada um dos candidatos, se é pela nossa associação ou por uma outra organização», clarifica Carmo Fernandes. Os voluntários não têm remuneração, mas para os LD há um custo, de envio e presença no terreno associado aos projectos.

As idades para voluntários à partida são entre os 21 e os 40 anos, para recém-licenciados ou já com experiência profissional. Para os formandos, há o acompanhamento de um formador, «padrinho» ou «madrinha», e de um assistente espiritual. Quando parte, cada voluntário sabe para que etapa do projecto vai e que receberá passagem de testemunho. «No início andava pelo bairro de Benguela a ouvir e entender. O caminho foi feito entre formação profissional e de grupo e experiências práticas de emprego e empreendedorismo. Estas mulheres são uma inspiração. Só me posso sentir uma privilegiada por viver esta experiência. O que julgo ser pouco pode significar tanto para quem recebe», explica Filipa Macedo, voluntária em Angola.

Em Setembro, concluído o círculo de formação de um ano, uma dezena de novos voluntários parte anualmente para Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, juntando-se para renovarem a missão no terreno. «A precariedade no trabalho em Portugal e a possibilidade de experiências de voluntariado menos exigentes fazem com que haja menos interessados no voluntariado dos LD. No entanto, pensamos que o período de formação é muito importante e que menos de um ano no terreno não dá para fazer um trabalho sério», considera Carmo Fernandes, que terminou a sua formação em 1995 e trabalhou três anos em São Tomé e Príncipe com comunidades rurais e associações de agricultores. Dos países africanos de expressão portuguesa, os pedidos de voluntários continuam a chegar para projectos de educação pré-escolar e de empreendedorismo para universitários em Moçambique e de alfabetização de adultos em Angola. «Também actuamos na formação profissional, emprego, saúde e na área comunitária», enumera a directora executiva dos LD.

Seve Taraveira, empreendedora de São Tomé e Príncipe, comenta: «Trabalho há quatro anos com os Leigos para o Desenvolvimento. Os LD são bons para a comunidade pois permitem às pessoas ganhar mais conhecimentos e ser mais activas. Os LD tiveram um impacto na minha vida pois comecei a trabalhar no negócio da farinha, que me permitiu ganhar conhecimentos e dinheiro como coproprietária do negócio de farinha de mandioca Sabor a Sul.»

A sustentabilidade da associação provém de fontes diversificadas para que o grau de dependência seja reduzido. «A principal fonte são as doações particulares de cidadãos, cerca de 40 por cento das receitas, depois as entidades públicas e as empresas, que colaboram muito pro bono», revela Carmo Fernandes.

Procura-se que os projectos tenham receita própria. O serviço de apoio escolar para o ensino secundário Explicações para o Desenvolvimento, na sede no Lumiar (Lisboa) e dirigido aos imigrantes, está agora aberto para a comunidade em geral para que outras pessoas possam beneficiar, pagando por isso, e constituir receita.

Os recursos humanos dos LD ascendem a meio milhar de pessoas, entre colaboradores e voluntários envolvidos em projectos. «Queremos trabalhar com as comunidades para que as respostas surjam e envolver o Estado como parceiro. As maiores dificuldades são os processos de atribuição de vistos», afirma. O alcance da intervenção é grande, com a associação a apoiar cerca de 10 mil pessoas e uma centena de organizações por ano. Com tempo, resiliência, motivação e espírito de missão o desenvolvimento é o envolvimento de todos.


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